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Inédito

alegre marcha fúnebre

TEXTO ANTONIO MARTINELLI
GRAVURAS JULIA GOELDI

12 de Fevereiro de 2021

Gravura em água tinta

Gravura em água tinta

Imagem Julia Goeldi

[conteúdo exclusivo Continente Online]

Há mais de 100 anos, o poeta pernambucano Manuel Bandeira lançava o livro Carnaval (1919), obra menos conhecida, pouco aclamada, e que marca a passagem de sua poesia do parnasianismo e simbolismo para o modernismo. Dois fatos curiosos chamam atenção.

O primeiro diz respeito ao célebre poema Os sapos, que alçou Bandeira como um dos expoentes da Semana de 1922 e, embora só tenha ganho essa projeção aí, foi escrito e publicado em Carnaval, à época rechaçado por grande parte da crítica. O segundo ponto foi que Bandeira cantou aí o mais triste e fúnebre Carnaval de todos os tempos, em contraponto ao também mais alegre da história.

O que os ferozes ao livro de Bandeira talvez não tenham atentado era que, como observou Darcy Ribeiro anos depois, a voz melancólica que perseguiu toda a poesia de Bandeira já estava lá. Mais tarde, entendeu-se que toda a tristeza, morbidez, assombro que marcam os poemas de um carnaval em marcha fúnebre se devem ao fato de 1919 ter sido o primeiro Carnaval após a gripe espanhola no Brasil e no mundo, uma das mais perversas e mortais epidemias, e Bandeira cantou o luto e o espanto dele diante das pessoas que, mal enterraram seus mortos, já saíam em praça pública, em estado de gozo.

Começando do sábado de "não-Carnaval", apresentamos a série alegre marcha fúnebre aqui e em nosso perfil do Instagram (@revistacontinente), um conteúdo exclusivo e pandêmico com cinco poemas inéditos de Antonio Martinelli (@antoniomartinelli), que revisitará as temáticas da obra de Bandeira. As poesias, lançadas diariamente até a Quarta-feira de Cinzas, são também peças de conversação com a obra da gravurista Julia Goeldi (@juliagoeldi). Partindo de cinco expressivos trabalhos da artista, Antonio provoca um diálogo com Bandeira e ela, sem se afastar do assombro do presente dos dias em que oficialmente o Carnaval foi cancelado, mas que assim não será (para muitos negacionistas), em nossos tristes trópicos.

Confira a seguir:

DIA 1

[até um sábado de aleluia]


como no princípio do antigo
mundo,
como no [ventre
covil de serpentes no cio]
                                desfilam:
                                andróginos seres imaginários / intermédios bicho gente / dois sexos / cabeças privadas de corpos humanos / corpos de homens sem pés nem cabeças/ rostos com muitos olhos sem bocas sem orelhas / cegos com três olhos / buraco no lugar do nariz / rosto sem nariz / boca pintada em máscara de meia calça / homem espírito sem face / corpo de homem vestido de bicho sem alma / homem [monstruoso animal] / seres de membros trocados / Satãs / bandidos / Mestres das Ordens / homens e mulheres vestidos de morte / jardineiras / malandros /Príncipes das mortes / gatinhas botocadas / homens brancos botocados / Satanás / cafetinas / Pierrôs / poucos gays / nenhuma trans / Esfinges / Capirotos / cafetões / Pierrettes / todos querem botocar / Arlequins / Baals / [marinheiro triste] / Senhores das moscas / Colombinas / uns homens brancos meio brochas paus pequenos [cobras de lívidos venenos] paus de selfie com suas grandes armas de brinquedo com suas metralhadoras giratórias / os filhos homens de Leviatã / os filhos homens da Peste / os propagadores da Peste / os filhos de Lúcifer / agora giram seus paus moles e se reviram e contagiam na avenida [e rodam mais que confete].

eu, branquinho como eles,
munido de máscara de gás,
portando artigos de necessidade
no trote da volta para casa
ouço a algazarra, alguém faz festa?
Na esquina, trombo um desbotado Arlequino
[frangalho de fantasia]
cubro o peito com a sacola
na ilusão kryptonita
de que o volume carregado em plástico
fosse suficiente a qualquer mortal ataque.

