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Ilustração: Janio SantosIlustração: Janio Santos

Dilma caiu. Temer assumiu. Processo jurídico? Processo político? Golpe? A Lava-jato caminhou a passos largos. Eduardo Cunha foi para a cadeia. Muitos empresários figurões foram para a cadeia. Moro virou uma espécie de santo para alguns e de capeta para outros. A economia continuou cobrando incansavelmente seus mimos. Estudantes ocuparam escolas. Muito mais aconteceu. Dois mil e dezesseis ainda não acabou, mas foi um ano bastante intenso no Brasil.

Esses fatos, claro, impactam na vida de qualquer brasileiro. Mas e para aqueles conterrâneos que vivem fora do país, algo muda? Sendo mais específico, o caos político, social e econômico que o Brasil atravessa influencia de alguma forma, seja criticamente, seja criativamente, escritores e pensadores da literatura brasileira na hora de realizar o seu ofício? Para entender como é escrever sendo um conterrâneo em outros cantos do mundo neste momento em que vivemos, a Continente ouviu dois autores – José Luiz Passos, radicado nos Estados Unidos, e Nara Vidal, que reside em Londres – e um professor universitário, Leonardo Tonus, que encabeça os estudos lusófonos da Universidade de Paris.

DE LOS ANGELES
Casado com a própria irmã, obcecado por Napoleão Bonaparte e primeiro vice-presidente do Brasil, assumindo o posto mais alto da nação após a renúncia de Deodoro da Fonseca, o alagoano Floriano Peixoto, o marechal Floriano, governou o Brasil entre 1891 e 1894 e se firmou como umas das figuras mais significativas do início de nossa República. É sobre ele que José Luiz Passos se apoiou para escrever O marechal de costas, romance publicado pela Alfaguara que alterna entre o passado e o presente para criar um diálogo entre aquele Brasil do final do século 19 e o das manifestações de julho de 2013, e seus desdobramentos políticos. Autor também de Nosso grão mais fino e do celebrado O sonâmbulo amador, Passos vive em Los Angeles – é professor de literatura brasileira e portuguesa na Universidade da Califórnia, onde já dirigiu o Centre de Estudos Brasileiros. De lá, vê o atual momento político do Brasil lhe impactar diretamente: 

 

“Meu romance mais recente é uma tentativa de dar uma reposta pessoal a isso e propor uma visão dos paralelos entre a política da República Velha e a crise pela qual passa a nossa democracia atualmente. Parei outro romance que escrevia para poder imaginar a vida de Floriano Peixoto e a fundação turbulenta e autoritária da nossa República. Vejo nisso um sinal de certa repolitização da literatura recente. Se o leitor perceber os ecos entre os dois momentos políticos, entre as duas vozes do romance, o livro terá cumprido o seu papel. O que a ficção pode é oferecer o prazer da leitura como modo de chamar a atenção do leitor a eventos, personalidades e relações que, talvez, de outra maneira permaneceriam no campo da opacidade e do não-dito. O marechal de costas é uma tentativa de emular, parodiar, repensar a contribuição da ficção histórica, da biografia romanceada, da crônica política para o campo do romance. Cabe aos leitores julgarem se ele tem muito dizer sobre o nosso tempo ou não”.

 

Passos não considera que produzir literatura no exterior seja algo tão distinto do que fazê-la em seu país de origem. Acredita que a distância pode ser um empecilho apenas se o escritor abraçar como “horizonte único” a nostalgia, ainda que, mesmo a partir desse sentimento, que pode se manifestar de forma crítica ou irônica, seja possível atingir uma visão que tenha uma força expressiva digna. Por outro lado, também diz que a distância lhe deu “certo pé-atrás ou intervalo entre mim e o meu país”, algo que considera positivo. “Viver entre duas culturas, cruzando fronteiras e línguas a todo instante, é fonte de grande motivação.”

