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O livro apresenta uma visão sem nitidez, "desbotada", do Recife. Foto: Amanda Coutinho/DivulgaçãoO livro apresenta uma visão sem nitidez, "desbotada", do Recife. Foto: Amanda Coutinho/Divulgação

Quando Carlos Gomes escreve o verso “as cidades com seus nervos” em seu novo livro de poesia canto primeiro (ou desterrados), ele parece resumir bem o que a obra se propõe a passar: "O livro pode sugerir um retrato ou recorte pessoal sobre a cidade e as contradições que nela habitam, as relações de força, os conflitos etc.", conta o autor, em entrevista à Continente. Feito em parceria com Amanda Coutinho, fotógrafa responsável pelo ensaio exclusivo para a obra, o livro possui 10 poemas nos quais o Recife se apresenta de forma desfigurada e desbotada, como o próprio poeta sugere. As poesias estão disponíveis para dowload gratuito no site da Revista Cardamomo.

Capa de "canto primeiro (ou desterrados)Capa de "canto primeiro (ou desterrados)

Nascido no Recife, Carlos Gomes cresceu no Bairro do Porto da Madeira enquanto criança e adolescente, e já adulto, no Arruda. Pensar a cidade sempre fez parte das coisas que, futuramente, viria a escrever – seja em poesia ou não. “Mais velho, pude entrar em contato com outras visões sobre a cidade, sobretudo produções artísticas, discussões e reportagens que me colocavam em contato com outras cidades, cidades que não estavam no meu alcance”, conta.

O livro se divide sob os títulos uma máquina, sobre nós, mãe, cidade, cadáveres, paisagem, escuro, vazio, geografia e música, que parecem conversar entre si, dando uma ideia de narrativa, ainda que não cronológica. Segundo Carlos Gomes, também pesquisador em Comunicação pela UFPE, nome por trás da revista Outros Críticos e escritor de outras obras, como corto por um atalho em terras estrangeiras (2012), foi proposital a criação desse diálogo entre os títulos. “O canto primeiro pode ser lido como uma só também, ao mesmo tempo em que cada poema guarda uma unidade”, explica o poeta.

Para explicar seu processo criativo dos poemas, Carlos se lembra do que o inspirou para escrever o uma máquina: um conjunto de retroescavadeiras enfileiradas da marca Komatsu, que posteriormente compõem todos os versos do poema de abertura. “Eu tinha visto uma reportagem de Eduardo Amorim sobre as desapropriações no Loteamento São Francisco, em Camaragibe, por conta da Copa do Mundo no Brasil. Aquilo mexeu muito comigo”, diz Carlos.

Fora isso, a música Marcha das máquinas, de Mateus Alves, e o filme Brasil S/A, de Marcelo Pedroso, também contribuíram para a criação deste primeiro poema. Quando Carlos escreve suas poesias, costuma reler, reescrever, montar e desmontar estrofes. Entretanto, uma máquina permaneceu do mesmo modo desde que ele o concebeu. Essa ideia de desterro, de desapropriação de terra, permaneceu tão forte nele que acabou incluindo-a no subtítulo de sua obra.

Leia o poema:

komatsu é UMA MÁQUINA
komatsu é uma grande máquina amarela
komatsu desterrou famílias
komatsu remexeu na terra
komatsu passou por cima
komatsu atravessou o velho
komatsu destruiu o antigo
komatsu inventou o novo
komatsu é um senhor nervoso
komatsu não escuta as vozes
komatsu não compreende o choro
komatsu indenizou a todos
komatsu só quer trabalhar
komatsu é como a lei da vida
komatsu não desconhece a morte
komatsu é um leão faminto
komatsu é o leão do norte
de longe se vê, komatsu

O objetivo de Gomes é escrever cinco "cantos". O segundo, intitulado de canto segundo (cantores de rua) está em processo de finalização, ou de “montagem”, como o autor gosta de sugerir. A coletânea final, canções não, terá um aprofundamento nas relações nas várias linguagens, como o primeiro estabeleceu relação com a fotografia de Amanda Coutinho. Estou num processo de amadurecimento das vozes e linguagens que venho adotando na minha escrita. É um processo contínuo que não sei para onde vai me levar. Estou entre crítica e criação, entre poesia e música, entrelugares.” 

  

capa 198
CONTINENTE #198  |  Junho 2017

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