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Débora Ferraz. Foto: Bruno Vinelli/DivulgaçãoDébora Ferraz. Foto: Bruno Vinelli/Divulgação

Obras recentes de Débora Ferraz, Rafael Gallo e Paula Fábrio têm como base de suas narrativas desaparecimentos, deslocamentos e crises pessoais

Em Enquanto Deus não está olhando, que valeu o Prêmio São Paulo de Literatura a Débora Ferraz, uma filha busca seu pai desaparecido. Em Rebentar, de Rafael Gallo, uma mãe procura o filho. Em Um dia toparei comigo, de Paula Fábrio, a narradora viaja para encontrar a si mesma. Os dois títulos – de Gallo e Fábrio – estiveram entre os finalistas de 2016 do prêmio vencido por Débora em 2015. Gallo ganhou o de Autor Estreante. Esses livros despontam entre os mais importantes da nossa produção contemporânea e, como foi apontado, retratam buscas. Buscas familiares. Buscas por gente querida. Buscas pelo eu perdido ou um novo eu. E, se há busca, há perda. E por que tanta gente tem se perdido pelas nossas letras? 


“Sempre gostei da explicação que há no livro de Maria Valéria Rezende (outra autora que abordou o tema recentemente, em Quarenta dias, vencedor do Jabuti de 2015), não é exatamente nessas palavras, mas ela diz que o mundo se divide entre os que procuram e os que precisam ser encontrados. A literatura é apenas um meio de ver o mundo e, no mundo, o fato é que as pessoas realmente se perdem umas das outras”, diz Débora, remetendo à colega de escrita.

De sua parte, Paula coloca o tema como algo tão antigo na arte quanto a morte e o amor. “No fundo, parece que as três ideias andam de mãos dadas, na vida e nos livros”, afirma ela, que elenca uma série de exemplos. “Orfeu buscou Eurídice no mundo dos mortos; Proust buscou o tempo (perdido); Vicente, do conto Busca, de João Antônio, também procurava a si próprio ou, pelo menos, buscava sentido para uma vida sem perspectivas, entediante, típica do homem-máquina das grandes cidades. Por sua vez, os irmãos órfãos de Os Malaquias, de Andrea Del Fuego, buscavam-se uns aos outros. Em síntese, eu não saberia responder por que tantos personagens se perdem ou se deixam perder. Na verdade, talvez estejamos diante de um movimento que nunca cessou. Mesmo porque a literatura é busca. Mas, de modo evidente, de tempos em tempos, certos temas irrompem com mais destaque.”

Gallo, por sua vez, levando em conta as obras citadas, acredita que a busca pelo outro é, em grande parte, uma busca por si mesmo, por se descobrir. “Talvez, no mundo de hoje, as pessoas sintam que têm menos raízes firmes, o que pode ser bom por um lado – a redução nos controles opressores ou nas obrigações sociais e familiares –, mas, por outro, pode proporcionar alguma carência de se estar mais conectado a um universo próprio, a vínculos mais seguros, que reforcem traços identitários comuns.”

Rafael Gallo. Foto: Wilian Olivato/DivulgaçãoRafael Gallo. Foto: Wilian Olivato/Divulgação

BUSCA PELO FILHO
Olhando com mais cuidado para Rebentar, Enquanto Deus não está olhando e Um dia toparei comigo, cada um, evidentemente, apresenta nuances bem distintas para a busca empreendida pelos personagens. No romance de Gallo, talvez a mais cruel das procuras: a de uma mãe que perde o rebento – e perder não significa vê-lo morrer ou saber que ele morreu, veja bem, quer dizer não saber onde e como ele está. O escritor alerta, contudo, que tanto no romance quanto em outros textos seus o avesso da questão acaba sendo também retratado: a importância de se estar junto. “O que é amar uma pessoa? O que é amar um filho? Do que são feitas realmente as costuras da trama do vínculo? Rebentar as desmancha para tentar encontrar a resposta, como uma espécie de engenharia reversa do amor.”


Voltando ao cerne da questão, Gallo concorda que talvez seja mesmo a perda mais cruel de todas. “Dizem que a perda de um filho amado é a maior dor emocional possível e eu consigo compreender essa ideia. O desaparecimento tem outro aspecto, mais difícil de se lidar do que a morte, porque ele não te permite realizar e encerrar o luto. Quando um filho morre, é terrível, mas há um ponto final, de onde só resta recomeçar. Com um filho desaparecido, não há esse ponto de onde você segue adiante. Os pais de um filho desaparecido não têm o direito de recomeçar, porque precisam se manter presos àquilo que nunca teve encerramento. Além do mais, essa possível reversão da perda – o reencontro – parece depender, em grande parte, de seus esforços, do acerto deles. Ou seja: ainda há uma demanda sobre os pais, que não podem nem mesmo se deixarem derrubar. Tudo isso em meio ao sofrimento da ausência, a qual é tão completa quanto a da morte: você não tem mais seu filho com você, não tem nada dele, nenhum dia a seu lado. É terrível, talvez seja mesmo a perda mais cruel que pode existir.”

