Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Mirante

O nome dela é Olivia Harrison

TEXTO Débora Nascimento

30 de Dezembro de 2019

George e Olivia Harrison nas Bahamas, na década de 1970

George e Olivia Harrison nas Bahamas, na década de 1970

FOTO Reprodução

Uma das cenas marcantes de História de um casamento, concorrente ao Globo de Ouro 2020 e considerado um dos melhores filmes de 2019, é a briga entre o casal Nicole e Charlie. No bate-boca, os personagens interpretados por Scarlett Johansson e Adam Driver, nas atuações mais intensas de suas carreiras, agridem um ao outro resgatando e expelindo mágoas, atingindo em cheio suas fragilidades e ressentimentos. Ao final, acabam feridos e esgotados, como se tivessem saído de um ringue virtual, onde o ataque e a defesa são feitos através da palavra e do tom de voz. Em uma outra cena importante, Nicole, para exemplificar como não queria continuar a ser ignorada pelo marido, bem-sucedido diretor de teatro, faz uma analogia. Ela, atriz ainda não reconhecida, diz para a advogada Nora (Laura Dern): “Sabe, eu acabei de assistir àquele documentário sobre George Harrison e pensei: ‘Assuma. É só assumir. Seja como a esposa de George Harrison. Ser esposa e mãe é o bastante’. Sim, então percebi que não conseguia lembrar o nome dela”.

A cena segue. O filme segue. A menção passa quase imperceptível, até que, na sua redenção, no desfecho da história, Nicole aparece feliz, bem-resolvida na vida profissional e pessoal. Ela está na saída de uma festa de Halloween e aparece vestida como John Lennon com o uniforme amarelo do álbum Sgt. Pepper’s. Ah... Nicole deixou de ser a imagem da esposa-sem-nome-de-George Harrison para ser o cabeça da banda. Esta é a mensagem que o diretor e roteirista Noah Baumbach quis transmitir ao final do filme.

Em sua analogia pop e aparentemente inofensiva, Baumbach coloca na boca de uma personagem feminina a agressão gratuita a uma mulher, que, sim, tem nome e sobrenome: Olivia Trinidad Harrison. E mais: não era apenas esposa e mãe. A norte-americana, descendente de mexicanos, tinha e tem profissão. Ao contrário de Nicole, Olivia não possuía ambições no mesmo campo profissional do marido. Não havia uma rivalidade. Quando conheceu o ex-Beatle, trabalhava na A&M Records, gravadora que distribuía os discos solos de George Harrison. E fazia contato com o músico através de ligações telefônicas. Foi assim que estreitaram a amizade e começaram o relacionamento que culminou com o casamento no final nos anos 1970, quando ele se separou de Pattie Boyd.

Olivia se tornou o braço direito do músico. Era ela quem administrava o selo Dark Horse. Foi ela quem literalmente salvou a vida do marido quando este sofreu a tentativa de homicídio por um homem que invadiu sua casa armado com uma faca, em 1999. E, depois da morte de George, em 2001, de câncer no pulmão, passou a administrar seu legado. Dentre os méritos de Olivia está a organização do aclamado Concert for George, realizado em 2002, que virou DVD e álbum. Ela coproduziu o documentário mencionado por Nicole (Living in the material world, de 2011), levou à frente o ideal de caridade de George, contribuindo com mais de 70 instituições. Dentre elas, The Film Foundation, de Martin Scorsese, que já restaurou filmes do mundo inteiro, inclusive do Brasil (a obra-prima Limite, de 1931, e Pixote, de 1981). Portanto, é uma baita injustiça sobrar para Olivia Harrison essa afronta e partindo de um homem.

Mas essa não é a primeira vez que sobra para a esposa de um beatle enfrentar situações de desprezo, sarcasmo, desaforo, indiferença ou até ódio. A maior vítima é Yoko Ono. Apontada como o pivô da separação da mais adorada banda do mundo, Yoko, que era levada por Lennon para ensaios e gravações, significava apenas uma presença inconveniente em meio à relação do grupo, que era mais de trabalho do que propriamente de amizade. Já desgastado, o laço da banda, após a morte de seu empresário Brian Epstein, em 1967, começou a se desfazer por causa da administração das finanças.

