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Entrevista

“Questionamos os discursos regionalistas que nos aprisionam"

Atriz do grupo potiguar Carmin, Quitéria Kelly fala sobre tudo que compõe e o que transcende "A invenção do Nordeste", peça com apresentação única no domingo, 23, no Teatro de Santa Isabel

TEXTO RAFAEL TEIXEIRA

17 de Setembro de 2018

"Antes de ler o livro, eu não tinha o menor conhecimento dessa versão da história do Nordeste, ou seja, da minha própria história", situa a atriz

Foto Pedro Fasanaro/Divulgação

Em que medida um ator nordestino seria naturalmente apto para interpretar um personagem também nordestino? A partir desta pergunta – ou provocação – abre-se uma miríade de instigantes reflexões em A invenção do Nordeste, mais recente espetáculo do Grupo Carmin, de Natal. Atualmente em turnê pelo Brasil, a peça tem um mote tão simples quanto inusitado: dois atores oriundos do Nordeste do país (interpretados por Robson Medeiros e Mateus Cardoso) disputam o papel de um sujeito também nascido na região, trabalho este para o qual eles estão sendo preparados por um diretor (vivido por Henrique Fontes, também autor da dramaturgia ao lado de Pablo Capistrano). Ao longo do espetáculo, levantam-se questões pouco investigadas, tantos e tão arraigados são os estereótipos e preconceitos introjetados na plateia. Afinal, em uma região de mais de 1,5 milhão de km², que inclui nove estados onde vivem mais de 56 milhões de pessoas, pode existir uma identidade nordestina única?

Há, de fato, algum elemento – o sotaque, a constituição física, um modo de produzir cultura – verdadeiramente unificador do Nordeste? De onde vem essa ideia de Nordeste que tantos de nós (nordestinos incluídos) carregamos? E, mais importante, como esse conceito atravessa historicamente e ainda hoje se percebe nas relações entre os brasileiros? Ao longo dos dois anos de pesquisa do Grupo Carmin para desenvolver o espetáculo, estas e outras questões povoaram a mente da paraibana Quitéria Kelly, atriz da companhia, aqui trocando pela primeira vez o palco pela direção.

Nos fundamentos da dramaturgia está o livro A invenção do Nordeste e outras artes, de Durval Muniz de Albuquerque Jr., no qual ele destrincha a construção desse imaginário nordestino. "Antes de ler o livro, eu não tinha o menor conhecimento dessa versão da história do Nordeste, ou seja, da minha própria história. Esse processo foi bem doloroso porque suas verdades são postas no chão. Sua percepção crítica é alterada e você passa a questionar sua própria história", diz a artista. O espetáculo chega ao Recife no próximo dia 23, para única apresentação, no Teatro Santo Isabel. Nesta entrevista à Continente, ela conta como nasceu o espetáculo e reflete sobre temas que ele suscita: identidade, cultura, orgulho, preconceito e xenofobia, entre outros.

CONTINENTE Começando pela pergunta mais difícil: o que é o Nordeste?
QUITÉRIA KELLY Hoje, mais do que nunca, tenho a compreensão de que o Nordeste é uma invenção da elite política, agrária e intelectual da região numa reação de proteção contra toda a modernidade que começava a dominar o país na década de 1920. Essa mesma elite ajudou a criar essa ideia de que o Nordeste é um lugar do passado, de que ao Nordeste está associada a saudade. Desenhou-se um imaginário conservador e reacionário para essa região, numa reação aos avanços que já tomavam conta do Sudeste. O medo dos avanços fez com que essa elite criasse uma forma de se proteger daquela possível perda de poder. Até hoje nos vangloriamos de que a cultura brasileira de raiz está no Nordeste, que ainda mantemos nossas tradições. Isso é lindo, mas também é assustador porque, se você pensar bem, o que os tradicionalistas defendiam naquela época era exatamente o que os grupos radicais religiosos e políticos defendem hoje. E a gente não percebe que o discurso é o mesmo.

