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Após morte do marido, Fred Smith, Patti Smith voltou a excursionar. Foto: DivulgaçãoApós morte do marido, Fred Smith, Patti Smith voltou a excursionar. Foto: Divulgação

“Aos 20 anos de idade, embarquei naquele ônibus. Estava com meu macacão de algodão, minha blusa de gola olímpica preta e a velha capa de chuva cinza que comprara em Camden. Minha pequena mala, de xadrez amarelo e vermelho, tinha alguns desenhos a lápis, um caderno, as Illuminations, algumas mudas de roupas e fotos dos meus irmãos. Eu era supersticiosa. Era uma segunda-feira; eu havia nascido em uma segunda. Era um bom dia para chegar a Nova York. Ninguém estava me esperando. Tudo esperava por mim”, escreveu Patti Smith, na aclamada autobiografia Só garotos (2010).

Em julho de 1967, Patricia Lee Smith saiu de Nova Jersey. Nada a prendia: havia largado a fábrica de triciclos e a faculdade de Pedagogia, não conseguia um emprego melhor, não tinha namorado, muito menos dinheiro. Ninguém a atava: os pais, os irmãos ou o filho que acabara de ter, fruto de uma relação fugaz com um rapaz de 17 anos. “Conforme minha gravidez avançava, tive que procurar refúgio em outro lugar. Vizinhos críticos dificultaram as coisas para minha família, tratando-a como se estivesse abrigando uma criminosa.”

Durante o período da gestação, recebeu a acolhida de um casal de artistas plásticos, que acabou adotando o bebê. À espera do parto, longe da família e sem rumo, buscava refúgio na arte: “Eu me deliciava com pequenos prazeres, enfiava uma moeda na jukebox e ficava ouvindo Strawberry fields três vezes seguidas. As palavras e a voz de John Lennon me davam força quando eu fraquejava”. O nascimento da criança, que ela não tinha condições de criar, foi entendido como o aviso para uma mudança. “Jurei a ela que seria alguém na vida.” Patti deixou Nova Jersey para viver o seu sonho. Apenas com a passagem de ida.

Esperançosa e inexperiente, desembarcou em Nova York, como o personagem de Jon Voight em Midnight cowboy (1969). Era uma época em que a cidade ainda não vendia o metro quadrado mais caro do mundo. Havia muita violência, prostituição e lixo nas ruas. Mas começava a ser criado o ambiente sociocultural que conduziu o lugar ao que é hoje. Recém-chegada, tornou-se rapidamente a moça da emblemática canção de seu ídolo Bob Dylan, Like a rolling stone (1965): sem lar, uma completa desconhecida, uma pedra rolante.

Mas, como dizia a canção Rolling stone, “pedra que rola não cria musgo”. Nessa jornada, perambulando por Nova York, faminta, dormindo ao relento, Patti finalmente conseguiu o emprego no lugar que buscava inicialmente, uma livraria. Seria, no entanto, para trabalhar na lojinha de suvenires e bijuterias. 

Assim como nas aulas durante a infância e adolescência, ficava distraída, talvez pensando nas histórias dos livros que devorava. Um dia, seus devaneios foram interrompidos por um cliente, um rapaz de cabelos cacheados e olhar ingênuo, que ela já tinha visto. Ele comprou o colar persa que ela contemplava no trabalho. 

Coincidentemente, esse mesmo jovem apareceu pela terceira e definitiva vez em sua frente, quando ela tentava se livrar de um assédio. Esse dia mudou para sempre a trajetória de Patti Smith e a dele, sua alma gêmea, Robert Mapplethorpe. “Como se fosse a coisa mais natural do mundo, ficamos juntos, só saindo do lado um do outro para trabalhar.” Nele, ela encontrou a pessoa que buscava desde os 16 anos, quando leu The fabulous life of Diego Rivera. “Eu me imaginava como Frida para Diego, musa e criadora. Sonhava em conhecer um artista para amar e apoiar e trabalhar lado a lado.” O sonho de Patti Smith começava a ser concretizado a partir do surgimento desse parceiro. Com a mesma idade e a ambição de serem artistas, passaram a ajudar um ao outro no crescimento profissional. Ambos desenhavam, trocavam ideias e, andróginos, vestiam-se de maneira peculiar. 

Patti Smith e Robert Mapplethorpe. Foto: ShowtimePatti Smith e Robert Mapplethorpe. Foto: Showtime

Um dia, num show do Doors, diante de Jim Morrison, Patti teve a certeza de que poderia fazer aquilo e, principalmente, de que queria fazer aquilo – um ideal que contrastava com a antiga rotina familiar. “Eu via com pesar minha mãe desempenhando suas tarefas femininas. Eu sonhava em viajar. Em fugir e me alistar na Legião Estrangeira, mudar de patente e percorrer o deserto com meus homens.”

