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Entrevista

"É preciso igualdade de tratamento com os artistas"

Rabequeiro, compositor, cantor, brincante e herdeiro do legado de Mestre Salustiano, Maciel Salú lança seu quinto álbum, 'Liberdade', que o atesta como um dos mais completos artistas de Pernambuco

TEXTO Débora Nascimento

11 de Maio de 2018

Maciel Salú está em seu quinto álbum solo, com forte carga política

Maciel Salú está em seu quinto álbum solo, com forte carga política

Fotos Fred Jordão/Divulgação

Cheguei à porta da residência na Várzea (Recife) e bati palmas para chamar os moradores. De fora, dava para ouvir uma voz conhecida cantarolando no interior da casa. Era Maciel Salú. Na cozinha, ele preparava o café da manhã para ele e sua esposa, a produtora Rute Pajeú. Desjejum de artista, começou às dez da manhã. “Se eu tô cozinhando, se eu estou lavando prato, pegando um garrafão de água mineral, começo a tocar na panela, canto as minhas músicas e as de outros artistas que eu gosto”, disse. Convidou-me para sentar à mesa com o casal, ofereceu um suco, logo pegando limões para preparar uma limonada, gesto que lembra a metáfora “Se a vida te der limões, faça uma limonada”, algo natural à família Salustiano.

A história de Maciel Salú mistura-se com a de seu pai. Figura fundamental da cultura popular pernambucana no século XX, Mestre Salustiano nasceu em Aliança, na Zona da Mata Norte, onde trabalhou como cortador de cana e cambiteiro – empregado que transporta, em lombos de animais, cana, capim, lenha... Naquela cidade, começou as brincadeiras que o transformaram numa verdadeira lenda. Ao sair do interior pra morar em Olinda, nos anos 1960, vendeu picolé, trabalhou em casa de família e na construção civil.

Mas Salú tinha um sonho, que ele pôs em prática com paixão e intuição, usando noções de empreendedorismo e trabalho colaborativo, antes mesmo desses conceitos se tornarem moda entre produtores. “Ele pegava um carro mais arrumado novinho e trocava em três. Pegava aqueles três pintava, ajeitava, vendia dois e ficava com um. Ele saía, dizia: 'Vou ali', fazia troca, chegava em casa com bicicleta. E sempre investindo em cultura. Ele é um cara muito desenrolado”, contou Maciel, confundindo o verbo no passado e no presente, porque seu pai, mesmo falecido há quase dez anos, em 31 de agosto de 2008, é uma presença constante e grandiosa a circundar sua vida e a cultura popular pernambucana.

Mesmo de origem humilde, Mestre Salú fomentava a cultura pernambucana com dinheiro do próprio bolso, com o pouco que conseguia. “Meu pai, quando foi fazer o primeiro encontro de maracatus, vendeu um caminhão. Fundou a associação com 12 maracatus, que hoje já são 114. Fez os encontros de cavalo-marinho, encontros de rabequeiros. Ele chegou aqui e montou o cavalo-marinho, o Boi Matuto de Olinda, o maracatu rural Piaba de Ouro, o mamulengo Alegre de Olinda, a Ciranda Nordestina e o Sonho da Rabeca. Ele trouxe muita gente do interior para cá. Ele não só queria as coisas para ele. O que ele tinha ele dividia.”

Onde hoje é a Casa da Rabeca, na Cidade Tabajara, em Olinda, era um sítio no qual a família plantava inhame, macaxeira, cajá, caju, manga... Embaixo da mangueira, o jovem Maciel Salú ficava sentado praticando a rabeca. Ele observava seu pai e também seu avô, João Salustiano, tocando o instrumento. “Meu avô tinha um negócio, toda vez que almoçava, dava o cochilo dele e, quando acordava, pegava a rabequinha e tocava no quartinho dele. Quando minha avó faleceu, ele não se casou com mais ninguém, se relacionou com outras mulheres, mas se casar mesmo não. Ele morou com minha tia, que é irmã do meu pai, Mãe Zefa, que foi quem me criou também. Eu conheci minha mãe com 24 anos. Ela descansou, saiu da maternidade e já me entregou a meu pai. Aos 24 anos, fui atrás dela e conheci ela. Fui procurar. Sentia falta da minha mãe, queria saber quem era ela”.

