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 A queda do muro de Berlim, trazida no conto "Oito Nove" Foto: Reprodução A queda do muro de Berlim, trazida no conto "Oito Nove" Foto: Reprodução

 

"alma é
essa coisa
que nos pergunta
se a alma existe" (Mário Quintana)


"Fronteira. fron-tei-ra. Substantivo feminino. Parte correspondente ao limite extremo de uma terra, área, região etc., parte limítrofe de um espaço que confina com outro. Espaço contíguo a esse limite extremo. Limite, marco ou linha divisória entre duas regiões, dois estados, países. Limite material que separa um sistema físico e sua região externa; separação estabelecida entre um sistema e seu exterior." Eis algumas (in)definições para este vocábulo encontradas no dicionário Michaelis. Além delas, Fronteira também é o título do primeiro livro de contos do paulistano Luís Fernando Pereira, publicado pela Chiado Editora.

No compilado de 14 contos, o autor percorre diversas significações e âmbitos onde há zonas fronteiriças. No corpo, nas relações sociais, afetivas, e até onde o mundo material termina e o sobrenatural acaba – se é que ele existe. Uma estética literária “brutalista” transita o livro, mas não de maneira plena; é pincelada. Certamente, quem já leu algo do escritor mineiro Rubem Fonseca – um dos principais difusores desse tipo de literatura, batizada por Alfredo Bosi –, ao entrar em contato com Fronteira, pode perceber um diálogo. Mas há outros diálogos, com um regionalismo, não aquele da década de 1930, mas um regionalismo reestruturado, renovado, bem habitual à literatura contemporânea brasileira. Um fator interessante na ficção de Luís Fernando Pereira é como alguns personagens naturalizam assuntos e situações de violência, que se amparados à vida não-ficcional, seriam taxados amorais, para retomar essa aproximação ao “brutalismo” citado anteriormente.

Capa de "Fronteira", de Luís Fernando Pereira Foto: ReproduçãoCapa de "Fronteira", de Luís Fernando Pereira Foto: Reprodução

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A morte é uma das (se não for a principal) temáticas exploradas, em seus diferentes aspectos, na grande parte dos contos. Como através de narrativas carregadas de tensão, devido à proximidade - na própria estrutura do texto - de elementos antagônicos ao que se associa pelo senso comum do que seria a morte:

“Amor, combata a marcha dos mortos. Trepe bastante. Todo desencarnado mantém distância dos gemidos gulosos. Suor espanta defunto. Aconselho-te que coma bem: carne, feijão gordo, malagueta.”

Neste fragmento, o autor explora o avesso da morte (comida, sexo, suor) no conto que abre o livro; seja através de figuras religiosas mediadoras entre o humano e o mundo sobre-humano (médium, pai de santo, ciganas que adivinham o futuro, a Virgem Santa).


Destaque para o conto Eis teu pai, em que o autor provoca as religiões que só legitimam a fé através de sacrifícios, um narrador-personagem que pretende se tornar um pastor – que guarda traços ideológicos marxistas –, mas encontra-se no limiar entre acreditar em Deus e essa crença lhe trazer questionamentos e conflitos sobre o seu exercício eclesiástico:

“Prometo a visão ao cego. (...) Coloco a mão na sua testa. Eu poderia acalmá-lo. Contar sobre a recompensa de Jó. A doação de Cristo. Que Deus Pai consola os homens no sofrimento. Que se nos amarmos uns aos outros tudo dará certo. Mas não me atrevo. O senhor reserva um castigo terrível aos falsos profetas.”


As várias significações da palavra "fronteira" são exploradas: territoriais, corporais (boca, ânus, pé) e históricas, como a Queda do Muro de Berlim exibida pela televisão em 1989, no estilo “a revolução será televisionada”. A tecnologia, esse facilitador/aproximador, que permite ver os acontecimentos em tempo (quase) real, ela mesma tempo tira o sujeito da rua, de estar participando das ações, ou seja, o afasta.

Se nos contos iniciais a morte é citada explicitamente, ao longo do livro, vai se diluindo até que no último, My son, o autor se volta às origens da vida, em uma relação entre pai e filho. A ausência quase que total de conectivos na estrutura poderia quebrar a fluidez narrativa, isso se não tivesse a escolha prudente das frases que, no caso de Fronteira, permite ao leitor uni-las e compreender cada um dos contos holisticamente.

“Dizem que quando acontece uma tempestade no Sol, os telefones falham na Terra.”

 

capa 198
CONTINENTE #198  |  Junho 2017

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