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Mirante

"Eu não consigo respirar"

TEXTO Débora Nascimento

31 de Maio de 2020

No ano em que o maior problema da humanidade é uma pandemia, cujo principal agravamento afeta a respiração do contaminado, podendo levá-lo à morte, a frase “Eu não consigo respirar” deve marcar 2020 como o efeito de uma outra doença, porém antiga, perversa, deliberada e potencialmente mortal, o racismo. A frase dita por George Floyd, 46 anos, ao ter seu pescoço pressionado por oito minutos e 46 segundos pelo joelho do policial Derek Chauvin, na segunda-feira (25), em Mineápolis, vem circulando na imprensa mundial, nas redes sociais e na maior onda de protestos da atualidade, desde a morte de Eric Garner, que também a pronunciou e repetiu por 11 vezes a um policial antes de ser asfixiado no golpe conhecido como mata-leão, em 2014, na cidade de Nova York.

Organizadas pelo movimento Black Lives Matter, as manifestações contra o assassinato brutal de Floyd se espalharam por 75 cidades norte-americanas, dentre elas, Saint Paul (Minnesota), Atlanta (Geórgia), Detroit (Michigan), Nova York, Portland (Oregon), Dallas, Houston (Texas), Los Angeles, San Jose, Oakland (Califórnia), Las Vegas (Nevada), Columbus (Ohio) e Phoenix (Arizona). Inspiraram também protestos em outros países, como Canadá, Inglaterra, França, Alemanha e Brasil.

Desde a segunda-feira, o período de isolamento nos Estados Unidos, onde mais de 100 mil pessoas já morreram de Covid-19, foi interrompido da forma mais repentina e explosiva. A frequência da violência racial é tão grave e revoltante, que a população negra decidiu correr o risco de se contaminar com um vírus que ainda não tem vacina nem remédio eficiente do que continuar a se submeter a uma polícia letal. E as máscaras, nesse caso, ganharam uma função extra, além de proteger contra o vírus, protegem contra a vigilância policial, que costuma identificar e criminalizar através de imagens.

Há relatos, nas redes sociais, de que os protestos se tornaram mais violentos depois que os policiais lançaram bombas de gás lacrimogênio sobre os manifestantes. Daí teriam começado as cenas que tomaram o noticiário internacional: saques, prédios e carros incendiados, lembrando, em parte, o desfecho do filme Faça a coisa certa (1989), cujo estopim para uma convulsão social partiu exatamente de um imbróglio entre o dono italiano de uma lanchonete e um cliente negro.

A informação divulgada sobre o que levou a polícia a ser acionada é que Floyd teria apresentado “cartões ou notas falsificadas” para pagar compras numa loja chamada Cup Foods, o que levou imediatamente a opinião pública a pensar que se tratava de um estelionatário. No entanto, em entrevista à CNN, o coproprietário do estabelecimento, Mahmoud Abumayyaleh, imigrante palestino, afirmou que o cliente apresentou uma nota de 20 dólares, supostamente falsificada. O protocolo, nesses casos, disse ele, era que seus funcionários chamassem o 911.

O que deveria ter sido a confirmação – ou não – de um golpe terminou, em poucos minutos, num assassinato brutal às 20h, ainda sob a luz do sol. Derek Chauvin, o policial que imobiliza George Floyd, já algemado, parece estar num ringue, esperando um juiz o apontar como vencedor de uma luta livre. A sua frieza enquanto mata Floyd é chocante. Mesmo com diversas testemunhas, que gritavam para que tirasse o joelho do pescoço, ele continuou com a ação criminosa, na certeza da impunidade – os policiais vêm sendo beneficiados pela imunidade qualificada, um salvo-conduto, vigente desde 1967 (no auge dos protestos pelos direitos civis dos negros), para que não sejam condenados por seus atos, com raríssimas exceções. Há uma expectativa de que a morte de Floyd reforce a revisão desse entendimento na Suprema Corte. 

A polícia, como de praxe, tentou elaborar desculpas, afirmou que a vítima havia passado mal. No entanto, gravações feitas por celulares foram determinantes para desmascarar de vez a versão policial. Em especial, o registro de Darnella Frazier, uma jovem negra de 17 anos, que passava pelo local. Ela chegou a ser criticada nas redes sociais porque filmou a ação e não tentou impedir a polícia. Afinal, o que ela deveria ter feito? Chamado a polícia para conter a própria polícia? Em post no Facebook, defende-se, afirmando que sua vida poderia ter acabado da mesma forma que a de George Floyd e o público não teria a prova do assassinato.