Aos 16 anos, Maciel pegou a rabeca do avô escondido e começou a praticar, chegando a desafiar o patriarca. Após ver o neto executar um baiãozinho, João Salustiano desafinou todo o instrumento e pediu que ele tocasse novamente. O jovem viu que o som não saía direito. “Sabe por quê?”, perguntou João. “Porque está desafinado”. Como faz um verdadeiro professor de instrumento musical, explicou que, primeiro, o garoto teria que aprender a afinar.

Começou a relação de Maciel com a rabeca, que é uma prima rústica do violino e que traduz de forma quase poética a alma do interior de Pernambuco. “A rabeca é minha base para compor, minha parceira, eu sou casado com a rabeca. Todo dia estou com ela tocando. Agora tem música que às vezes eu vejo que não vai encaixar. Aí arranjo para outros instrumentos, pra baixo, pra guitarra, bateria”.

Foi na rabeca que o artista fez sua primeira música, Eu correndo atrás de tu, forró gravado no primeiro disco do Chão e Chinelo, o fantástico Loa do boi da meia-noite (1999). “Depois eu tive oportunidade de compor mais músicas pra montar o repertório do Chão e Chinelo e compor a minha primeira música com letra, que foi Machadeiro”. A banda existia desde 1995, mas foi em 1997, com a chegada de Maciel Salú, que o grupo completou-se de forma definitiva e integrava, junto a bandas como o Mestre Ambrósio, Cascabulho e Comadre Fulozinha, praticamente uma cena paralela ao mangue beat, que naquele ano fatídico encerrava suas atividades com a morte precoce de Chico Science.

Mestre Salú, homenageado pelo mangueboy na música Salustiano song, faixa do clássico Da lama ao caos (1994), não via com bons olhos o desgarramento de seu filho da família Salustiano para tocar com rapazes que vinham de uma outra formação: “'O que é que esses meninos querem? Todo mundo de faculdade, de família de gente mais organizada, o que querem com Maciel? Estão querendo aproveitar a cultura de Maciel...'”, questionava o Mestre, desconfiado. “Mas foi o contrário, os meninos foram muito parceiros. Muito pé no chão, sempre me respeitaram muito. Chegou ao ponto de Damiana (Crivellare, produtora), que hoje é casada com Guilherme (Medeiros), meu compadre, parceiro, conselheiro, que corrigia o meu português, ela chegou a conversar com Salu. 'Os meninos não querem se aproveitar de Maciel. Ele tem que circular, ele tem um talento muito grande, tem que correr atrás de outras coisas'”.

Maciel foi sendo preparado por Salú desde muito pequeno, três, quatro anos. Aos poucos, o pai formava e transformava o filho num dos mais completos artistas da música pernambucana. Desde tenra idade, o garoto teve contato com alguns dos maiores mestres da cultura popular, como Baracho, Zé dos Passos, Luiz Paixão, Mané Pitunga. Foi aprendendo também a participar de diversas expressões culturais, como maracatu rural, coco, cavalo-marinho. Aprendeu a dançar, tocar percussão, cantar, bordar o manto do caboclo de lança. Ainda adolescente, Maciel animou muitos forrós tocando zabumba no conjunto do tio, cuja voz se assemelhava a de Lindú, do Trio Nordestino.

Começava a participação de Maciel como músico essencial em várias bandas. Em 2000, entrou no supergrupo Orquestra Santa Massa, com DJ Dolores, Fábio Trummer, Isaar França, Jam da Silva. E depois na Orquestra Contemporânea de Olinda. Em 2003, lançou o primeiro disco de sua vitoriosa carreira solo, A pisada é assim.

Enquanto isso, Mestre Salú tocava o seu trabalho e lutava para manter-se vivo, pois enfrentava os problemas cardíacos do mal de Chagas, a doença do barbeiro, que geralmente acomete pessoas que moram no interior em casas humildes. Com o apoio da atriz e pesquisadora Lêda Alves, Salú teve um bom atendimento médico. Ela, viúva do teatrólogo Hermilo Borba Filho e hoje secretária municipal de Cultura, foi uma das pessoas que ajudaram Salú na sua trajetória, assim como o ex-prefeito de Olinda Germano Coelho. Mas gradativamente seu coração ia perdendo a força. “Ele escolheu para eu passar a última noite com ele. Eu sonhei com ele morrendo nos meus braços. Nesse dia de manhã, ele partiu”. O mestre tinha apenas 62 anos.

“Salú ainda tinha muita coisa para fazer. Ele sempre teve aquela vontade de viver. Pensava uma coisa, aí entrava político, prefeito, governador, que às vezes apoiavam a cultura. Mas ele nunca foi de jogar a toalha. Meu pai não escrevia, não assinava o nome, mas ele rascunhava. Pegava um rascunho. Eu e minha irmã era quem entendia um pouco a letra dele. Meu pai estudou pouquíssimo. Mas nunca considero ele como um analfabeto, era um doutor na cultura”, emociona-se Maciel.

