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GM fez da própria imagem e do seu trabalho um antídoto à metáfora da doença no universo gayGM fez da própria imagem e do seu trabalho um antídoto à metáfora da doença no universo gay

Lançar mão de uma doença como metáfora é recorrente e cruel recurso censor ao longo da história. Pense no slogan “uma noite com Vênus e uma vida com Mercúrio”, que ironizava o tratamento doloroso que enfrentavam os vitimados por sífilis no final da Idade Média; na tuberculose como sintoma do romantismo; ou no ebola, contemporâneo demarcador do olhar redutor do Ocidente em relação ao Oriente – uma espécie de retorno do “O horror, O horror”, que Conrad exclama no final do romance Coração nas trevas. A virada entre as décadas de 1980 e 1990 trouxe a solidificação da aids como metáfora do comportamento gay no imaginário popular, varrendo para debaixo do tapete a luta por direitos simbolizada pela revolta de Stonewall (1969).

O ativismo gay da época precisou, antes de reivindicar igualdade de direitos, provar que não era um risco à saúde pública. Tão importante quanto encontrar uma cura para a aids, tornou-se urgente implodir a sua metáfora. Em 1990, em meio ao “campo de concentração social” sofrido pelos homossexuais, duas obras de cultura de massa aparecem reivindicando o orgulho gay justamente por seu elemento mais caro e vital – a salvação pela beleza. Lançados com cerca de seis meses de diferença, os clipes de Vogue, de Madonna, e Freedom! 90, de George Michael, foram tentativas de curar o discurso da doença.



Vogue é aparentemente mais incisivo que Freedom! 90 na sua relação com a cultura gay. A canção é referência a uma dança em que são mimetizados as poses das modelos da revista homônima e que primeiro se populariza em meio à cena disco dos anos 1970. Ao refazerem editoriais de moda, os bailarinos parecem dizer que a beleza pode ser um vírus, que contamina quem dela se aproxima, quem para ela observa, ainda que por alguns momentos na pista de dança. Talvez o maior barato da beleza seja justamente esse seu “ainda que por alguns momentos”, a sua certeza de efemeridade. Para os adeptos do vogueing a pose aristocrática de uma modelo num editorial jamais será um fim em si mesma.

Gravado num P&B nostálgico, Vogue permanece como o clipe mais iconoclasta da carreira de Madonna. O ponto mais erótico do seu casamento com a MTV, que tanto soube traficar para os lares de classe média imagens a desafiar o status quo. Para entender a música, era preciso, antes de escutá-la, “vê-la” e assim assistir ao desfile de homens gays reencenando o teatro déspota da beleza – e isso num momento em que homens gays ganhavam os noticiários em imagens de terror, abandonados em leitos de hospitais. Vogue não era sobre o prazer da dança. Era sobre salvar e reencenar o corpo. Era o corpo em luta contra a metáfora que o havia cercado, que o havia “interrompido”.


Quando das primeiras reações sobre a morte de George Michael na noite do domingo de Natal, era invariável que elas viessem acompanhadas do clipe de Freedom! 90. Quanta ironia que um dos rostos mais conhecidos da cultura pop esteja ausente em sua obra que melhor sobreviveu ao tempo! Mas convenhamos que não precisamos de Freedom! 90 para nos lembrar do seu brinco com um crucifixo, do seu Ray-ban de tamanho exagerado ou da sua barba milimetricamente descuidada. Há algo nos grandes ícones do pop que faz com que suas imagens tenham uma espécie de aderência própria, para além do tempo e da vontade dos artistas.

Freedom! 90 foi o segundo single do segundo disco solo de George Michael, Listen without prejudice vol. 1. Na capa do álbum, no lugar do seu rosto, vemos uma multidão, talvez de refugiados vindos de uma rave em Ibiza, achatada por um belíssimo P&B. Às vésperas de abandonar de vez sua imagem de ídolo teen e de acertar publicamente as contas com sua sexualidade, GM decide desaparecer para assim ficar mais visível. Sua imagem já fora defendida nos anos anteriores. Agora precisava negociar seu discurso.

A força de Freedom! 90 pouco reside no nosso exercício voyeurístico de olhar as top models em desfile pela sala. Reside, assim como em Vogue, na ilusão democrática da beleza. Eu, você, GM, e quem mais quisesse, podíamos ser uma daquelas imagens de perfeição. Olhar é ser, olhar é se tornar. Freedom! 90 parece uma ironia em relação aos padrões da beleza. Mas acaba fazendo reverência ao seu alvo. O canto da sereia ganha o jogo uma vez mais. E GM parece desde o início certo da sua submissão à beleza, por isso prefere se mostrar observando.

Freedom! 90 é o grito primal por autonomia num contexto em que toda uma geração de homens gays se vê aprisionada. E de dentro da sua jaula, protegido por toda beleza possível, George Michael nos delegou seu refrão definitivo na insistente repetição da palavra “liberdade”. Era impossível não ouvi-lo.

capa 198
CONTINENTE #198  |  Junho 2017

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