Desde que foi ultrapassado o limite da autoridade policial, e isso faz muito tempo, é necessário reconhecer a falência dessa instituição – para sua reformulação – e a da própria sociedade, que tolera os abusos e os assassinatos contra negros e pobres. Se, ao menos, houvesse uma análise séria do currículo e do comportamento dos policiais, seja nos Estados Unidos, no Brasil ou em qualquer parte do mundo onde haja esse tipo de violência, o número desses casos teria a chance de diminuir. A ficha de Derek Chauvin não o capacitava para estar nas ruas como policial, talvez, no máximo, no serviço burocrático. Ele já havia sido denunciado mais de 20 vezes por abuso de poder, inclusive em ações que terminaram em mortes. Foi preciso que houvesse uma filmagem do injustificável para que finalmente fosse demitido.

Doze horas antes da morte de George Floyd, naquela mesma segunda-feira, uma outra filmagem de celular desmascarou mais um caso de racismo. Christian Cooper passeava pelo Central Park observando pássaros com um binóculo, quando viu uma mulher, chamada Amy Cooper, que levava seu cachorro para passear sem focinheira, o que é proibido na área, e ele a advertiu. Sem aceitar a reprimenda, ela disse que ele a estava importunando e acionaria a polícia. Christian passou a filmá-la. Amy se aproximou e ordenou com o dedo em riste que parasse a gravação. Então, ela cumpriu o que havia prometido: “Vou ligar para a polícia e denunciar que um afro-americano está ameaçando uma mulher branca”. Assim que ela desligou o telefone, Christian também desligou sua câmera, disse “Obrigado” e saiu, antes que a polícia chegasse, obviamente. O vídeo viralizou, Amy perdeu o emprego e a guarda do cachorro, por maus tratos – da forma como ela segurava a coleira, o animal ficava pendurado pelo pescoço. Amy sabia o que significava ligar para a polícia e destacar que ela era uma “mulher branca” e ele um “homem negro”, como também ameaçá-lo com esses detalhes raciais.

O mesmo Central Park havia sido cenário de uma injustiça racial histórica, na qual após o estupro de uma mulher branca, cinco adolescentes negros foram detidos e condenados. A vítima do crime sexual, Trisha Meili, após o espancamento, perdeu a memória do ocorrido e não pôde identificar quem seria o criminoso. O fato, que aconteceu em 1989, repercutiu no país e rendeu a minissérie When they see us (Netflix, 2019), de Ava DuVernay, que narra com sensibilidade e clareza todos os erros cometidos tanto pela polícia na apuração das provas, quanto pela justiça, na manipulação do processo – a promotora do caso, Linda Fairstein, era tratada pela imprensa como uma heroína e enveredou uma carreira de sucesso como escritora policial.

O verdadeiro autor do crime, o porto-riquenho Matias Reyes (condenado por outros estupros), confessou, espontaneamente, apenas em 2002. Os cinco foram libertados, mas já haviam perdido boa parte de sua juventude numa experiência traumática que os marcou para sempre. Na minissérie e em uma entrevista concedida pelos verdadeiros personagens a Oprah Winfrey, eles afirmaram que, além da liberdade, o mais importante era que a sociedade, parentes, amigos, vizinhos, finalmente soubessem que eram realmente inocentes.

Nesses casos, além de ser vítima do sistema policial e jurídico (seja por prisão autoritária, investigação equivocada ou morte pelas mãos de agentes públicos), a vítima ou apenas sua família (caso não sobreviva) ainda tem que tentar limpar a reputação do ente querido, manchada pelos responsáveis por sua morte. Isso acontece com frequência em óbitos envolvendo a polícia. George Floyd, que, no noticiário, acabou virando um desempregado estelionatário, era conhecido pelos amigos como Big Floyd, o “gigante gentil”. Há um vídeo, extraído de seu perfil no Instagram, onde ele aconselha a geração mais jovem que faça boas escolhas e dê fim à violência armada.

Nascido na Carolina do Norte e morador de Houston, Floyd despontou como jogador de basquete na Jack Yates High School (Houston), mas não conseguiu seguir a carreira. Na cidade do Texas, conheceu Stephen Jackson, que se tornou estrela do basquete na NBA entre os anos 2000 e 2014. Também lá, chegou a integrar um grupo de hip hop, tocando com DJ Screw. Mas também não teve sorte na carreira de rapper. A vida de Floyd se transformaria em 2007. Segundo o Daily Mail, naquele ano, depois de ter sido acusado de assalto à mão armada em domicílio, foi condenado, em 2009, a cinco anos de detenção.

Ao sair da penitenciária, não conseguiu mais emprego em Houston e, em 2014, mesmo ano da morte de Eric Garner, mudou-se para Mineápolis, onde reconstruiu sua vida. Passou a trabalhar como motorista de caminhão e segurança em um restaurante – no estabelecimento era querido por seus empregadores, que lamentaram bastante seu assassinato, na imprensa. No entanto, com a chegada da pandemia, Floyd se tornou um dos 40 milhões de norte-americanos que perderam seus empregos – em abril, os negros somaram 44% e os brancos 38% dos recém-desempregados.

