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Ilustração: Jânio SantosIlustração: Jânio Santos


Em
O marechal de costas, José Luiz Passos cria ficção cujo protagonista é o segundo presidente do Brasil, Floriano Peixoto, em história que enlaça no enredo outros nordestinos e presidentes


Figura das mais controversas dos primeiros anos da nossa República, seria difícil para qualquer historiador pensar em Floriano Peixoto como protagonista de um romance. Especialmente de um romance que mistura aspectos da História com a história íntima desse que, para muitos contemporâneos, foi considerado um ditador. E não um ditador como os ditadores modernos que, segundo alguns depoimentos eram, no trato pessoal, amáveis, sedutores, vivendo em ambientes luxuosos, cercados por artistas e belas mulheres. Mas um ditador prosaico, pai de numerosa família, que morava no subúrbio, vinha para o Itamaraty de bonde e não tinha nada na aparência física que o distinguisse. Ao contrário, a acreditar-se na descrição que fez dele Lima Barreto em Triste fim de Policarpo Quaresma, a aparência do Marechal de Ferro “era vulgar e desoladora”, “o bigode caído e o lábio inferior pendente”, “os traços flácidos e grosseiros”, “o olhar mortiço, redondo e pobre de expressões”. Finalmente, arremata o escritor: “tudo nele era gelatinoso, parecia não ter nervos”. 

Na verdade, a descrição de Lima Barreto era a de quem não via o novo regime com bons olhos e, especialmente, aquele governante, que passaria à história como o consolidador da República, cognome que se devia justamente à dureza com que reprimiu os adversários. Mas o presidente, homem maduro, castigado pelas tantas doenças que trouxera da Guerra do Paraguai, era bem diverso do jovem que protagoniza as primeiras partes de O marechal de costas, romance de José Luiz Passos. Este é rapaz sadio, forte e de corpo trabalhado pelos exercícios e as lutas marciais; exímio esgrimista; excelente atirador; bom desenhista e de aparência relativamente agradável. Apesar de tipo físico característico do caboclo brasileiro e que lhe valera alguns apelidos, apesar da estatura mediana, a presença de Floriano sempre impôs certo respeito. 

Respeito que impunha talvez pela placidez quase indiferente com que realizava seus feitos militares, sem alardes, pois tinha horror a qualquer exagero; talvez pelo seu jeito de homem desconfiado, de olhos sempre baixos, de pouca conversa, econômico no uso das palavras que usava apenas nos momentos certos. Talvez ainda pela coragem e pelo talento estratégico com que comandara suas tropas no Paraguai; talvez pela violência com que punia os preguiçosos e recalcitrantes. Talvez, ainda mesmo, já na presidência, pela forma implacável com que puniu os adversários, fossem eles de que estatura fossem ou pela soma de todos esses atributos que fizeram dele um líder tão popular e amado por uns, quanto detestado por outros. O personagem que emerge da narrativa ficcional de José Luiz Passos respeita as contradições da imagem pública com que ele passou à história e, a partir dela e dos recursos estéticos do escritor, apresenta um novo Floriano.

O ROMANCE 
A primeira imagem que se guarda da leitura do livro de José Luiz Passos tem um clima de cinema italiano da escola de Frederico Fellini. É a cena em que o rapaz aparece vestido de forma ridícula, numa fantasia que, pela descrição, faz lembrar as roupas com que as antigas gravuras italianas apresentavam o Pinóquio. É a figura melancólica de um moço de calças no joelho, com um chapéu alto na cabeça e uns sapatos de saltos de madeira que lhe dão um ar desengonçado, entrando em cena, trazido pela mão do preceptor. Era uma apresentação teatral que marcaria o final de seu curso na Escola Militar, e o preceptor de Floriano, ao qual ele se manteria ligado por toda a vida, fazia ali o papel de Napoleão Bonaparte. Ofuscado pelo jogo de sombra e luz do palco e intimidado pela plateia, o rapaz que se mostrara tão talentoso para as artes plásticas, a ponto de ter pintado o pano de boca e os cenários do palco, não consegue sequer balbuciar o texto que decorara. 

A essa imagem que parece emergir de um sonho ou de um pesadelo se somam outras tantas situações que nos apresentam Floriano como um rapaz sonhador, silencioso e isolado, movido a fantasias eróticas. Um Floriano tão obcecado pelas partes íntimas femininas, que “desenhava em cadernetas diferentes tipos de vagina. Via no Corcovado e na Serra dos Órgãos formas e volumes de mulher. Até mesmo a boca em couro na bainha do sabre lhe lembrava a coisa”. Um Floriano que, na mocidade, “visitava semanalmente bordéis no Centro”, no Rio de Janeiro. Um Floriano que alimentava um desejo sensual pela prima-irmã que crescera ao lado dele, bem mais nova, e que ele desposaria depois que voltasse da Guerra do Paraguai. Guerra em que um Floriano, metido em orgias imaginárias, mistura as imagens da noiva Josina com a de Rosaura, a mulher uruguaia que se dava a toda a tropa na ausência do marido. 