Quase dez anos após a partida de Salú, sua herança permanece viva nos filhos, dentre eles, Maciel Salú, que lança o quinto disco solo, Liberdade, trabalho que ele realizou e divulga com o apoio do Funcultura. Em 11 faixas, o compositor passeia por maracatu, cumbia, merengue, pop e frevo. Com arranjos que buscam a inovação e um encarte sofisticado que traz as letras e textos do artista sobre problemas sociais, esse é o seu trabalho mais político. “Ele fala de tudo o que está acontecendo no Brasil, da violência, da perda da liberdade, que as pessoas perderam a liberdade de estar na frente de casa brincando”.

A faixa Maracatu sem lei relembra o episódio lamentável que envolveu a cultura popular em 2014: as restrições de horários das sambadas de maracatu, que tradicionalmente acontecem até o amanhecer. O disco traz duas participações especiais, Lirinha em Realidade, sobre líderes negros que lutaram pela igualdade social, e Juçara Marçal em Mãe do mar, uma das músicas que aborda a religiosidade do artista (a outra é Jurema). Ele também regrava o hit Machadeiro, gravada pelo Chão e Chinelo. Nesse álbum, Maciel presta homenagens à sua esposa, na música Flor de gardênia, e em Luiza, à caçula dos quatro netos (!). Sim, netos! Ele teve a primeira das três filhas (Poliana, Poliene Annaterra), aos 19 anos.

Nessa época, “pegava no pesado”, como disse, trabalhava na construção civil. “Desde jovem, sempre gostei muito de trabalhar para ter a minha independência. Desde os 12, 13, 14 anos, trabalhava no pesado mesmo”. E algumas vezes faltava ao expediente por conta das apresentações com o pai. “Não tinha uma justificativa. Não tinha atestado médico, não tinha nada. Então, de vez em quando, meu nome estava lá no prontuário. 'Apareça no escritório na sala tal'. Eu chegava todo tímido: 'Diga, Seu Roberval'. – 'É que eu vi que seu nome estava no prontuário, você faltou, mas não tem a justificativa'. Aí, na terceira vez, ele disse: 'Por que você não pede para sair? Porque a empresa não pode ser prejudicada. Mas você quer trabalhar?' – Quero, se o senhor deixar, mesmo faltando. Se o senhor deixar, eu quero'”, relata.

Com menos de 20 anos, Maciel era pai de família. “Ganhava salário-mínimo, mas ele estava ali. Todo mês eu tinha um sustento para minhas filhas. Eu não pedia pra sair porque eu perderia meus direitos. Mas, uma vez, ele não aguentou. – 'Faz o seguinte, pegue sua carteira, vá para o escritório da empresa, pra dar baixa na sua carteira'. Daí por diante, não entrei mais em empresa. Fui vivendo das coisas que eu fazia dentro das brincadeiras. Passei a ser dono das brincadeiras de maracatu. Dei aula de rabeca. Não me arrependo. Acho que foi a melhor coisa que eu fiz na minha vida. O trabalho é importante, mas o trabalho é a minha profissão. Música é o que eu faço, o que eu gosto de fazer”.

CONTINENTE Vindo para a sua casa, vi como está gritante o abandono da UFPE, o muro prestes a cair, o mato tomando conta...
MACIEL SALÚ E não existe um movimento dentro da UFPE, nem de diretores nem de professores que valorize mais essa questão da cultura do seu estado, seja do maracatu, caboclinhos, ciranda, frevo. Inclusive dentro da universidade tem um estúdio de gravação. Esse espaço pode servir de gravação pra bandas para cultura popular, para os mestres, pra registrar várias coisas. Tem o teatro, mas está fechado. Uma vez, fui lá e estava o teatro todo sujo, quebrado. Um patrimônio público que poderia servir para várias coisas. Eu mesmo já toquei lá. Nos anos 1990 pra cá, tinha esse movimento, quando começou a surgir o Mestre Ambrósio, o Chão e Chinelo. Tinha o boizinho também. A gente fazia várias calouradas. Toquei muitas vezes ali. Tinha o Bar do Bigode, o Bar da Tripa. Tudo isso era um movimento que existia antigamente. Então, as pessoas vão perdendo as suas referências culturais. Antes tinha também o Domingo no Campus, que era muito massa aquele projeto. Mas tem que ter incentivo financeiro, porque não se faz tudo de graça. Às vezes, a turma diz, 'vamo fazer um movimento cultural', mas pra trazer um mestre tem que pagar alguma coisa, tem que dar um cachê digno para ele também. Isso também para uma orquestra de frevo, banda, bloco, cavalo-marinho, maracatu rural. Poderia vir uma verba destinada do Ministério da Cultura para as faculdades fazerem mais movimentos culturais. E não só evento. Trazer os mestres para dentro da faculdade, levar os alunos pra conhecerem os terreiros, seja de maracatu rural, cavalo-marinho, candomblé, jurema, de coco, pra essas pessoas terem uma noção do que está acontecendo aqui. A cultura indígena é muito importante. São essas coisas que a gente precisa valorizar mais, porque fazem parte da cultura brasileira. Porque, daqui a pouco, vira lenda folclórica.