CONTINENTE A semente de A invenção do Nordeste, o espetáculo, foi plantada durante as eleições presidenciais de 2014. Você pode contar como isso se deu?
QUITÉRIA KELLY Durante a turnê que fizemos com Jacy, outro espetáculo do nosso grupo, escutávamos muitos supostos elogios do tipo: "Nem parece peça nordestina" ou "Não imaginava uma peça assim de um grupo do Nordeste". As pessoas realmente achavam que estavam elogiando, sem perceber que nos diminuíam, como se não fosse possível esperar de um grupo vindo do Nordeste aquela estética. Aliado a isso, durante a turnê, Dilma Rousseff foi reeleita e testemunhamos uma enxurrada de preconceitos nas redes sociais. Creditava-se ao Nordeste a definição dos votos que daria a vitória a ela, quando, na verdade, o estado que definiu a eleição foi Minas Gerais. Também diziam nas redes que nós só votávamos no PT por causa do Bolsa Família, quando sabemos que o estado que mais recebe demanda desse programa é São Paulo. Nada daquilo fazia sentido nas nossas cabeças. Percebemos que o ódio pelos nordestinos vinha de longa data, e que só poderia ser explicado pela História. Foi quando encontrei o livro de Durval e percebi que era urgente falar disso.

CONTINENTE De que maneira o livro, que é resultado de uma tese de doutorado, foi transposto para uma linguagem cênica?
QUITÉRIA KELLY O livro é um desenho minucioso dos interesses políticos, econômicos e culturais que essa ideia de Nordeste esconde. Durante dois anos, nós estudamos o livro de Durval. Separamos as questões mais urgentes para nós e pedimos o auxílio do próprio autor para nos aprofundarmos nelas. Assim, definimos qual material da pesquisa de Durval nos daria mais recursos cênicos. Trabalhamos com a síntese da síntese. Um jogo interessante era o de resumir um capítulo inteiro em uma cena, ou em uma única imagem. Pablo [Capistrano] e Henrique [Fontes, dramaturgos do Grupo Carmin] transformavam trechos do livro em situações banais dentro da nossa trama.

CONTINENTE Em que medida as ideias do livro transformaram a sua própria noção de Nordeste?
QUITÉRIA KELLY Antes de ler o livro, eu não tinha o menor conhecimento dessa versão da história do Nordeste, ou seja, da minha própria história. No entanto, eu desconfiava que os preconceitos e estereótipos sobre o povo nordestino vinham de algum lugar cabuloso. Com o passar do tempo e o avanço das leituras, as peças do quebra-cabeça foram se encaixando, e eu pude finalmente compreender a raiz dos preconceitos que sofríamos por sermos nordestinos. Estava lá. Tudo tão óbvio, porém encoberto pela nuvem de fumaça da desinformação. Percebemos que era preciso reprogramar nossas cabeças. Esse processo foi bem doloroso porque suas verdades são postas ao chão. Sua percepção crítica é alterada e você passa a questionar sua própria história.
 Quitéria Kelly e os atores em ensaio da peça A invenção do Nordeste. Foto: Daniel Torres

CONTINENTE
Falando em sua própria história, a dramaturgia do espetáculo é descrita como uma "autoficção", porque incorpora referências biográficas reais dos próprios atores. Como vocês chegaram a essa escolha?
QUITÉRIA KELLY Dentro da pesquisa que fazíamos a partir do livro de Durval, a desconstrução desse Nordeste foi sendo feita em nós também. Afinal, fomos criados dentro da cultura regionalista e, embora não a tenhamos vivido intensamente, esse Nordeste sempre esteve presente. Eu provocava os atores pedindo que me dessem referências regionalistas em sua formação, e foi um choque constatar que apenas Robson [Medeiros], o único sertanejo do grupo, tinha essas referências. Todos os outros eram nordestinos urbanos, criados no litoral, alguns nunca haviam sequer visitado o sertão. Então, achamos que falar das experiências dos próprios atores seria um bom contraste para se trabalhar em cena. Não havia melhor experiência a ser utilizada como potência dramatúrgica do que nós mesmos.