agora, próximo ao fim do velho mundo,
perto do reinício dos antigos costumes do velho mundo
e aproximado do fim do mundo destes homens
caducos,
o que essencial falta aos monstros
que desfilam em avenidas?
são menos que bestas os que
agora trepam e pulam e gritam e vociferam e perversam e exibem e bebem e trombam e gozam e bulinam e pervertinam e se libertam e se penetram e se divertem e
transitam e zombam e ritualizam e se comem e cantam e vomitam e
se exorcizam e se consomem e consomem e dançam e
se transam e se tentam e se beijam e
se carnavalizam.

agora, são [abismos de melancolia,
                 tristes pântanos]
com a morte,
                  a vida é sombria]

e o mundo se divide como tudo que era antigo 
no velho mundo dos homens caducos:
de um lado,
os que se guardam para um novo,
menos fúnebre,
verdadeira, tardia, mas vindoura [fúria dionisíaca]
do outro, os que negam um novo e um amanhã,
plantando pedras no hoje do outro
e preferem a cisma
elegíaca,
falsa alegria [no delírio da morfina].

do alto da janela
em miríade:
                  um Arlequim / um Pierrô Branco / Damas da Morte / Senhores das moscas /
Colombinas /
e uma corja de outros lunáticos.
E todos me encaram
desenhando a minha morte
E me olham
como quem assiste a um suicida,
na tampa de um edifício,
já não querem que eu me junte ao cortejo, me odeiam
pular também não vou, pois  
não serei eu a assumir
[a paixão dos suicidas que se matam sem explicação]
e eles travam giletes nos lábios,
e elas picam confetes,
e as lâminas afiadas anunciam
quantos corpos serão incinerados
dali:
      até até até
              a-la a-la a-la
                       la-o la-o
                           oo oo, no fogo e sal
dali até futuro sábado de aleluia:

fosse crédulo, não ateu
[eu iria aos mangues
dormir na escureza
das águas defuntas]
e seria um novo Lázaro.

***

DIA 2

[domingo de carnaval]



vejo uma rosa caída um anjo murcho
[uma flor sombria] ainda bêbada, em soluço
asa barroca sem arremesso,
será alegria barata,
nobre tecido, ou [cambraia pouca, precisa]?
na roda de fantasias, cacos de vidro são confetes,
em futuro cadafalso [onde eu mal
me estrangulara]

como é lindo o carnaval dos inocentes
[saúdam os mortos distraídos]
foi o que pensei ao ver
[a agitação feroz e sem finalidade]
e ___________
o bloco passou.

sorriso de Arlequim ferido
ameaça imprecisa estirada contraída
a inocente Colombina beijada
mantém no rosto torcido
a marca do roubo – no canto da boca –
o riso sarcástico da morte
de um beijo forçado,
e ____________

eu assisto tudo da janela,
grito por contra ele, para ela, por ela,
mas inocente nenhum ouve
___________________
[a vida é traição] agora
                               rodo o disco ao contrário
na contramão da história,
                               e tento ouvir mensagens cifradas,
contidas em quando se opta
em forçar o curso de algo
contra natureza
ah, se eu pudesse voltar em câmera lenta
os tantos cortejos fúnebres
sequer existiriam
no falso estagnado novo tempo
de um novo dia de um novo tempo
que começou,
                          mas não:
                [os cavalinhos correndo,
e nós, cavalões, comendo]
– todos juntos vamos, pra frente...
corpos sacudidos
em convulsão
ferro em diafragma
                [o Brasil politicando,
nossa!
a poesia morrendo...]

***

DIA 3

[antes da apoteótica terça-feira gorda]



[Eu quis um dia, como Schumann, compor
Um Carnaval todo subjetivo]
Bandeira embaralhado colado
em colchetes negritos
poemas menores em tributo
ao único e isolado poeta que ignorou [alegorias ingênuas]
negou marchinhas, algazarras, sambas, tecno-bregas, guitarradas,
fugiu de fanfarras, não seguiu trios,
não tocou tripas, alaridos, pessoas ou baterias
[A alegria estava em nós.
 Era dentro de nós que estava a alegria
  – A profunda, a silenciosa alegria]




[na segunda ___________ ]


ainda circula na contramão [escuridão propícia aos furtos]
uma legião de demônios em [veste de retalhos]
fantasiada de restos de animais extintos,
e essa sobra – de membros e vísceras – penetra
nas ruas das capitanias,
em rajadas de risos sardônicos, frios.

uma gargalha basta:
                                    desaparece um,
desde sábado          
                                    uma geração
                                    [sem glória, sem vintém]
sem moral, sem decoro
deformada alegria acorda os enfermos zomba das feridas
Quem são esses homens – vieram a mando do Besta-Fera –
em inesgotável riso – distribuindo a morte em tubos e pinos?