CONTINENTE Você já percebe a diferença daquela época, do começo dos anos 1990 pra hoje?
MACIEL SALÚ Quando dou algumas palestras em eventos culturais, sempre falo que é preciso levar a cultura para as escolas, para a base, não ter acesso somente quando chegar na faculdade. Talvez não teria tanta violência, drogas, que está uma epidemia no país. Às vezes saem umas pesquisas dizendo que a violência diminuiu, mas quem tá na periferia, na favela, sofre mais, gente que é agredida, que é assaltada, as mulheres que são agredidas. A gente vê as mulheres nas paradas de ônibus com medo. Quando descem do ônibus, saem correndo pra casa, com medo de serem assaltadas, violentadas. Então talvez isso poderia mudar um pouco. Até porque dentro da cultura você poderia abordar vários assuntos, desde a teoria, da prática dos instrumentos, da história, pode falar sobre violência, drogas, política, preconceito, racismo, violência contra a mulher, vários assuntos. Se você chegar numa escola pública, escola pública é muito boa, escola pública não é ruim. Só que às vezes a escola não tem estrutura, às vezes são abandonadas. Não tem cadeira, o teto pingando. Então, a gestão pública precisa dar uma estrutura para os professores. E se você chegar hoje numa escola e perguntar talvez o aluno ainda saiba quem é Luiz Gonzaga. Mas poucos têm conhecimento da cultura do seu estado. Se perguntar quem é Capiba, Maestro Formiga, Nelson Ferreira, Mestre Salustiano, Mestre Afonso, Mestre Zé dos Passos, Antônio Baracho, que trouxe a ciranda pra capital nos anos 1960, as pessoas não sabem. A própria gestão pública, os municípios poderiam fomentar mais. O presidente queria acabar com o Ministério da Cultura, queria deixar só Ministério da Educação e Turismo. Mas voltou atrás, viu que tiveram alguns movimentos. Nós temos um país tão rico de cultura e você acabar com o Ministério da Cultura?!

CONTINENTE Quando você era criança, o contato que tinha com a arte vinha diretamente de casa ou você tem a lembrança de ter contato com a arte na escola?
MACIEL SALÚ Vem de família. Vem do meu saudoso meu pai, que era mestre de maracatu, de cavalo-marinho, rabequeiro, de meu avô, João Salu, que é falecido também, de outro tio, Tio Antônio. De escola, eu me lembro que teve um evento falando sobre o Dia do Índio. Porque hoje quando você vai nas escolas, botam um cocar na cabeça das crianças. Precisava levar para a aldeia para ver a cultura indígena, trazer para as escolas, para que as crianças tenham conhecimento da importância da cultura indígena. Eu me lembro que peguei um chapéu, uma roupa de maracatu, e fui andando de casa até a escola. E nas escolas antigamente, antes de começar a aula, a gente fazia uma oração e às vezes cantava o hino nacional, que é música também. E às vezes se falava da cultura. Hoje tocam nas rádios outras músicas, que difamam as mulheres, que não têm boa letra, que não têm qualidade. A pessoa tem que ter a liberdade de escutar e de gostar do que quiser. Eu não posso obrigar a pessoa a gostar da minha música. Mas como é que a pessoa vai gostar, se a pessoa não tem a oportunidade de conhecer, não escuta na rádio, não passa na televisão? Hoje a internet é importante pra gente, mas não é todo mundo que vai acessar a nossa música. Vai acessar o que está escutando na rádio, o que tá passando na televisão, uma trilha de novela, o que está no dia a dia.

