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Zito da Galileia por Iza VarejãoZito da Galileia por Iza Varejão

 

“Fiquei mastigando essa história. Nunca dava certo, mas eu sempre escrevendo. Já estava sem esperança de publicar.” A frase é de José Joaquim da Silva, de 69 anos, o Zito da Galileia, que lança, em dezembro, pela Cepe Editora, o livro de memórias A história das Ligas Camponesas – Testemunho de quem a viveu, projeto que o autor vem acalentando desde a década de 1990, quando morava em São Paulo.


O testemunho de Zito vem acompanhado de um anexo, com vários textos coletados (e redigidos) pelo escritor e jornalista Marcelo Mario de Melo, que o ajudou a transformar o calhamaço de originais em livro. Nele, o leitor terá uma visão mais ampla do que foi a luta pela reforma agrária no Brasil, nas décadas de 1950 e 1960, liderada pelas Ligas Camponesas. Autores como Paulo Cavalcanti, Francisco Julião, Josué de Castro (Programa de 10 pontos para vencer a fome, elaborado nos anos 1950), trechos do famoso discurso do presidente João Goulart em 13 de março de 1964, no Rio de Janeiro, pouco antes do golpe que estava sendo urdido, no qual defendia a reforma agrária, e um poema de Vinicius de Morais, intitulado Oshomens da terra, publicado em 1962 estão na publicação. Além disso, um ensaio fotográfico de Iza Varejão retoma as imagens de um lugar cheio de significados – o Engenho Galileia.


Sim, mas quem foi Zito da Galileia? – perguntarão muitos leitores. Zito era menino de oito anos, em 1955, quando foi criada, no Engenho Galileia, próximo a Vitória de Santo Antão, a 60 quilômetros do Recife, a Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores de Pernambuco – SAAP. Hoje é difícil lembrar essa sigla, mas ela conseguiu algo improvável em dezembro de 1959. Enfrentou o poder dos latifundiários, donos de engenho, políticos poderosos, e conseguiu desapropriar o Engenho Galileia. A posse da terra foi em fevereiro de 1960. O detalhe é que Zito era neto de José Francisco de Souza, o Zezé da Galileia, que foi presidente da Sociedade, que se tornou o embrião para o nascimento de um dos maiores movimentos libertários dos trabalhadores rurais do Nordeste – as Ligas Camponesas.


“Este livro foi escrito por uma questão de paixão pela história da Liga Camponesa da Galileia, que nasceu na residência do meu avô, o velho Zezé da Galileia”, lembra Zito na introdução à publicação. Ele acompanhou tudo, em diferentes fases de sua vida. Quando era menino, viu os camponeses tirarem as enxadas do chão (ou do lombo) e as erguerem, em passeatas, reclamando por direitos básicos mínimos – como o de não serem tratados como escravos. As rodas de conversa, na casa do avô, eram aulas de História, Sociologia, política: eram frequentadores Francisco Julião, Gregório Bezerra, Davi Capistrano e todas as lideranças do movimento. Tinha oito anos quando participou do primeiro evento, no Recife, o Congresso Camponês de Pernambuco, que reuniu mais de três mil pessoas. Estava com 13 anos, quando o churrasco para duas mil pessoas celebrou a posse da terra, em Galileia. Tinha 16 anos e estava defronte ao Palácio do Campo das Princesas, junto a centenas de trabalhadores rurais, para celebrar a posse do recém-eleito governador Miguel Arraes. E, aos 17, viu o golpe militar e a fúria repressiva destruírem tudo o que se referisse às Ligas – pessoas, especialmente.


Numa narrativa simples, que segue o fluxo de suas memórias, entremeada por pesquisas (especialmente do período em que morou em São Paulo), relatos e fatos que presenciou, Zito traz para a bibliografia do período a contribuição rara do “eu”. A narrativa é marcada por uma espécie de contenção reguladora, de quem esteve próximo demais e não pretende ir além limite de suas memórias.

  Memória da atuação das Ligas Camponesas em Pernambuco é o foco da publicaçãoMemória da atuação das Ligas Camponesas em Pernambuco é o foco da publicação

 

O AVÔ ZEZÉ
Os militares começaram a tomar o poder na noite do dia 31 de março de 1964 e concluíram tudo no dia 1º de abril. Mas as prisões, torturas, assassinatos, fechamento dos sindicatos rurais, já faziam parte do cotidiano dos que ousaram “tomar posse” de algum pedaço de terra – mesmo com a sanção do governador, como foi o caso de Galileia.


Era dia 26 de abril, e seu avô Zezé ainda não tinha sido preso. Às 10h, chegou à casa dele o “tenente Saraiva”, acompanhado de quatro soldados. Disse à dona Marieta, sua esposa, que o chamasse onde ele estava escondido, porque não seria preso, por ser idoso. Iria só “dar um depoimento na delegacia de Vitória” e seria trazido de volta.


“Dona Marieta acreditou. Foi chamar seu esposo que, ao chegar em casa, foi abraçado pelo tenente e não recebeu voz de prisão. Mas, em vez de irem para Vitória, seguiram para a Secretaria de Segurança no Recife. Zezé ficou alguns dias incomunicável, a família correndo presídios, delegacias, quartéis, sem encontrá-lo. Até que se soube que ele estava no quartel do 7º R.O., em Olinda.”