CONTINENTE A peça mostra como essa suposta identidade nordestina tornou-se praticamente um imperativo nas artes, como se ao público devesse ser mostrado sempre um Nordeste familiar, estereotipado, reconhecível. Como o Grupo Carmin lida com essa questão?
QUITÉRIA KELLY Quando o Carmin surgiu, em 2007, nosso maior desejo era falar do nosso tempo, do nosso entorno. E para onde olhávamos não conseguíamos enxergar esse Nordeste estereotipado. Vivíamos outro Nordeste. Embora fôssemos da terra de Câmara Cascudo, não bebíamos da mesma fonte. É impossível negar a presença dele em nossa formação, mas isso não deveria me aprisionar em nenhum estilo ou estética artística. Essa é a minha base e a partir dela posso ir para qualquer lugar. Queremos fazer teatro universal. Queremos questionar os discursos regionalistas que nos aprisionam nessa forma, que reduz a complexidade de um povo a um estereótipo, a um imaginário cristalizado. O que se espera de nós, artistas nordestinos, é a chamada "estética da fome" ou que tenhamos sempre que trazer histórias de superação. É muito cansativo ter que carregar isso nas costas, assim como é muito gostoso superar expectativas. Nossas antenas estão voltadas para o agora. Não sabemos tocar sanfonas, não gostamos de flores de plástico, estamos enjoados dos tons ocres e da luz âmbar, queremos tratar de outros temas que não sejam apenas: sobrevivência, superação, fome, sofrimento, regionalismo, cactos, jumento e sede.

CONTINENTE De que forma a questão do preconceito contra o nordestino, levantada no espetáculo, atravessa a sua própria história e a trajetória do Grupo Carmin?
QUITÉRIA KELLY A palavra xenofobia é nova para muitos brasileiros, principalmente com as recentes agressões ao povo venezuelano que tenta entrar no Brasil, mas para nós, nordestinos, é uma velha conhecida. Todo nordestino já sofreu de alguma forma com preconceitos, seja na discriminação mais direta, seja até em um elogio. Nós, artistas nordestinos, sofremos pela descrença do que somos capazes de fazer. Quando vamos a algum festival e somos divulgados como "teatro nordestino", nós rimos, porque é muito difícil definir o que seria um teatro nordestino. A região é composta por nove estados completamente distintos, que trazem em sua cultura universos completamente diferentes, então como podemos dizer que existe um teatro nordestino?

CONTINENTE Como esse preconceito se relaciona mais especificamente à figura do nordestino, sua constituição física e seu modo de falar e se expressar?
QUITÉRIA KELLY Definiu-se que o corpo do povo dessa região é raquítico, feio, cabeçudo, de pele seca e amarelada, com as mulheres de pernas finas. Enfim, um pouco a visão etnocêntrica descrita para o Euclides da Cunha em Os Sertões. Essa visão no nordestino se reproduziu por séculos e carregamos ela até hoje. Mateus [Cardoso, ator do Grupo Carmin] já perdeu trabalhos na TV porque consideravam ele bonito demais pra fazer um personagem nordestino. Não há como definir a geografia de um corpo neste país, simplesmente porque não há a chamada raça pura, como pensavam alguns intelectuais "sudestinos". Dizer que temos sotaque engraçado é outro preconceito que as pessoas muitas vezes não percebem. Às vezes, quando vamos fazer testes para filmes, publicidades ou novelas, os diretores de casting pedem que neutralizemos nosso sotaque, ou, quando convém, que o acentuemos ainda mais para ficar bem caricato.

CONTINENTE O espetáculo, de certa forma, vai na contramão do endeusamento de certas figuras míticas do Nordeste. Como foi para o grupo mexer nesse vespeiro?
QUITÉRIA KELLY Padre Cícero, Antônio Conselheiro, Lampião e tantos outros personagens desse Nordeste inventado são figuras que fizeram e fazem parte do imaginário do povo nordestino. Queríamos entender o por que, ainda hoje, essas figuras são intocáveis em nossa cultura. Colocá-los em cena duvidando da veracidade de seus atos é afirmar que podemos questionar o inquestionável, é provocar a curiosidade sobre a História, é desconstruir o que está estabelecido, as verdades que nos aprisionam. Dizer na peça que Padre Cícero forjou um milagre é uma provocação perigosa, mas descobrimos em nossas pesquisas que ele colocou anilina vermelha em uma hóstia e deu para uma beata morder. O falso milagre chegou aos ouvidos do Vaticano, que descobriu a farsa e proibiu o padre de rezar missas ou fazer qualquer ação religiosa. Em seu livro, Durval diz algo que é muito provocador para nós: "A história não é um ritual de apaziguamento, mas de devoração, de despedaçamento. Ela não é bálsamo, mas fogueira que reduz a cinzas nossas verdades estabelecidas."