O amigo antigo de Floyd, Stephen Jackson, é um dos famosos (assim como o ator Jamie Foxx), que, mesmo em plena epidemia, se dispuseram a ir a Mineápolis para participar dos protestos, e declarou: “Estou aqui porque eles não vão duvidar do caráter de George Floyd, meu gêmeo. Muitas vezes, quando a polícia faz coisas que sabe que são erradas, a primeira coisa que tenta é encobrir e usar seus antecedentes para fazer parecer que valeu a pena aquele ato. Quando um assassinato vale a pena? Mas, se for um homem preto, é aprovado. Você não pode me dizer ‘estou protegido’, quando aquele homem estava com o joelho no pescoço do meu irmão, tirando a sua vida, com a mão no bolso e com sorriso no rosto”.

O assassinato de George Floyd, como todos sabem, não é um caso isolado de racismo que acaba em morte. Seu trágico fim é somado ao de incontáveis outras pessoas negras. Apenas para citar alguns dos exemplos mais recentes: João Pedro (14 anos), morto em casa com um tiro de fuzil pela polícia do Rio de Janeiro, em maio; Ahmaud Arbery (25 anos), morto a tiros por dois homens brancos enquanto corria na Geórgia, em fevereiro; Breonna Taylor (26 anos), técnica em enfermagem alvejada oito vezes por policiais que invadiram sua casa, em março, Louisville, no Kentucky.

Os desdobramentos da tragédia de George Floyd revelaram ainda mais racismo. Nas manifestações contra o assassinato dele e de Breonna, em Louisville, na quinta-feira (28), sete pessoas foram baleadas – duas levadas para cirurgia e o restante está fora do risco de morte. O prefeito da cidade, Greg Fischer, afirmou que nenhum policial atirou. Porém, mais uma vez, celulares escancaram a verdade: os tiros foram disparados quando os manifestantes cercaram um carro de polícia.

Derek Chauvin, o policial que matou Floyd, vai ser julgado por homicídio em terceiro grau (homicídio culposo), quando não há a intenção de matar – o que pode resultar em uma pena leve ou absolvição, como aconteceu com o policial que matou Garner. Os outros três agentes foram demitidos, mas não serão julgados como cúmplices. Em Detroit, um motorista atirou nos manifestantes e matou um rapaz de 19 anos. Mais racismo: enquanto filmava um dos protestos, na quinta-feira (28), o jornalista da CNN, Omar Jimenez, negro, foi detido por policiais. Ao ser algemado, perguntou por quê estava sendo preso e não obteve nenhuma resposta. A prisão foi transmitida ao vivo pela emissora.

E a cobertura da Globo News, no sábado (30), ainda questionava o porquê da continuação dos protestos, tendo o jornalista Jorge Pontual, num tom irônico, chamado os manifestantes de “entusiastas de Bernie Sanders, que querem derrubar o sistema e implantar o socialismo”. Em seu podcast Rumble, na sexta-feira (29), o documentarista Michael Moore afirmou que seria muito fácil acabar com os protestos: prender todos os envolvidos e julgá-los de acordo com os crimes que cometeram. Os protestos não se resumem somente à morte de Floyd, mas ao racismo estrutural no país, que se reflete na habitação, educação, saúde e no mercado de trabalho.

Em meio a políticas para evitar a contaminação do vírus, bem antes de 25 de maio, já havia denúncias na imprensa norte-americana e brasileira de que a polícia estava parando homens negros por usarem máscaras. No Papo de Segunda (GNT), transmitido ao vivo no mesmo dia do assassinato, Emicida contou que precisou sair de casa para ir à farmácia e ficou com receio de usar a máscara, porque, dessa forma, aos olhos das pessoas nas ruas, ele deixaria de ser Emicida. Completou que percebeu olhares estranhos. O mesmo receio foi mencionado pelo jornalista Manoel Soares, da Cufa (Centra Única das Favelas), que era convidado do programa.

A pandemia escancarou o racismo e o abismo social que persiste em muitos países. Somada às mortes pela polícia, ainda há as vítimas fatais do novo coronavírus, que atinge em cheio a população negra e mais pobre. “Embora tenha sido dito por vários especialistas, líderes internacionais e até a cantora Madonna, que a Covid-19 é democrática e equalizadora, que mata ricos e pobres, que não discrimina brancos e negros, ela pode matar, mas não da mesma forma e não na mesma quantidade. Um exemplo disso: a mortalidade da Covid-19 é de 2,4% no Leblon, bairro com o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Rio de Janeiro, e de 30,8% na favela da Maré e arredores. As estatísticas evidenciam que, nos Estados Unidos, negros e pobres são os que mais morrem da doença”, escrevi na reportagem de capa da Continente, edição de junho, sobre os efeitos da pandemia em diversas áreas, como mercado de trabalho, economia, saúde e política.