No dia que, enfim, percebeu que estava liderando um bando de rapazes, sentiu-se orgulhosa. Até então, não havia isso no rock. Integradas e encabeçadas por homens, eram raras as bandas que tivessem, ao menos, uma mulher em sua formação (Mutantes, Velvet Underground, Fleetwood Mac, Jefferson Airplane…). 

Quando, em 1975, lançou Horses, apontado pela crítica como o melhor disco de estreia de um artista, Patti Smith já havia estudado o rock como se fosse uma disciplina. Era, sobretudo, uma fã: assistiu várias vezes ao documentário Don’t look back (1967), de D.A. Pennebaker, para aprender o gestual de Bob Dylan; cortou o cabelo sozinha, diante de um espelho, usando como modelo uma foto de Keith Richards. 

Esse visual, inclusive, mudou a forma como as pessoas a enxergavam em Nova York. Com cabelos negros repicados e desgrenhados, magérrima como uma Karen Carpenter beatnik, pálida feito um vampiro, sem maquiagem, olhos arregalados, roupas rasgadas, sapatos velhos, muitos pensavam que vivia drogada. Patti entendia o papel da imagem. 

Patti Smith à época. Foto: internetPatti Smith à época. Foto: internet

HORSES
O fato de Horses começar com Gloria (In excelsis deo) era uma amostra de duas fortes características de sua carreira musical que apenas começava, as versões de músicas e o talento para criar versos. Ela transformou a canção de Van Morrison, elaborou uma nova letra, que inicia com uma frase que se tornou clássica: “Jesus died for somebody’s sins but not mine”. 

Dentre os seus mais diversos covers, estão Real good time together (Lou Reed), So you want to be a rock’n’roll star (Byrds), Smells like teen spirit (Nirvana), When doves cry (Prince) e Stay, hit de Rihanna. Em cada uma, Patti Smith imprime o seu estilo, muda a canção, torna sua: uma das maiores intérpretes da música, possivelmente a maior vocalista viva do rock. 

Primeiro disco da geração do CBGB (bar onde o punk despontou), Horses é um marco. Gravado no Eletric Ladyland, de seu amigo Jimi Hendrix, e produzido por John Cale, no pós-Velvet Underground, como um episódio na grande narrativa do rock, a produção é bastante sofisticada em comparação ao primeiro dos Ramones, lançado no ano seguinte e que marcaria definitivamente o punk. Curiosamente, ele antecipa a mistura do reggae com rock (Redondo beach) de London Calling (1979), do Clash.

Apesar de Robert ser o autor da icônica capa, em que Patti aparece vestida com seus trajes típicos, roupas masculinas, de preferência em branco e preto, eles já estavam separados. Ele havia descoberto sua homossexualidade e vivia com o curador Sam Wagstaff, seu mecenas. Patti namoraria o poeta Jim Carroll, o guitarrista Tom Verlaine e, finalmente, o guitarrista Fred “Sonic” Smith, com quem ficaria casada por 15 anos e teria dois filhos.

Um dos sonhos de Robert, um sucesso comercial de Patti, aconteceu em 1978, com Because the night (parceria com Bruce Springsteen), que ficaria em 13º lugar das paradas. Após Wave (1979), ela passou quase 10 anos para gravar outro disco, Dream of life (1988). Ficou mais dedicada ao marido, aos filhos, às artes plásticas e à literatura. Voltou à música após a morte de Fred e de seu irmão Todd, no mesmo 1994.

Ouça o hit Because the night:



A partir de então, passou a lançar discos com mais regularidade e a viajar o mundo – muitas vezes, acompanhada do filho Jackson (nascido em 1982) e da filha Jesse (de 1987), com a qual lançou, em setembro deste ano, seu mais recente trabalho, Killer road, em que declama os poemas de Nico, também uma das primeiras garotas a cantar numa banda de rock, no Velvet Underground.

Às vezes, em suas viagens, para realizar shows ou participar de eventos políticos, Patti resolve levar consigo, como um amuleto, as cinzas de Robert, vítima da Aids, em 1989, no auge de sua carreira como fotógrafo. Na última carta que escreveu para ele, lembrou: “Você me tirou do período mais escuro da minha juventude”. Em 1988, debilitado, Robert tirou uma última foto de sua musa, com a filha Jesse nos braços. Naquele ano, Patti lançou People have the power, em que dizia acordar de um sonho, mas que seu sonho continuava: as pessoas têm o poder de mudar o mundo.

Assista ao show da artista em Montreux (2005):

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capa 199
CONTINENTE #199  |  Julho 2017

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