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Entremez

Milagre a caminho de Juazeiro

TEXTO Ronaldo Correia de Brito

09 de Abril de 2018

Desenho de pau-de-arara feito pelo peruano Percy Lau (1903-1972), que morou no Brasil e registrou sua gente

Desenho de pau-de-arara feito pelo peruano Percy Lau (1903-1972), que morou no Brasil e registrou sua gente

Ilustração Percy Lau/Reprodução

O romeiro percebe minha aflição. Seguro a viga de madeira que sustém a lona da carroceria e mesmo assim não controlo as oscilações do corpo, para frente e para trás. Não sei quantos viajam no caminhão pau-de-arara. Quarenta e nove? Talvez. Lembro que precisavam caber sete em cada tábua atravessada na carroceria, fossem gordos ou magros. Daí o número ímpar arbitrário: sete vezes sete. Também parecia sem fundamento lógico o número doze ou sete das vezes que se cantava cada bendito, para não quebrar a corrente de força, provocando desordem e perigos ao mundo.

– É sete porque tem que ser e ninguém pergunta a razão disso. Deus descansou no sétimo dia. A semana tem sete dias. Podia ter oito.

Uma romeira me explica.

– E o doze?
– Representa a Igreja triunfante, as doze portas de Jerusalém, os doze apóstolos, os doze juízes, os doze meses.
– Ah!, exclamo abismado.

Troco o peso do corpo de lado. Faço isso quando o formigamento e a dormência ficam insuportáveis. Viajar em pé na carroceria de um caminhão pau-de-arara não é moleza. Eu precisava dessa certeza.

Assis Lima, meu companheiro de viagem, acomodou-se numa tábua de pessoas magras. Partimos bem cedo, alargamos o descanso de finados, feriamos o curso de medicina querendo ver de perto a segunda maior romaria do Brasil, a do Padre Cícero, em Juazeiro do Norte. Somos do Cariri, uma região no sul do Ceará, mais parecida com a Zona da Mata de Pernambuco pela abundância de água e floresta atlântica. Só percebemos o abismo entre a cidade do Crato, onde crescemos e moramos, e o Juazeiro, quando saímos para estudar no Recife. Agora, desejamos reaver o tempo perdido em rivalidades e preconceitos incutidos pela Igreja, a sociedade local canavieira e os professores nas escolas.

– O que nos move é a fé, o mistério e o sagrado, que brota como fonte d’água na terra de Juazeiro, afirma a romeira em tom declamatório.

Com gravadores à tiracolo, máquinas fotográficas, cadernetas e lápis, parecemos motivados por outras razões estranhas ao milagre que os romeiros buscam.

Que milagre Assis e eu esperamos?

– No mundo todo brilha a luz de Juazeiro, é só ter olhos pra enxergar, garante a devota.

Nas proximidades do Curado, o primeiro bigu: uma caminhoneta que nos larga no posto da polícia rodoviária, em Moreno. Um policial para o caminhão que nos leva em meio ao carrego de frutas e verduras até Bezerros. Outros tempos, outras leis de trânsito. Ou a falta delas. De sobe e desce, troca e troca, os dedos esticados com sucesso e em vão, chegamos a Custódia, onde subimos no pau-de-arara, aceitando viajar em pé. O carrego de gente está completo, não sobra lugar nem para os pensamentos. Os maus pensamentos.

– Uma viagem
Que eu fiz ao Juazeiro
Pra visitar
Meu Padrim Ciço Romão
Ele estava sentado na cadeira
O cajado na mão
Abençoando os seus romeiros.

Esse bendito era cantado doze ou sete vezes? Não sou capaz de lembrar. Mastigam as bolachas cantando, bebem a água cantando, param de cantar apenas ao descerem do caminhão, quando as necessidades apertam.

Durante a chuva que caiu, todos se baixaram, mas do assoalho do carro subiam suas vozes sussurradas, a ordem do mundo precisava se resguardar no sortilégio do canto.

De pé, recebendo os pingos no rosto, olho aquele povo de onde saí e me sinto um guardador de rebanhos, não o de Fernando Pessoa, embora concorde com ele – Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo... / Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer / Porque eu sou do tamanho do que vejo / E não do tamanho da minha altura... Mais próximo estou ao Conselheiro ou a Zé Lourenço.

A chuva passa depressa, os romeiros voltam aos seus cantinhos nas tábuas, espremidos e úmidos. As vozes se alteiam.

O romeiro percebe minha aflição e cansaço.

A roupa marrom da promessa o torna velho, mas não passa dos trinta anos, é hígido, musculoso, bonito na sua concentração.

– Quer sentar no meu colo?, pergunta com singeleza.

O meu colega Gilberto Hidd, sempre que pretendia desafiar a turma da Casa do Estudante Universitário, sentava nas minhas pernas e punha o braço em torno dos meus ombros. Gesto de rebeldia, de afirmação de um novo modelo de relação entre homens, ao gosto do movimento hippie e da contracultura. Ouvíamos a gritaria às nossas costas, alguns atrevidos arremessavam objetos com a intenção de nos ferir. Com o tempo e as repetidas provocações, já nem ligavam, e terminamos deixando-as de lado.

Agora.

Agora estamos na carroceria de um caminhão pau-de-arara, em meio aos romeiros, quase todos agricultores.

O homem sorri e me pergunta pela segunda vez se quero descansar no seu colo.

Eu me sento nas coxas firmes. Dois braços e mãos me enlaçam pela cintura. Não sei se os sacolejos do carro ou um levo balanço de pernas me embala. Sinto-me bem. Recosto a cabeça no ombro oferecido e adormeço em meio aos cantos piedosos.

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