E como a literatura daqui anda sendo percebida pelas pessoas de lá? Aí a resposta de Passos beira a melancolia para quem é apaixonado por um bom livro. “Tenho a impressão de que é cada vez menor o interesse das pessoas na ficção literária. Os estudantes estão cada vez mais voltados para o audiovisual e para uma visão mais ampla e vagamente cultural do país. Nada contra. Continuo ensinando Machado de Assis, poesia moderna, ficção contemporânea etc. Isso me dá prazer, me faz boa companhia e é apreciado por colegas e alunos daqui. Mas não vejo um aumento significativo da circulação de autores brasileiros no mercado americano. Os nossos autores permanecem restritos a pequenos grupos e bolhas universitárias. O recente fenômeno das reedições e novas traduções de Clarice Lispector, por exemplo, é uma exceção absoluta, ainda relativamente restrita e que só prova a regra”.

DE LONDRES
Nara Vidal mora em Londres há mais de 15 anos e concorda que a literatura nacional é pouco representada no estrangeiro. Responsável por iniciativas como o Canalzinho, evento literário dedicado às crianças, e por realizar outros projetos envolvendo literatura para brasileiros residentes na capital inglesa, diz ficar surpresa quando percebe que algum autor daqui se envaidece ao se apresentar na Europa, como se o continente fosse um território superior. “É interessante lembrar que a Europa vem sendo cada vez menos um modelo de civilidade. A situação na Síria, por exemplo, envergonha o continente, particularmente o Reino Unido. O deslumbramento pela Europa não faz sentido”, pondera.

É com essa perspetiva que pensa e produz a literatura nacional. A princípio, diz que a distância não interfere em suas atividades, que várias das características de suas criações seriam as mesmas morando em qualquer parte do mundo. “A motivação, o desejo e a necessidade de escrever é algo interno, íntimo, independe de fatores sociais, de atualidades, de política, de tendências. A minha produção não exige a minha reflexão sobre o seu propósito ou sobre o entorno de onde acontece essa escrita.” Mas enxerga um paradoxo em sua posição:

 

“É raro escrever sobre o que não conheço. Não que eu tenha que passar por determinadas experiências para falar delas. Mas somos uma bagagem e tudo que está na nossa escrita, é invariavelmente a forma com a qual nos posicionamos diante de pressupostos ou até mesmo experiências. É aí que, paradoxalmente, o meu país de origem transborda na minha produção, já que as minhas narrativas têm o reflexo da sociedade latino-americana a qual, mesmo que passe o tempo, sinto como a mais dominante em mim. O fato de eu, por exemplo, não gostar de escrever ficção em inglês também expressa o vínculo com a pátria mãe. A língua me representa, de certa forma. É por meio dela que posso trabalhar. E é dela que eu preciso o tempo todo”.

 

De forma parecida vê o momento político nacional interferindo em seu trabalho. “Há um resquício, mas não é determinante. Talvez seja inevitável mesmo esse impacto. É impressionante como passei a me importar com o Brasil desde que vim morar fora. Pra mim, foi extremamente importante o meu afastamento para me dar conta de tudo o que eu prezo e desprezo no país”.

É aí que lembra que deixou o Brasil para estudar e que, desde pequena, tinha o plano de “ir embora”, ideia que sempre lhe seduziu imensamente, principalmente por projetar uma liberdade de experimentar outras línguas, outros olhares… “Esse afastamento acaba me gerando muita revolta e um pensamento crítico com menos paixão e mais frieza. A todo momento, os direitos humanos no Brasil são violados sem que sequer as vítimas saibam que poderiam ter o amparo da lei. É um deboche. Há alguns anos, cogitei morar no Brasil. Eu tinha mais esperança. Hoje, apesar de algumas lutas importantes, mas isoladas, me escandaliza a tendência do Brasil a se entregar a governo dos autoproclamados religiosos. Me espanta a aceitação da perpetuação do machismo, do preconceito. É quando eu tenho pouca paciência e menos esperança”.