Ainda há uma [multidão inumerável]
montada em desajuste perpétuo
[Era sorriso de compaixão?
 Era sorriso de zombaria?]                
                 um, metade homem
                 metade cavalo de oito patas –
                 humano em veste antílope 
                 – relincha suas verdades quinhentistas,
                 e carnal insinua o membro brocha,

outra, metade mulher metade cadela –
veste apocalipse
– e ladra tentações pela boca
no cio de mil dentes, com seu hálito arbitrário
azedo cruel verde-amarelo.

o que deveria serpentina: cobra-veneno
é língua-peçonhenta é mata-desejo
no mundo da carne [ricto amargo]
Bandeira [canta penúria]

a moça que era rosa
se tornou [flor sombria]
é ferida doce, ferida
e desfila troncha –
junto aos sujos e intrusos –
falsos tabaqueiros em avenida
[cicatriz dolorida] vazia.

de longe, nós, os guardados sentimos a fedentina
– pois o que antes foi sedução,
água de cheiro não mais combate,
o que fica é enxofre dos corpos dos machos,
corpos tão branquinhos –
ah, que fortes e lindos são os santos assassinos –
que de tão inocentes dão cabo
ao plano fúnebre: e desovam corpos e afogam corpos e
sufocam corpos e roubam corpos
e incineram corpos
lá pras bandas de Afogados,
esses homens inocentes que tudo tocam
: cinzas, de uma era predatória,
nosso indigesto paraíso póstumo,
revoada de urubus. 

***

DIA 4

[terça feira gorda]



talvez aqui seja fundamental
você ouvir Debussy.
Vai do gosto, do tempo

repeat

trago aqui revelação:
                                 experimente você mesmo, fazer em casa,
                                 de preferência sozinho
                                 longe das crianças, dos insanos, de atormentados
rode o disco de Schumann ao contrário,
ah! O carnaval [de Schumann é um poema cheio de amor, de frescura, e de mocidade...]
a valsa nobre, uma fanfarra inicial, o alegre burburinho do Carnaval Op.9
se girado na contramão, passa a ser o da [amargura]
     O carnaval de Bandeira e [– o meu carnaval sem alegria!...
[Eu quis um dia] despeitar da folia
não serei cobaia torpe linha da palma da mão
     rodando ao inverso, eu ouço a mais triste suíte de Debussy
ainda   
               [há vida]
mesmo [sem ser,
                               carnaval].


repeat


[a última viagem] aumente o som
homens brancos aparecem, riso detrás da peste
homens vestidos de monstros com chifres, rabos de bestas, três patas
[faunos aparecem] como bicho-feras em bandos, manadas, riso detrás do riso
riso detrás da morte
homens sujos que vivem sujos de passado sujo, e arruínam o presente

[Broncos,
                 Estupram virgens]

e negam o novo tempo, futuro [o ritmo tardo de meu sangue]
e eu vejo assisto tento gritar não consigo [um calafrio de histeria...]
caricaturas grotescas –
monstros em precário cortejo – riem por detrás de suas máscaras
e criam ruídos – riem por detrás de suas faces

repeat


[Broncos]
                  Perversos
                  Violadores
[Estupram virgens]
e riem por detrás de suas peles
e acreditam e criam algazarra –
Será a morte engraçada?


Eles, predadores [pedindo o esguicho de cloretilo:
– Na boca! Na boca!]
e matam
os seus desejos de carnificina
[feito vermes no chão]
esses homens brancos
vestidos de cinzas
no papel de bufão do rei da milícia
vestidos com cores de uma velha e ensanguentada bandeira
cínicos e violentos
[ensanguentam
os dedos]
na proteção de um tirano
na manutenção de uma crença genocida
[felizmente existe o álcool na vida]
e eu também me entrego à bebida
como suportar tamanha hipocrisia dos santos inocentes?