No breve relato de uma cilada, uma prisão, a incerteza sobre o paradeiro de um parente, o desespero pela falta de notícias, Zito mostra também os primeiros dias da ditadura que durou 21 anos. Em nenhum momento ele se refere a Zezé como “vovô”. Sequer o “ele”. Parece querer apenas mostrar ao leitor o que aconteceu. Não é um texto marcado pela indignação. Zito conta, e deixa ao leitor o entendimento. Ou, neste caso, o sentimento. E a memória parece renascer.


“Aí foi colocado em um cubículo de dois metros quadrados, comendo pão sem receber água, que retirava de um esgoto quebrado no meio da cela. Ficou seis meses incomunicável. Dentro do cárcere, teve um AVC. Então os militares resolveram libertá-lo. Voltou para Galileia barbudo, doente, desnutrido e fragilizado. Faleceu no dia 30 de agosto de 1969, no Hospital João Murilo de Oliveira, em Vitória de Santo Antão, deixando esposa, filhos, filhas e netos.”
O tom do livro é atravessado pela necessidade de contar, mas o fato de ter “mastigado” tantos anos o que pretendia dizer, parece ter produzido em Zito os efeitos do próprio tempo. Não há um “acerto de contas”, por assim dizer. Ele quer apenas que outros saibam o que foi vivido e o que foi silenciado.


Na primeira lembrança, ele estava com oito anos. Aos 18, tirou os documentos para procurar emprego. Passou por várias fábricas, oficinas, enchimento de bebidas, tecelagens, fábricas de papel. Bastava alguém citar a palavra Galileia, que Zito era chamado de “comunista”. Em outro emprego, descobriram que ele era “camponês”. Eram palavras que podiam custar caro, em plena perseguição. Mudou-se para o Recife. Ficou morando em um pequeno barraco, escondido, ainda preocupado com as notícias que lia nos jornais. Prisões, mortes, torturas, corpos de camponeses encontrados nos canaviais. “Os militares ainda não tinham esquecido Galileia”, diz.


Em 1969, começara o mais brutal período do regime – o governo Médici. Zito conseguira uma vaga como cobrador de ônibus. Ficou trabalhando, mas sempre nervoso com a agitação da cidade. Voltou para Galileia, ficou alguns meses com o pai. Mesmo com pouca educação formal, mandou-se para São Paulo. Era o dia 29 de junho de 1971.

 

CELESTE E SERAFIM
Um dos capítulos mais contundentes do livro é o sobre o golpe militar, e a quixotesca tentativa de resistência de gente comum, como a professora Maria Celeste Vidal Barros e o militante Joaquim Serafim dos Santos. No dia 31 de março de 1964, quando as rádios anunciavam o cerco ao Palácio do Campo das Princesas, eles estavam na sede das Ligas, em Vitória. Pegaram os microfones da Radio Jurema, e convocaram os camponeses para a resistência.


“Com dois mil camponeses, invadiram as delegacias de Vitória e Pombos, renderam 30 policiais efetivos, tomaram as armas, distribuíram-nas com os camponeses e passaram a telefonar para o Recife solicitando armas para a resistência. Ligaram para o Palácio do Campo das Princesas, o quartel do Derby, a Escola de Aprendizes Marinheiros, mas nada conseguiram, pois os oficiais não estavam dispostos a arriscar a pele. E como resistir era impossível, no dia 2, às 17 horas, Luiz Serafim e Maria Alceste resolveram se esconder.”


Zito segue os caminhos desses resistentes. No dia 3 de abril, à noite, eles estavam reunidos na sede da Liga de Bento Velho, escutando as notícias pelo rádio. Não tinha mais jeito, o golpe militar estava consolidado. Pegam um jipe e fogem para Glória do Goitá. Minutos depois, chegaram dois jipões lotados de soldados do Exército, que invadiram a Liga e destruíram o que era possível, além de rasgar o livro de atas e roubar o dinheiro das mensalidades dos associados. Celeste pede que a deixem em casa, pois os filhos tinham ficado sozinhos. Temendo ser localizada por causa do jipe, ela resolve ir a pé e depois pegar um táxi. Ao se aproximar de casa, vê que estava cercada pelos militares. Entra na residência de uma amiga e se esconde.


“Enquanto isso, os militares estavam na sua casa vasculhando tudo, jogando livros pelo chão, derrubando móveis e objetos. Passaram a pressionar as crianças, perguntando se Celeste tinha amigos naquele bairro. As crianças inocentemente começaram a falar em nomes de amigas de Celeste. E, na terceira casa invadida, encontraram Celeste escondida debaixo de um tanque de lavar roupa, e deram-lhe voz de prisão.”


O relato de Zito é seco, duro, um retrato contundente do que aconteceu com centenas de camponeses que fizeram parte das Ligas, naqueles anos de luta pela posse da terra.“Transportada até o Recife na carroceria de um caminhão, foi estuprada seis vezes pelos militares durante o trajeto. Ao chegar à Secretaria de Segurança, continuaram as torturas: o telefone, o choque elétrico, a queimadura nos mamilos com pontas de cigarros, para revelar onde estavam escondidos os outros companheiros.” Em raros momentos do seu testemunho, Zito usa o “meu” ou o “minha”, como se pudesse, finalmente, revelar alguma posse.


“Em 1974, visitei em Galileia o meu velho pai, já um tanto cansado, e minha mãe doente. Só alguns filhos estavam ali.” Os pais, como metáfora de uma terra que se possui, e que jamais poderá ser arrancada.

capa 199
CONTINENTE #199  |  Julho 2017

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