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Inacreditável

TEXTO Karina Buhr

12 de Maio de 2020

Ilustração Karina Buhr

Essa que vos fala tem um tempo lento já em tempos normais, uma hora dessa está só ela e a preguiça do zoológico de Dois Irmãos, o peixe-boi da praça do Derby. Paro aqui pra homenagear minha amiga Denize, que, além de máscaras muito bonitas com seus retalhos preciosos e seguindo as regras da OMS, também faz bolo de macaxeira com coco e eu sinceramente acho desnecessário humilhar dessa forma os outros, mas fica a homenagem mesmo assim. 

Raspei hoje o tacho da última nota da ideia e da conta, perdi as contas de quantas e desisti, ao mesmo tempo, de tudo. “Por que tão dramática?” me perguntaria um professor antigo de alemão, essa língua demônia.

Falando em demônio, até umas duas da tarde de hoje a palavra “inacreditável” será dita por milhares de pessoas ao mesmo tempo, todo dia é assim. São tantos “inacreditável!” por dia, todos os dias, que não dá nem pra entender como não acabou ainda essa lista de coisas pro brasileiro desacreditar. 

Eu nem sabia que existia tanta ação, texto, palavra existentes pra não se crer nas coisas dessa forma assim tão assídua. 

Mas a sorte da nossa existência ainda é justamente não parar com essa palavra, por favor, sigamos incrédulos com os acontecimentos ou acabou-se o mundo pra gente mesmo.

Não deixe o inacreditável morrer, não deixe o inacreditável acabar!

Bom dia. Tem uma tela de proteção aqui em casa, ela é bem velha, ainda bem que não é pra criança, acho que era pra gato e aí acabaram deixando pra sensação de segurança. Mas na verdade a função dela só é quadricular o sol e a lua. Antigamente, lá por dezembro de 2019, eu diria “que lua, São Paulo?”, mas com esse problema da verminose internacional não é que a lua aparece aqui? 

E o sol eu juro que no fim da tarde está dando uma certa sensação de praia. O tempo é o seco de sempre, então acho que é mais saudade da praia mesmo do que sensação. Mas poxa, eu juro, de novo, que a impressão que dá é que depois do muro com a tela velha tem um mar ali. Eu só não vou agora pra praia da frente pra provar pra vocês porque não quero, tenho preferido ficar em casa nos últimos dois meses, sabe, não sei por quê. A ilusão é um prato que se come morno.

As plantas estão lindas no pseudoquintal do apartamento, que tem evitado receber roupas lavadas, apesar do sol que bate, em nome da diversidade da flora. 

Claro que bate o faniquito de vez em quando de pendurar as roupas no sol, porque, pelo amor de deus, é o lugar correto da roupa lavada. Nesses dias com mais sol elas ficam lá, contentes e estendidas e saem cheias de verdinho da guiné, aquela planta formosa que o poeta canta.

As mirras andam com poucas folhas e essas poucas meio sem seiva, será que vem daí a palavra “mirrada”? Não quero pesquisar no google, vou perguntar pra minha mãe.

No pseudoquintal, chão de cimento (por que, São Paulo, por quê??) tem um ralo de box de banheiro, que faz todo ano, naquela época das chuvas que os prefeitos conhecem todo ano pela primeira vez, a cozinha virar mar, o mar virar cozinha.

Perguntei pra São Paulo o porquê do chão acimentado, em licença poética aos quintais sufocados, necessitando urgentemente de respiradores, que são a norma nessa cidade grande, a maior da América Latina, aquela que vai ser toda feminista. 

Como assim não existe a palavra acimentado? Está dizendo aqui que o certo é “cimentado”. Poxa, português, você às vezes me quebra!

De um jeito ou de outro, a palavra quintal serve pra um lugar sem cimento, quintal, o nome já diz, é pra res-pi-rar. Respirar é um verbo com o qual nunca tive muita afinidade nessa cidade que, de tão grande, só aparece o governador dela no canal de televisão dito nacional. O tal jornal até é nacional, mas a nação costuma ser o Sudeste do país continental. 

Ando reclamando demais, mas também reclamo deitada e sentada e também ando cada vez menos, ora pois.

Em compensação, estou bebendo água no copo da Pitombeira dos Quatro Cantos. 

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*As opiniões expressas pelos autores não representam
necessariamente a opinião da revista Continente.

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