Nesse ponto que vê alguma consonância entre o nosso momento e o que produz, levando em conta principalmente o recém-lançado A loucura dos outros, que saiu pela editora Reformatório, no qual apresenta contos que acabam por questionar muito da situação humana. Autor do prefácio, o escritor Godofredo de Oliveira considerou o texto como “machista”, algo que Nara concorda e vê nisso uma chance para tentar criar um interferir em um movimento político mais amplo, muito mais social do que burocrático.

“É um livro que reflete a bagagem da minha criação, da criação de uma geração que cresceu com estereótipos de que mulher não sabe dirigir, que homem não chora, que há a literatura de mulherzinha. Uma geração que vem quebrando tabus, debatendo ódios, preconceitos congelados pelo costume, pelo habitual. A questão do abuso ao direito do ser humano, a violência doméstica, a expectativa da maternidade como supostamente o caminho natural da mulher, o tabu do sexo fora do casamento, o vício, o alcoolismo, tudo isso está nos textos do livro. De uma forma ou outra, é um livro que reflete a minha inquietação, particularmente com a percepção da mulher no quadro social e psicológico. Por trazer temas e narrativas tão machistas, A loucura dos outros talvez tenha espaço para provocar e gerar algum debate feminista. Se isso acontecer, já é uma recompensa pra mim.”

DE PARIS
Quem assume maior impacto em seu trabalho é Leonardo Tonus, coordenador do Departamento de Estudos Lusófonos na Université Paris-Sorbonne (França), coordenador do Programa de Intercâmbio PLI (Programa de Licenciatura Internacional) com diversas universidades brasileiras e idealizador e curador do Printemps Littéraire Brésilien. “Enquanto especialista de cultura e de literatura brasileira contemporânea no exterior, toda e qualquer mudança estrutural (política, econômica ou social) tem um impacto direto em meu trabalho”, diz ele, que está na França há quase 30 anos.

Na sequência, explica que esse impacto se dá, atualmente, pela fragilização de parcerias firmadas há anos entre os dois países decorrente das incertezas políticas que o Brasil conhece hoje em dia. Além disso, os problemas econômicos impactam nos programas de incentivo à promoção da cultura brasileira no exterior, como o congelamento de intercâmbios estudantis e a diminuição ou o desaparecimento de programas de apoio e de incentivo à internacionalização de nossa cultura, ações que aponta como “catastróficas”. “Muito tem se discutido sobre a pertinência de tais programas e projetos, como a participação em feiras internacionais e subsídios públicos à promoção do livro no exterior, os quais se contrapõe à frágil situação da educação e da cultura no Brasil. Em minha opinião, ambos não se excluem. No mundo pós-globalizado, em que vivemos direcionados (e ditados) pelas politicas de 'softpower', eles são complementares.” 

Esse tipo de fomento no exterior, aliás, que pode fazer com que o interesse pela literatura brasileira continue crescendo na França. “Nos últimos três anos, verifico, em minha universidade, um crescimento exponencial de estudantes especialistas e não especialistas inscritos nos cursos de português. Estes, em breve, tornar-se-ão leitores, atores e promotores de nossa cultura e de nossa literatura no exterior. A eles, caberá o papel de fortalecer e assegurar a recepção da literatura brasileira por aqui”, conta Tonus. E hoje, segundo ele, esse interesse se dá não apenas por nomes como Jorge Amado e Paulo Coelho, mas também por escritores como Conceição Evaristo, Milton Hatoum, Andrea del Fuego, Bernardo Kucinski e Antônio Torres.

Por fim, falando sobre como é pensar a literatura de um país vivendo em outro, Tonus evoca a condição de eterno estrangeiro, que, aponta, manifesta-se em um estranhamento de mão dupla, em relação tanto à nova cultura quanto à daquela original, que aos poucos se altera no imaginário:

 

“Pensar e produzir literatura fora do país é viver cotidianamente as dicotomias e as aporias do espaço do ‘entre’ (e não do entre lugar) onde se revela, segundo o filósofo francês François Julien, a verdadeira experiência da alteridade: o reconhecimento do outro pela fragilização do ‘eu’”.

 

capa 196
CONTINENTE #196  |  Abril 2017

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