CONTINENTE E até mesmo na internet, se alguém colocar no YouTube “Wesley Safadão”, depois do vídeo, só vão aparecer opções parecidas, só artistas correlatos. Não vai aparecer Maciel Salú.
MACIEL SALÚ Eu me lembro que eu fui fazer show na UFPE este ano. Sempre nos meus shows, meu público é diversificado, jovens, crianças, idosos e de todas as classes. Fico feliz com isso. Fiz o lançamento do disco no Teatro Santa Isabel. Depois dos show, eu ainda passei uma hora autografando discos. Estava toda a minha discografia pra vender. Liberdade, a coletânea com os três e o quarto disco. E vários jovens interessados. Veio um grupo de jovens, uns seis a sete, de 15 a 17 anos, tirar foto comigo, compraram o disco, falando da minha música. Quando tenho oportunidade de dar palestra, falo não só da minha música, mas do cavalo-marinho, do maracatu, da importância da rabeca na minha vida. Incentivo do Funcultura, ou da Lei Rouanet, é bom. Qualquer lei que venha ajudar é bom. Só que a cultura popular está muito distante, disputa editais com artistas que têm nome, que se trata com tanta diferença. Imagine competir com Daniela Mercury. Alguns editais são assim. A gente luta pra inscrever projetos em editais, mas a gente concorre com vários artistas que já estão com nome consagrado, que já estão com música tocando em rádio. É luta pra gente conseguir, mas a gente tem conseguido. Muitas vezes a gente investe grana do próprio bolso. Não ficamos só esperando.

CONTINENTE Como foi esse despertar pra música convivendo com seu pai?
MACIEL SALÚ Desde pequeno, eu brincava. Tinha essa paixão pela cultura. Meu pai é pai de 15 filhos. Mas de mulheres diferentes. Quando ele se separava, a guarda dos filhos ficava com ele. Meu pai era do interior e veio para cá. Da cidade de Aliança, meu avô, minha família toda. Eu já nasci em Olinda. Mas vivi muito pelo interior, morei com minha avó nos engenhos. E meu pai já trouxe toda essa bagagem, essa cultura toda quando veio para cá no final dos anos 1960. Ele chegou aqui e montou o cavalo-marinho, o Boi Matuto de Olinda, o maracatu rural Piaba de Ouro, o mamulengo Alegre de Olinda, a Ciranda Nordestina e o Sonho da Rabeca. E eu fui brincando de galante, todos os meus irmãos. Eu era o quarto filho dele. Os três primeiros moraram com a mãe. Quando vieram pra ele já foi com 18 anos, 19 anos. E tinha os outros pequenininhos. E eu era o maior, que fazia tudo, era o 'cobaia', pra mostrar a dança, pra tocar. E eu sempre levei muito a sério essa coisa do aprendizado com ele e com meu avô e com os outros mestres, que conheci através dele, que foi Baracho, que já partiu, Zé dos Passos, Batista... Conheci vários que já partiram. Conheci vários folgazões dessas brincadeiras todas. Era muita gente. Então, ali tinha momento que às vezes estava a rabeca tocando, um pandeiro, tocava samba, tocava cavalo-marinho, forró. Era uma coisa muito diversificada.

CONTINENTE Como foi o começo com o Chão e Chinelo?
MACIEL SALÚ O Chão e Chinelo foi muito importante pra mim. Foi minha primeira oportunidade de mostrar meu trabalho. Na época meu pai ficava meio assim porque fazia parte de tudo das brincadeiras, era o filho mais velho, o cara que estava levando muito a sério, aprendendo tudo, eu tocava, cantava, bordava, fazia de tudo, estava aprendendo tudo ali com ele. E meu pai sempre foi de querer os filhos todos por perto. E tinha eu que estava querendo desgarrar. Nessa época a gente começou a ter alguns problemas. Ele ficou com ciúme também. E as vezes ele não entendia. Mas foi a melhor coisa que eu fiz, porque fui em busca de outras coisas, de outros conhecimentos pra trazer pra minha família também. E às vezes ele não entendia. Mas eu entendia o lado dele, os filhos ficavam com ele. Então, aí tem eu que estava aprendendo muita coisa, era como se ele estivesse me preparando também. E meus irmãos todos pequenos. Mas tudo também dançando, brincando. Hoje é tudo envolvido, graças a Deus. Todos somos talentosos. Manoelzinho, Betânia, Imaculada, Mariana, Cristiano, Dinda. Cada um aprendeu um pouquinho com Salu. Foi quando eu comecei a conhecer vários músicos. Siba, que ia muito lá em casa, brincou o maracatu com a gente. Nilton Júnior, Mestre Nico, toda essa galera da cena.