As manifestações desta semana acabaram por desviar a atenção da desastrosa política de Trump para conter a pandemia. O presidente norte-americano, que não empregava negros em seus negócios e é endossado pela Ku Klux Klan, ainda tenta ganhar alguma vantagem com o caos que se instalou em diversas cidades do país. Com seu discurso autoritário, mirando a reeleição, quer manter ou resgatar o apoio do eleitor ultraconservador, supremacista branco. Chamou os manifestantes de “bandidos” e anunciou que se os protestos não pararem, vai acionar o exército. “Qualquer dificuldade e nós assumiremos o controle, mas quando começam os saques, começam os tiros”, sugerindo que a polícia pode atirar nos manifestantes. Como escreveu Toni Morrison, ao receber o Nobel de Literatura em 1993, “a linguagem opressiva faz mais do que representar violência. É violência”.

A última vez que Mineápolis ganhou o noticiário internacional, com tantas pessoas nas ruas, foi após a morte de Prince, orgulho da cidade e cuja casa em que viveu a juventude fica a oito minutos de carro da Cup Foods, onde ocorreu o fatídico episódio do dia 25 de maio. Na cidade, de maioria branca, ainda paira uma velada segregação racial, resultado de convênios racialmente restritivos, contratos implantados como medida preventiva após a Grande Migração de Negros do Sul e em resposta à decisão da Corte de 1917, que declarou o zoneamento racial inconstitucional.

Esses convênios eram acordos contratuais entre proprietário e comprador, conselhos imobiliários e associações de bairro que proibiam a compra, locação ou ocupação de um imóvel por um grupo específico de pessoas, em especial afro-americanos. O resultado disso é que a população negra ficou apinhada em pequenos bairros, um deles próximo ao cruzamento da 38th Street com a Chicago Avenue, onde o policial Derek Chauvin se ajoelhou sobre o pescoço de George Floyd.

Após o assassinato, faz ainda mais sentido o protesto do jogador de futebol americano Colin Kaepernick, ao se ajoelhar, durante a execução do hino dos Estados Unidos, contra o silêncio da polícia e das autoridades norte-americanas diante da violência contra os negros. O protesto durou entre 2016 e 2017, até que Trump ordenou, à liga e aos times, que os jogadores que não ficassem de pé durante o hino deveriam ser demitidos. Eric Reid, que também repetiu o gesto, reclamava da frequência com que passou a ser sorteado para realizar exames antidoping. Apesar do talento, Colin teve sua carreira prejudicada por conta do protesto. Perdeu vários contratos e nenhuma equipe quer contratá-lo.

No artigo Now is the moment to sign Colin Kaepernick, publicado no sábado (30), no site da CNN, o jornalista Joe Lockhart reforçou que, diante do quadro de revolta nas ruas, o estado e as empresas precisam apresentar gestos de conciliação. “A situação em Minnesota agora oferece uma oportunidade única de lidar com os símbolos da injustiça racial. Como um passo pequeno, mas importante, os proprietários dos Minnesota Vikings, Zygi e Mark Wilf, podem enviar uma mensagem forte oferecendo a Colin Kaepernick um contrato para jogar com os Vikings. Traga-o para o acampamento, trate-o como qualquer outro jogador que tenha a chance de jogar o jogo que ama”.

“Não resolverá o problema dos negros e da violência policial. Mas reconhecerá o problema que Kaepernick levantou poderosamente, e talvez mostre que, com coragem, é possível fazer um progresso real. Eu sei que os proprietários dos Vikings amam sua cidade adotiva de Mineápolis (eles são de Nova Jersey) e assinar com Kaepernick seria um passo concreto que eles podem dar para reconhecer que os erros podem ser corrigidos, e aqui está um lugar para começar. Espero que eles façam isso. É a coisa certa a fazer”, concluiu.

Um dia antes, Kaepernick afirmou, em seu Twitter, que os manifestantes não devem se preocupar com questões legais, pois ele pagará pelos custos dos advogados daqueles que forem presos ou indiciados nos protestos contra o assassinato de George Floyd. O financiamento virá através da Know Your Rights Camp. Fundada por ele, a instituição tem como objetivo conscientizar e ajudar a juventude negra. “Na luta pela libertação, sempre há retaliação. Nós devemos proteger nossos combatentes da liberdade”.

#vidasnegrasimportam
#blacklivesmatter

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