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Ilustração: Hallina BeltrãoIlustração: Hallina Beltrão

Anatomia do paraíso, de Beatriz Bracher, e Reza de mãe, de Allan da Rosa, focam na construção de personagens marginalizados

O sociólogo francês Pierre Bourdieu observou que “entre as censuras mais eficazes e mais bem-dissimuladas situam-se aquelas que consistem em excluir certos agentes de comunicação excluindo-os dos grupos que falam ou das posições de onde se fala com autoridade”. A literatura, como aliás todas as modalidades artísticas, pode servir também como espaço de legitimação do discurso dominante, e, neste caso, padecer de uma limitação de perspectiva. Quem é, de onde e para quem fala, neste Brasil tão diverso e tão pouco representativo, o indivíduo ficcional? O homem branco, classe média, heterossexual e urbano. Eis o perfil clássico do personagem e/ou narrador do discurso literário brasileiro contemporâneo, é o que concluiu um levantamento coordenado pela professora do Departamento de Letras da Universidade de Brasília (UnB) Regina Dalcastagnè.

Ao longo de 15 anos de pesquisa, foram lidos e catalogados contos e romances publicados entre 1990 e 2004 pelas principais editoras nacionais, e mais de 1.200 personagens, autores e prêmios, analisados. O resultado está no livro Literatura brasileira contemporânea: um território contestado (Editora Horizonte, 2012), que atesta e destrincha a pouca pluralidade das vozes narrativas. Alguns números revelam tal conclusão: mulheres representam menos de 30% das personagens das obras; 79,8% das personagens de ambos os sexos são brancas; enquanto isso, negros, mestiços, orientais e indígenas não chegam a 16%.

Se esses dados são desanimadores, na medida em que prevalecem nas narrativas recentes, é preciso celebrar obras que contradizem o quadro hegemônico, como dois livros recentes, cujo esforço de sair deste terreno, ainda que em diferentes medidas, dá-se pela construção de personagens em geral marginalizados das narrativas. São eles Anatomia do paraíso, romance de Beatriz Bracher (Editora 34, 2015), e Reza de mãe (Editora Nós, 2016), livro de contos de Allan da Rosa.

Em ambas as obras, há a representação de trabalhadores negros em suas especificidades, e não como um conjunto. Aqui, cabe a observação feita por Regina Dalcastagnè, em seu artigo Uma voz ao sol: “A categoria ‘trabalhador’ (ou ‘suburbano’, ‘marginal’, ‘malandro’, conforme o caso) pretende condensar numa só abstração um conjunto de milhares de experiências vividas, como se fossem uniformes. O fato é que os autores brasileiros se mostram muito mais sensíveis à variedade das vivências dos estratos sociais mais próximos ao seu. Mesmo quando se propõem a organizar alguma espécie de painel da vida contemporânea, é comum ver esmiuçadas as minúsculas variações do estilo de vida das classes médias, enquanto que a existência das multidões de pobres é chapada, como se a diferença que separa um médico de um advogado fosse mais significativa do que aquela que afasta um balconista de lanchonete de um motorista de ônibus”.

Leia matéria na íntegra na edição 194 da Revista Continente (Fev 2017)

capa 198
CONTINENTE #198  |  Junho 2017

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