CONTINENTE Essa transmissão de conhecimento está ameaçada com essa nova geração?
MACIEL SALÚ Tem uma parte que está ligada, outra não. Por conta dessa lavagem de tudo o que a gente vê dessas músicas que tocam nas rádios. É o que o jovem tá escutando desde criança. Hoje eu pego meus netos escutando algumas, chamo e digo, “Essa música não é legal”. Então, você vai educando também. Mas todos já estão envolvidos, brincando cavalo-marinho, maracatu, já bordando. Foi a vivência também. Mas tem muito jovem que não tem acesso. E isso não é só aqui. No interior da Zona da Mata, Agreste, Sertão, a gente vê a cultura popular se arrastando. Tem muitas coisas que avançaram. Hoje tem o Funcultura, lei, edital. Mas muitos mestres não sabem escrever projetos. Às vezes caem nas mãos de alguns produtores enrolões e às vezes falta a visão. Hoje não são todos, uma boa parte, 90% dos secretários de cultura não tem conhecimento de sua cultura. Se cada município, cada estado tivesse um investimento na sua cultura, e o Ministério da Cultura começasse a investir mais... Teve uma fase muito boa na época de Lula, Gilberto Gil, Juca Ferreira, foi um momento muito bom. De lá pra cá, a gente vê que está se arrastando. Então a gente tem que acordar. Você vai para o Agreste, para a Capital, estão acontecendo coisas. Vai para o Sertão, tem vários movimentos culturais, mesmo se arrastando. A gente precisa ter igualdade de tratamento com os artistas. Porque se trata um artista porque tem nome, tem fama, um cachê absurdo? E os mestres da cultura popular, que são a fonte, que são o ouro, que estão aqui, por que se trata com tanta diferença?

CONTINENTE Os cachês são baixíssimos.
MACIEL SALÚ São baixíssimos. Meu show não é cultura popular, meu show tem de tudo, música pop, afrobeat, vários elementos da cultura popular, rabeca, alfaia, bombinho, caracaxá, que veio dos caboclinhos, estou fazendo shows nos festivais. E ao mesmo tempo não estou perdendo a minha identidade, ao contrário. Ela é minha fonte, é tudo pra mim, a minha inspiração pra compor, pra ser o que eu sou hoje. A gente começou a trazer esses elementos da cultura popular, que é riquíssima, para dentro dos trabalhos. Chico fez isso, Mestre Ambrósio, Chão e Chinelo, trouxemos vários mestres pra se apresentar conosco, embolador de coco, maracatu subir no palco, para mostrar a cultura deles ali. Quase ninguém fazia isso. Hoje já existem vários festivais, editais, mesmo com toda a dificuldade, mas na gestão pública, a cultura popular está em último plano. Por isso, quando vem a crise, a primeira que sente é a cultura popular. Claro que muita coisa da cultura popular não depende só da gestão pública. Ela já é muito forte. Ela já é perpetuada pelos próprios mestres que vão passando para os filhos, os amigos, os netos. Então a gente tem essa preocupação ali. Se vai para a Zona da Mata e tem um projeto social lá em Tracunhaém, o maracatu Águia Formosa. E dentro desse projeto tem várias ações e uma delas sambada de maracatu, com dois maracatus, encontro de mestres. A gente está sempre trazendo as mestras também. Porque se valoriza muito os mestres, mas as mestras precisam ser valorizadas também. A gente tem teoria musical que não tinha em Tracunhaém. Uma escola de música. A gente começou com um maestro. A gente está levando os mestres de maracatu pra ensinar os jovens. A gente vê vários jovens dando show de poesia, cantando. Tem vários jovens na zona da mata se destacando com talento imenso, tocando ciranda, maracatu, cavalo-marinho, tocando rabeca. A gente dá palestras também nas escolas públicas. Mas a gente sente dificuldade. E quando tem diretor de escola evangélico com preconceito contra a cultura indígena, a cultura do candomblé, da jurema, dizem que é do Satanás. Em 2014, as sambadas de maracatu estavam sendo perseguidas, proibidas de fazer a sambada das 21h às 5h por conta de uma lei de grandes eventos. Não é que essa lei foi feita pra acabar com a sambada de maracatu, mas estava insinuando que o maracatu estava gerando violência. Na realidade, nada disso. A cultura popular faz o papel que os políticos não fazem. Até chegar ao ponto da gente reunir vários mestres, a promotoria se reuniu com a gente, levamos para o governo. Não resolveu. O tempo foi passando. A polícia chegava. Como é que vai botar um povo, mestre, família, jovens de todas as idades para voltarem de madrugada para casa? Cinco, seis da manhã é mais tranquilo. E se voltar de meia-noite, uma hora da manhã é mais perigoso. A gente se organizou. Liana Cirne foi muito importante, porque a gente não tinha condição de pagar advogado. Siba chamou ela. Tivemos reunião com promotor de Nazaré da Mata. E nada foi resolvido. Ela levou para o Ministério Público essa denúncia. Levamos eu, Siba, Barachinha, João Paulo, Dona Juanita e vários maracatuzeiros. A gente ganhou. Saiu no Diário Oficial que não podia proibir o maracatu rural. Em momento algum a gente viu uma secretaria de cultura envolvida dizer: “Isso é a cultura da gente. Pernambuco é terra do frevo e do maracatu”.