CONTINENTE Falando em figuras míticas, a peça aborda com muita contundência certos personagens da política nordestina. Você diria que existe um modo de fazer política predominante na região ou isso é outra falácia?
QUITÉRIA KELLY Eu acredito que existe um modo de fazer política no Brasil, que é o mesmo em todas as regiões. Algumas regiões já conseguiram superar as oligarquias, mas, para a maioria dos estados brasileiros, o revezamento de poder entre familiares continua vivo e forte. Não pense que esse é um privilégio do Nordeste, não. Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, entre outros, seguem o mesmo modelo. Existe algo muito curioso no eleitor brasileiro: ele gosta de prestar obediência ao "coronel". Há um prazer da subordinação incondicional, ele gosta de votar em quem manda, quem tem grana, que tem autoridade. Nós, brasileiros, gostamos do poder, de ter poder e de quem tem poder. Essa equação é perfeita para a bomba que nos tornamos. Pablo Capistrano sempre nos lembrava da famosa frase de Paulo Freire: "Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor." Por isso, acredito que não existe nada de diferente entre a politica feita no Nordeste e em outras regiões do país. No Nordeste se troca votos por caixa d’água, no Rio de Janeiro por cirurgia de catarata.

Quitéria Kelly em cena no espetáculo Jacy. Foto: Sol Coelho

CONTINENTE
De que forma os próprios nordestinos contribuem para a manutenção dos estereótipos identitários atribuídos ao Nordeste?
QUITÉRIA KELLY Existe ainda hoje, por parte dos nordestinos, a cultura da repetição dormente da sua própria história. Acredito que essa dormência não é só nordestina, mas nacional, e que só há pouco tempo atentamos para ela. Repetimos, mesmo sem entender o porquê, a expressão "orgulho de ser nordestino". Não sabemos muito bem o que isso significa, mas é uma autoafirmação compensatória, ou seja, "podemos até ser tudo isso que falam, mas, ainda assim, sentimos orgulho". O discurso de uma identidade nordestina é compreendido pelos habitantes da região como uma forma de poder deste povo, é o que nos diferencia do restante do país. E esse discurso é reforçado pela TV, jornais, artistas e pelos próprios nordestinos. Existem extremos que chegam a ser cômicos, como por exemplo os grupos separatistas nordestinos que encontramos durante a pesquisa da peça, elaborando argumentos seríssimos sobre a importância de se separar do resto do país. Há alguns anos, havia uma lei que proibia a execução de música baiana ou funk carioca no carnaval de Olinda, o que é uma aberração do ponto de vista da liberdade de expressão. Mas tudo isso é em nome da cultura nordestina. Perigoso, não?

CONTINENTE Essa reflexão sobre a identidade nordestina remete a uma discussão cada vez mais frequente, que é a do lugar de fala – a ideia de que o discurso sobre determinada realidade ganha peso na medida em que é proferido por quem vive de fato essa realidade, em detrimento de quem apenas a conhece indiretamente. Para além do universo contemplado pela peça, como você analisa essa questão?
QUITÉRIA KELLY Em nosso espetáculo, colocamos a questão: "Pode um ator nordestino representar um personagem nordestino?" Essa é uma provocação dirigida às limitações impostas pelo mercado televisivo e cinematográfico brasileiro. Por que atores nordestinos só podem fazer papéis de nordestinos? E atores sudestinos podem fazer papéis de personagens de todas as regiões do país? Não dá para dizer o que pode e o que não pode dentro da arte. Desta forma, estaremos limitando também a potência crítica, libertadora e reflexiva provocada por obras artísticas. É preciso tirar essas amarras. Acho que censurar nunca é a forma correta de agir. Tem que deixar fazer, para depois podermos discutir em cima, mas censurar é um perigo. Claro que um ator sudestino pode fazer um nordestino, mas é preciso entender que o contrário também pode. É por isso que lutamos, para que toda e qualquer contribuição artística seja defendida. Da mesma forma, negros, mulheres, LGBTs, nordestinos e nortistas podem e devem ocupar esses lugares. Precisamos estar nas telas dos cinemas, das novelas, dos teatros, dos museus, dos palcos em geral, o que não impede que outros artistas também o façam. A ideia não é proibir ninguém, mas sim derrubar as fronteiras que nos impedem de ocupar esses lugares. Nós, artistas, temos que entender que o inimigo está em outro lugar.


RAFAEL TEIXEIRA é jornalista. 

 

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