A construção desse Floriano fictício também se faz a partir de outros personagens que com ele se confundem ou se alternam na narrativa. O fascínio por Napoleão Bonaparte, cuja biografia lhe inspirava e cujo ideário lhe servia de modelo vinha do tempo da Escola Militar, se consolidara na leitura de obras sobre o imperador dos franceses e se afirmara também na identidade com o militar que Floriano queria ser e que procuraria imitar. Dessas leituras, constatara que o triunfo de Napoleão se deveu “menos às suas medidas tomadas durante os combates e mais a um grande talento para a organização das tropas e o perfeito arranjo da marchada”. Espirito técnico e frio que Floriano mimetizaria em suas ações militares e políticas. Na narrativa, trechos de falas, de estratégia de campanha e mesmo de concepções estéticas de Bonaparte se confundem com a fala do próprio protagonista. Difícil às vezes separar um do outro. Bem poderia ser do desconfiado e silencioso Floriano o trecho em que Napoleão diz que não pretendia escrever suas memórias pois não se inclinava às confissões como Rousseau, já que elas não dariam conta de explicar seu lugar no mundo: “os eventos causados pelas minhas ações, sim. Ao atuar, altero meu povo, modifico-lhe a história, porque a gênese do passado está no presente, não o contrário”. 

Dizem que Floriano também admirava Solano Lopez e que, diante da bravura e do destemor do paraguaio, teria dito: “de um homem desses é que o Brasil precisa”. O general implacável que executava os desertores era também um estrategista. A informação de que o ataque ao Brasil fora preparado minuciosamente por Lopez com dois anos de antecedência contribuiu certamente para infundir em Floriano ainda mais respeito pelo inimigo.

Também Dom Pedro II, figura que na historiografia é quase o oposto de Floriano, comparece aqui com elementos inspiradores. No imperador, é a simplicidade que lhe chama a atenção: “a longa casaca de fazenda inglesa, de um negro aceso e denso que reluz no sol da tardinha” e sobre a qual não brilha nenhuma insígnia, nenhuma joia. Floriano nunca se preocupou com a própria aparência e se vestia com modéstia, até mesmo com desleixo. Talvez também o aproximasse do Imperador a infância de meninos mal-amados, criados sem mãe. Circunstância que jogou seu papel no destino desses dois brasileiros que governaram o país. Se Floriano foi um dos que derrubaram o imperador do trono, sentiu profundamente o impacto da morte desse homem que vira em Uruguaiana, saudando as tropas brasileiras.

PODER E LUGAR DA FALA 
Uma narrativa corre paralela à vida romanceada de Floriano. Ela transcorre nos nossos dias e tem como protagonista uma cozinheira, nascida na mesma cidade onde nascera Floriano, Ipioca, em Alagoas. Como tantos migrantes, acabou como empregada doméstica em um lar burguês do Bairro de Santa Tereza, no Rio de Janeiro. Personagem que mistura, em sua composição, elementos típicos da trajetória de muitas mulheres nordestinas, distingue-se, no entanto, por certa sofisticação de gosto e de conhecimentos que, se não a credenciaram para ofícios mais nobres, fazem com que mereça certo respeito e consideração por parte do patrão benevolente e de seus convidados.

O momento é junho de 2013, e essa virada temporal da narrativa faz com que movimentos acontecidos no final do século XIX, de certa forma, dialoguem com as circunstâncias do Brasil contemporâneo. Brasil governado por uma mulher, Dilma Rousseff, cujos pequenos deslizes ou declarações infelizes em discursos espontâneos seriam francamente explorados pela grande imprensa, ocupada em desconstruir a imagem da presidenta. Neste romance, Dilma, que, três anos depois seria deposta, fala de forma clara e honesta, em textos claros e límpidos, cheios de humanismo. Discursos que, pronunciados em meio à grande agitação que marcou o ano de 2013, ninguém quis ouvir. Ninguém prestou atenção. 

É interessante pensar como esses três governantes que José Luiz Passos reuniu de forma bastante feliz em seu romance tiveram na fala – ou ausência dela – um elemento fundamental em sua trajetória política. Se a voz fina de Dom Pedro II não é muito comentada pelos contemporâneos, deve ter sido um elemento inibidor em suas manifestações públicas. A fracassada estreia de Floriano no palco foi um indicador de que não estaria na palavra seu elemento de força. Dilma, reduzida ao silêncio pelos ataques que suas falas mereciam, tanto da imprensa quanto dos que batiam panelas para abafar o som de sua voz na TV, perdeu força e espaço político. Mas o silêncio de Floriano, associado a uma personalidade complexa que as páginas deste romance se propõem a decifrar, foi um elemento a mais a compor o enigmático marechal.

capa 199
CONTINENTE #199  |  Julho 2017

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