CONTINENTE Siba registrou esse episódio no disco De baile solto e você também.
MACIEL SALÚ Por isso o disco se chama Liberdade, que eu passei, meu pai, a cultura popular, os ataques aos terreiros de candomblé, às sambadas de maracatu, o fato também de ser negro. Então tá aí um belíssimo disco, sou suspeito pra falar disso, que não deixa a desejar estar em prateleira de loja nenhuma, de livraria nenhuma, de tocar. Foi mixado e gravado no Fábrica Estúdio com a direção de Hugo Lins. O arranjo todo nosso, eu e os músicos. E um disco no formato de um livro. Masterizado nos Estados Unidos. Um disco de boa qualidade, graças a Deus. Tem música Realidade, que fala em Mandela, Bob Marley, que eu falo “vamos cruzar as fronteiras, ver a realidade”. Quando viajo para outros países, fico muito ligado na cultura, no que está acontecendo, já tive oportunidade de ir para África, Senegal, é outra realidade. Com todo o avanço que teve, o povo ainda vive numa situação precária, não tem ônibus novo. Quando a gente estava no hotel, do portão pra dentro era uma coisa, do portão pra fora era outra realidade.

CONTINENTE O que vc acha desses fenômenos musicais surgidos na era da internet?
MACIEL SALÚ Tem ainda essa questão do jabá. O Brasil precisa acordar. A gente tem muitos artistas bons, muitos desconhecidos. O que fez a diferença, mesmo antes da internet, foram as bandas viajarem. Na época todo mundo queria uma gravadora. Mas quando ia ver os contratos eram absurdos, os caras queriam ser donos das obras do fonograma, depois tinha que pedir autorização. Hoje toda minha música é feita com nossa empresa. Tenho essa liberdade. Eu tenho dez músicas novas nesse disco. Tive o mesmo amor da primeira à última faixa. Porque hoje tem muita gente que faz, coloca várias músicas no disco, mas investe numa só. Em cada esquina você vê ela tocando. Ainda prefiro assim devagarzinho. Eu sei que tem público. Claro que a gente quer que as pessoas conheçam. O que a gente vê na TV vai fazendo uma lavagem cerebral na sociedade. Às vezes é uma música que difama a mulher. O Brasil não é isso. É muito mais que isso. A gente sente essa dificuldade, mas a gente está rodando o mundo.

CONTINENTE Essa apresentação na Olimpíada no Brasil teve um impacto positivo?
MACIEL SALÚ Ali você está mostrando a música e a cultura da gente pra várias pessoas de vários países, num Maracanã lotado. E também essa questão de várias emissoras transmitindo, o retorno das pessoas foi muito bom, é massa ter esse reconhecimento. Eu estava levando a minha rabeca com a Santa Massa, a poesia do maracatu rural. Foi uma experiência de estar num evento de grande porte.

CONTINENTE O ruim é que esse evento aconteceu num período político muito difícil no Brasil.
MACIEL SALÚ Esse disco fala também dessas coisas do golpe, da violência, dos ataques, das guerras na Síria.