BUSCA PELO PAI E POR SI
No movimento contrário, em Enquanto deus não está olhando, é uma filha que busca pelo pai que desaparece. O sumiço acaba por alterar radicalmente a maneira como a menina encara seu progenitor. Érica enxergava no homem uma pessoa rude e alcoólatra, mas o desaparecimento repentino faz com que, aos poucos, a imagem de seu pai em sua cabeça se transforme, ou seja, a ausência física acaba por impactar diretamente na formação de uma memória afetiva. “No caso do livro, acredito que isso vem da interrupção no diálogo, na perda da continuidade. A personagem tinha uma relação difícil com o pai, mas isso não era um problema enquanto a relação estava em curso. Só a ausência física dele, no momento em que ele desaparece, é o que congela as coisas e torna-as definitivas. É aí que a memória começa, que o passado é criado, narrado, lembrado… passa a ser responsabilidade dos afetados fazer com que a pessoa exista”, comenta Débora.

A vida da própria escritora é pontuada por sumiços, aliás. Conta que a história de sua família no Sertão é marcada por desaparecimentos, de gente que sumiu na época da ditadura “por nada, só porque era muito fácil alguém desaparecer ali, por ser gente sem documento, sem ter quem fosse procurar…”, de gente que some por conta de crises econômicas, tenta buscar outra vida em outro canto e acaba nunca mais voltando ou sequer se comunicando. 

Já como leitora, Débora recorda que a primeira vez em que viu uma pessoa sob risco de sumir foi lendo Vidas secas, de Graciliano Ramos. “Quando o Fabiano sai sozinho e sem ter documentos, sem saber escrever ou ler, vai preso e nem sabe como avisar pra ninguém onde está. Isso foi algo muito potente de encontrar num livro e que me fez pensar no desaparecimento como uma possibilidade tão incontornável quanto uma bala perdida.”

A narrativa de Paula, enfim, apresenta uma busca bastante corriqueira nos nossos dias. Quantas pessoas não se queixam de aspectos da vida e vislumbram em uma viagem – normalmente longa, para um lugar distante – a solução para os seus problemas? Seria como se apenas o deslocamento e a experiência estrangeira permitissem ao indivíduo voltar o olhar para si mesmo e, quem sabe, topar consigo. A própria autora lembra que a literatura de viagem tem muito a ver com esse tipo de busca. Cita Viagem ao redor do meu quarto, do francês Xavier de Maistre, como um exemplo de deslocamento confinado, sem sair fisicamente do lugar. Já se assemelhando ao seu trabalho e apresentando uma travessia tal qual costumamos imaginar, lembra o clássico As vozes de Marrakech, no qual o búlgaro Elias Canetti relata uma viagem que fez ao Marrocos e mostra como o confronto com o outro, com uma cultura distinta, contribui para a autobusca.

Ela pontua: “Creio que o deslocamento represente nosso melhor espelho, uma vez que promove a oportunidade do questionamento: por que nos vestimos com esta ou aquela roupa, por que preparamos um legume deste ou de outro modo? No meu livro, também há o diálogo com a leitura, outro modo de viajar e de autoconhecimento. Esse negócio de inserir um livro para cada cidade visitada, no caso de Um dia toparei comigo, também é uma busca da personagem narradora pelo conflito, pelo confronto, mesmo que ela não perceba essa opção de maneira clara”.


Paula Fábrio. Foto: DivulgaçãoPaula Fábrio. Foto: Divulgação

BUSCA POR UM PAÍS?
E, olhando para a realidade, a impressão é de que o próprio Brasil anda um tanto perdido. Num diálogo com a realidade, as buscas literárias poderiam oferecer alguma luz, ainda que metafórica, para a atual situação nacional?

“Buscar desaparecidos é um esforço de ter diálogo sem que o outro esteja ali para contra-argumentar, para que se continue, se chegue a algum lugar. As pessoas se movem em seus dramas privados enquanto as leis são feitas, causas se perdem…”, comenta Débora.

“Uma das primeiras leituras do romance foi de um colega escritor que apontou algo assim. Ele viu Rebentar como uma espécie de alegoria do fim da utopia. Ou seja, esse momento no qual você precisa encarar que algo ao qual você estava apegado se foi, perdeu o sentido. O livro, assim, aborda um processo de superar algo nostálgico para encarar o presente e tentar descobrir como se adaptar a ele”, diz Gallo. 

Algo semelhante ao ponto de partida do que pensa Paula: “Fico tentada a responder que os brasileiros estão em busca de uma identidade nacional. Mas como sabemos que identidade é uma construção cultural, uma ideia fabricada, torna-se bem mais difícil e perigoso fazer uma formulação desse tipo. Eu também poderia falar que algumas personagens são movidas, como as pessoas, pelo desejo de desaparecer, de não serem encontradas, e assim teríamos um prato cheio para a metáfora de deixar o país, por exemplo. Mas não sei. Por ora, opto por dizer que a desestabilização da literatura, a fuga-busca dos personagens estejam a postos para dar uma rasteira no leitor. Essa é nossa busca primordial. E ele, na maior parte das vezes, nos agradece”.

capa 196
CONTINENTE #196  |  Abril 2017

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