Artisticamente sempre houve uma competição entre Paul McCartney e John Lennon. Isso era algo repetido por George Martin. O produtor musical, falecido em 2016, mencionava essa disputa: quem conseguiria superar o outro na qualidade das composições apresentadas. A assinatura Lennon-McCartney era mais um emblema, embora houvesse uma contribuição durante o processo de gravação. E havia colaborações não creditadas. O riff de guitarra de George Harrison em And I love her, reconhece Paul McCartney no documentário Living in the material world, é a essência da música, mas George não foi assinalado como compositor.

Os fãs que praguejam até hoje contra Yoko Ono não percebem – ou insistem em não admitir – que foi a artista plástica japonesa quem trouxe mais engajamento político a John Lennon. A ideia dos Bed-ins for Peace, protesto pacífico que o casal fez em camas de hotéis contra a guerra do Vietnã, era uma performance típica das artes plásticas e não do mundo da música.

Todo o conceito de Imagine, a emblemática música de John Lennon, veio de Yoko. O próprio beatle confessou isso e se disse envergonhado por não ter dado crédito à esposa. Yoko trouxe serenidade ao músico e, em Woman, ele coloca-se em débito eterno por ela ter “mostrado o significado do sucesso”.

Em 8 de dezembro de 2020, completam-se 40 anos que John Lennon foi assassinado. É corriqueira a menção de que ele foi morto a tiros na frente do Edifício Dakota e não de que ele foi morto a tiros na frente de Yoko. Imagine perder o amor de sua vida desta forma e, invés de contar com o apoio dos fãs, virar a vilã da história. Obviamente, a repulsa a Yoko tem a ver com xenofobia e com a decepção dos fãs machistas por não terem visto seu ídolo circular com beldades da moda e do cinema a tira colo.

Alguns anos atrás, um site fez uma infame lista das cinco mulheres mais odiadas do rock, ficando Yoko Ono em primeiro lugar, e Pattie Boyd, em quarto. A ex-modelo e fotógrafa, que foi casada com George Harrison antes de Olivia, entrou na lista porque supostamente foi o pivô do fim da amizade entre George Harrison e Eric Clapton, quando deixou o beatle para se casar com o guitar hero. Pattie, musa inspiradora das canções icônicas de seus autores, Something e Layla, contou, na autobiografia Wonderful tonight (2007), que Clapton era o ombro amigo no qual ela se apoiava quando estava insatisfeita com o casamento. E assim ele se apaixonou por ela. Pattie relata que o alcoolismo provocou o seu segundo divórcio. Na época, ela não entendia a bebedeira como doença, e sim como mau comportamento do marido. Mas revelou que sua alma gêmea era mesmo Harrison.

Se História de um casamento quisesse demonstrar a verdadeira transformação da personagem, em vez de fantasiá-la de John Lennon, poderia vesti-la de Yoko. Por que a metáfora para sua transformação tinha que ser com uma figura masculina? Durante o seu processo de mudança de vida, ela aparece primeiramente fantasiada de David Bowie (o músico participou de um disco da atriz lançado em 2008). E aqui há um detalhe: John Lennon insistia em querer ser e demonstrar ser o líder da banda, afinal de contas foi ele quem arregimentou os integrantes da formação inicial, que incluía Pete Best (bateria) e Stuart Sutcliffe (baixo). No entanto, Paul McCartney, que tinha mais talento como instrumentista e procurava entender os meandros da produção de álbuns, naturalmente foi ocupando esse papel de liderança, que era convenientemente refutado por Lennon com seu humor ácido. Isso é detalhado pelo engenheiro de som Geoff Emerick no livro Here, there and everywhere – Minha vida gravando com os Beatles (2006).