CONTINENTE Nesse último Carnaval, o Piaba de Ouro subiu ao palco do Marco Zero, passou 10 minutos e desceu, porque tinham outros maracatus para se apresentar, foi muito corrido...
MACIEL SALÚ É preciso uma organização da galera da cultura popular. Porque às vezes a gente critica a política e, se não tiver cuidado, vai fazer a mesma coisa deles também. Os carnavalescos pernambucanos precisam se organizar. Passa o ano todinho o frevo só toca na Rádio Universitária, no programa de Hugo Martins, que divulga muito bem o gênero. A gente precisa ter mais movimento o ano todo. Pernambuco é a terra do frevo e do maracatu. E quando é que acontece mais movimento? No Carnaval. E, mesmo assim, no Carnaval tiraram todos os desfiles. Estão dando mais foco ao Carnaval do Marco Zero, mas o Carnaval de Recife, de Pernambuco não é isso. Vindo do Pátio de São Pedro, no final do show da Santa Massa, anos atrás, a gente via todo mundo se preparando para desfilar na passarela. Hoje estão deixando só nos bairros. E a mídia está dando mais atenção ao Marco Zero. Cadê tudo aquilo que construiu, que deu nome ao Carnaval do Recife? A gente até tenta dialogar com a gestão pública, “Vocês precisam valorizar, dar mais estrutura, um som adequado, da mesma forma que botam nos palcos principais, camarim, a cultura popular precisa desse tratamento também”. O povo quando vem para o Recife, vem para ver o frevo, o maracatu. Outros vão para Nazaré da Mata, Bezerros, Casa da Rabeca.

CONTINENTE Esse carnaval multicultural terminou se desvirtuando. Esse formato parece que já se esgotou. Parece que as pessoas já estão cansadas disso.
MACIEL SALÚ Mas tem uma parte que não. O fato de alguém não gostar, é o fato de não se colocar no palco ou para tocar. Esse ano estava se discutindo pra os desfiles acontecerem antes na pré-carnavalesca. Alguns carnavalescos reclamaram. O argumento da prefeitura era que a mídia daria mais atenção. Como é que a gente vai quebrar a tradição? O desfile do maracatu nação já passou para a quinta-feira. Naná Vasconcelos sempre lutou para fazer a abertura do Carnaval. Esse ano já mudou. O povo das secretarias de cultura deveria ter mais visão. Por outro lado, falta mobilização, organização dos carnavalescos, porque desde a época da Federação Carnavalesca tem muita coisa troncha. Pra todo mundo brigar pelo direito de todos, os maracatus rurais e nação precisam se unir. A gente está defendendo melhoria para todos. A cultura popular não tem quem defenda. Na Bahia, se alguém disser, “eu não quero essa coisa da axé music”, eu duvido que os artistas queiram. No Rio, se disserem “As escolas de samba vão ficar em terceiro plano”, a casa cai. Eles vão fazer movimento e eles ganham. Se os carnavalescos precisam se unir. Mas é difícil, neguinho na sua frente diz “Vamos mesmo”, mas na hora de dar as caras, fica com medo.

CONTINENTE E essas festas particulares?
MACIEL SALÚ Mas isso tem política envolvida. Não é só empresário. Eles querem ocupar esse espaço. A cultura popular tem uma visibilidade, mas não é valorizada como deveria ser, aí eles ocupam esse espaço. Eles não estão nem aí para a cultura popular.

CONTINENTE Como é o planejamento da sua carreira?
MACIEL SALÚ Todo dia a gente sonha. Um dos meus sonhos é que a gente possa ver a nossa música sendo respeitada, valorizada, de uma forma digna aos mestres da nossa cultura. Eu tenho vários projetos guardados no baú. Pra isso precisa ter investimento, qualquer coisa pra conseguir, se gasta. Se hoje eu quiser fazer uma sambada de maracatu, se eu ligar para um mestre, já estou gastando. Se eu quiser ir ao interior, vou ter que botar gasolina no carro, então estou gastando. Se quiser fazer uma reunião com o pessoal, tem o lanche, o almoço. Se marcar uma sambada de maracatu, um ensaio, o mestre gasta muito. Numa sambada com dois maracatus, o mestre gasta mais de R$ 3 mil. A maioria desses mestres são pessoas assalariadas que trabalham no roçado, na palha da cana, são empregadas domésticas, pedreiros. Se for um maracatu só, na camaradagem se gasta R$ 1 mil, R$ 1,5 mil. São coisas que as pessoas dizem 'vamos tocar', mas nem tudo se faz de graça. A gestão pública precisa acordar. Um político ganha o salário dele, tem auxílio-paletó, auxílio-transporte, ele tem funcionários pagos. E às vezes a gente paga o salário do cara pra ver toda essa corrupção no Brasil. A sociedade precisa acordar. Não jogar toda a responsabilidade para eles. Se você não tiver um bom investimento na cultura, na educação, saúde, segurança, então fica difícil construir um Brasil bom.

DÉBORA NASCIMENTO é repórter especial da Continente e assina a coluna Mirante, neste site.

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