Amanhã, terão eles tomado do próprio veneno? Mas ainda fazem uso de gás hilariante...
Amanhã, também estará o diabo moribundo?
nosso mundo [arde em febre] estúpida, perversa, maldosa, mordaz
enquanto os indignados
petrificados, sob o efeito das Medusas
somente sentem correr a [dor daquilo que não se pode dizer]

Esses homens, gerados no oco do mundo,
Filhos sem ventre, no esperma do Minotauro,
Filhos sem mãe, sem peito,
Filhos de outro homem
metade touro, metade toureiro,
homem falso bicho monstro solto,
uma metade, falsos chifres; outra falso ferimento
tudo é falso neste mito – menos o gosto pela carnificina
tudo é falso neste Minotauro, exceto
a bestialidade do homem
vestido híbrido bicho
nada de touro, tudo nele é homem,
tudo nele é um interminável bestiário do homem.

repeat


[faunos aparecem] em bandos, manadas, riso detrás do riso
riso detrás da morte
homens sujos que vivem sujos de passado sujo, e arruínam o presente
[Broncos,
                 Estupram virgens]
Enquanto choramos ouvindo Clair de Lune,
repetidas vezes, será que é aí que mora o diabo:
entre Schumman e Debussy?

Repeat.

***

DIA 5

[cinzas]



pierrôs lunáticos amontoados
amontoados de corpos em cetins
cetins baratos já não brilham
[ao oceano sem fundo da loucura]
junto aos astros
que refletem a grande noite sem futuro
no [monótono das águas]
Quantos inocentes amontoados
serão jogados no mar?
Cem anos atrás, Manuel,
já davam a carne podre dos homens 
às famigeradas sereias?
Eu, que nunca pensei em ouvir o silêncio de harpias,
assisto ao cortejo
ao lado de uma mulher desmontada de ave,
de pássaro, de gente, de bicho,
assisto ao cortejo com uma deusa de olhos borrados,
tudo é gasto e cheira cachaça e
[o enterro passa,
_____________  feito sonho
________________________ delírio manso, desgraça]


o carnaval acabou
[ o grande Pã é morto!]
renego o som dos sinos / até amanhã / coloco os fones / ouço triste a suíte /
um apocalipse em mil / mitologias / corpos defuntos em mil / mitologias do firmamento / para quantos outros tocarão o áspero do metal?
coloco-me na beira do rio
                                          distante
                                                      de poucos e
                                                                        de distantes 
                                                                                           solitários outros

já os guardados, assim como eu
                                                         [saúdam os mortos, distraídos]

aonde vão –
os barqueiros, os corpos: ao mar, aos montes –
enterrados, renegados, tragados: boiarão?
corpos bicados pedaço a pedaço roubados em vingança de bicho de bico-virado,
Sem coveiros, uns famintos zombeteiros, riem nas honras:                                                                                                     comissão de frente                                                                                         porta estandarte,                                                                                           Bandeira,
sorriso estampando na quarta de cinzas triunfaram na vida
no miserável ganha pão da morte,
como são toneladas de carne,
saraivada de corpos,
a conta multiplica:
De hoje até futuro, quantos ocos tombarão?

Já de costas ao fúnebre corso:
desvio da prece, saco dos bolsos meu adeus
E mancho meu rosto com branco,
como se fosse o início de um carnaval
e desenho a lápis preto o contorno
é uma lágrima, eu a pinto de azul,
pincel e brilho, cola e glitter
enquanto vejo no espelho de maquiagem –
como em retrovisor –
o desaparecimento das embarcações dos corpos –
violadores e violentados –
e o falecimento do meu país
[na grave solidão do Atlântico]

ANTONIO MARTINELLI
é jornalista, poeta e gestor cultural. Autor dos livros de poesia Trilogia da peste (N-1 Edições), [gaia] (Editora Quelônio), com lançamento em julho.

JULIA GOELDI é gravurista, mestre em Poéticas Visuais pela USP, na área de gravura e da técnica água tinta. Atualmente, estuda e trabalha na sua área, em Zurique, Suíça.

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