Talvez uma outra analogia possível, no filme, seria se Nicole se comparasse ao próprio George Harrison, que lutava para conseguir colocar suas composições nos discos dos Beatles. Cansado de ser ignorado por Paul e Lennon, o Quiet Beatle reuniu um bom punhado de canções que ganharam vida no álbum triplo All things must pass, lançado em novembro de 1970, sete meses depois do anúncio do fim da banda.

Ainda há a possibilidade de Noah Baumbach ter usado essa referência a Olivia Harrison porque, no documentário Living in the material world, ela deixa a entender que fazia vista grossa para as escapulidas do marido. E, em História de um casamento, a gota d'água para a separação é a traição de Charlie, que teve um encontro fortuito com uma integrante de sua equipe de teatro. A propósito, essa personagem, Mary Ann (Brooke Bloom), em uma cena, deixa a entender que gostaria de ter um relacionamento com Charlie. Mas ele refuta. No final do filme, para não deixar nenhuma abertura a qualquer outra interpretação, o diretor não cede nenhum gesto à personagem, que está no bar, quando Charlie canta Being alive (Stephen Sondheim)a propósito, outro grande momento de Adam Driver.

Houve uma suspeita da imprensa de que o enredo de História de um casamento tivesse sido inspirado na vida do diretor. Noah Baumbach se separou da atriz Jennifer Jason Leigh depois de ter se apaixonado pela também atriz Greta Gerwig, que ele conheceu durante as filmagens de O solteirão (2010) – direção dele e roteiro em conjunto com Leigh. Noah e Jennifer também disputaram a guarda do filho. É muita coincidência, mas elas param por aí, porque não há a menor chance de, em 2010, Noah Baumbach ter tido uma carreira mais bem-sucedida do que a da então esposa, que atuou e se destacou em diversos filmes, como Na roda da fortuna (1994) e Mulher solteira procura (1992).

Enquanto Noah Baumbach fez essa comparação infeliz usando a figura de Olivia Harrison, um estudo divulgado em dezembro atesta que os Beatles foram protofeministas. Kenneth Womack, pesquisador e reitor da Universidade de Monmouth (EUA), argumenta que, na maior parte das canções do grupo, as mulheres eram retratadas como independentes, numa época em que o rock, assim como a música popular em geral, era altamente sexista. “Era paternalista nos anos 1960 e até antes disso, quando pensamos em canções que se referiam às mulheres como objetos, mulheres que precisavam ser ‘aconselhadas’ sobre o amor, ou sobre como abordá-las, mesmo que fosse apenas algo inocente e romântico como ‘quero segurar a sua mão’”.

“E os Beatles, conscientemente, em 1965, começaram a mudar de tom. Eles criaram um tipo muito específico de personagem feminina que pensava por si só e não precisava de um homem. E isso é revelador, realmente. Temos muitas músicas que começam a aparecer nesse ponto que são altamente progressivas sobre as mulheres que vivem seus próprios interesses, objetivos e prazeres, em vez de servir homens. Isso era incomum naquela época, e talvez até agora”, analisa Womack, acrescentando que essa figura feminina começa a aparecer em No reply (Beatles for sale, 1964) e segue em Help! (1965), e em diversas outras músicas.

Segundo Womack, Paul McCartney foi o responsável por disseminar essas ideias, a partir de seu namoro e noivado com a atriz Jane Asher, que inspirou músicas como And I love her, You won't see me, I'm looking through you, We can work it out e For no one – uma música, cuja letra poderia ser o resumo do personagem Charlie, ao ler a carta de Nicole, no final de História de um casamento, elencando todas as suas qualidades: “Você descobre que todas as coisas gentis que ela disse / Não fazem mais sentido (…) Ela não precisa mais de você”.

 

Publicidade

veja também

Álcool gel na dor alheia

Tame Impala e a pressa lenta

Eu vejo a vida melhor no futuro?

comentários