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Curtas

Recife 19

DJ Dolores declara amor conturbado ao Recife em novo álbum

TEXTO Victor Augusto Tenório

04 de Dezembro de 2019

DJ Dolores

DJ Dolores

Foto Fred Jordão / Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 228 | dezembro de 2019]

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A declaração
de um amor conturbado e nem sempre romântico com a cidade é o que se escuta no mais novo álbum de DJ Dolores, batizado, como uma assinatura, de Recife • 19. As canções, com as vozes de Jards Macalé, Catarina de Jah, Ylana Queiroga, Erica Natuza, entre outras, trazem lembranças doces e amargas nas suas letras dançantes, assim como críticas sobre as estruturas físicas e sociopolíticas da capital pernambucana. Trata-se de um produto pós-gênero, que parte das reflexões do passado e do presente, como nas canções A casta e Adilla’s Place, partindo para um afrofuturismo, em Exú ciborgue.

Helder Aragão, nome de batismo do músico sergipano, conversou conosco sobre música, política e sociedade numa manhã de sexta-feira, horas antes de dirigir-se ao Pátio de São Pedro para apresentar audição do disco Ciranda sem Fim, de Lia de Itamaracá, do qual é produtor musical. Sentado de costas para a parede, usando óculos escuros, Helder demonstra empatia e atenção. No jeito calmo e na voz tênue, sugere alegria, que dá ritmo até a canções que falam sobre temas intragáveis, como a desigualdade.

“Eu espero ativar alguma coisa na cabeça de alguém. Acho que o papel do artista é lançar essas provocações e entender que não somos donos da verdade. Tem uma coisa que eu acho interessante nessa questão geracional, pois todo mundo ouve muita música hoje em dia. O Spotify é aquela projeção que se fazia na década de 1990, de que a música do futuro seria consumida como água, ligando a torneira e deixando rolar. Então todo mundo ouve muita música, tem muita opinião e muitos querem ser DJs. Mas é um envolvimento diferente da minha geração”, compara Dolores.

O sergipano recorda que, quando chegou ao Recife em 1985, em menos de um mês já havia conhecido nomes como Fred Zero Quatro, Chico Science e Hilton Lacerda, logo estando no “olho do furacão” que agitaria a cena cultural recifense na década de 1990. O músico conta que, como as pessoas costumavam andar pelas ruas com discos embaixo do braço, provavelmente alguém iria ser abordado e falar sobre o álbum. “Alguém ia falar contigo e do nada você estava numa espécie de confraria musical. Era assim que as amizades eram feitas. É legal e importante esse papel aglutinador da música da época em que você tinha que ter o disco ou uma fita k7. Lembro que colocava a fita ainda quente dentro do bolso, com as músicas que tinha acabado de gravar. A gente se apegava muito mais, sabíamos cada detalhe de quem produziu cada faixa.”

Questionado se a lógica de apego se estendia para a cidade, Helder é incisivo: “Sim, claro. Eu amo Recife pra caralho. Cheguei aqui muito novo, superliso e fui acolhido por uma gente maravilhosa. Andava pela cidade e via coisas que não via em Aracaju. Me lembro de ir pra porta da Misty – não frequentava porque não tinha dinheiro pra entrar – e tinha aquela galera incrível. O público LGBTQ+ ia superproduzido, eu achava incrível e pensava: ‘estou no lugar certo’”.


Capa do álbum Recife • 19

Sua relação de proximidade com o Recife é cantada em todo o álbum, mas ganha ares de afetividade na canção Adilla’s Place. A faixa leva o nome de um bordel que foi bastante conhecido na capital pernambucana, pois, na década de 1960, recebia marinheiros estadunidenses e europeus. Dolores afirma que, quando sua turma começou a frequentá-lo, na década de 1980, o local já estava decadente, mas abrigou as primeiras festas do pessoal que formaria o Manguebeat. O local, infelizmente, sofreu um incêndio: “Pegou fogo e meu coração foi junto com aquela fumaça. Eu adorava aquele lugar. E a canção é para fortalecer essa micro-história. Acho bem importante falar sobre detalhes da cidade, entender que o Recife Antigo nem sempre foi daquele jeito, que as pessoas tentavam viver de forma mais livre, mesmo no período de pós-ditadura”.

A casta, porém, segue um caminho diferente e, sem dúvida, é uma das faixas que mais chamam atenção em Recife • 19. Cantada por Isaar e gravada com a Orquestra Santa Massa em ritmo dançante, a música traz a denúncia de que “a casta é dona da bola, o campo é dado do pai, o avô conquistou esse chão com sangue de índio e de negro na mão”. Dolores conta que a letra foi escrita em uma só tirada, após encontrar dois amigos na época do golpe sofrido por Dilma Rousseff. Ele afirmou aos colegas que se tratava de mais um episódio no qual a elite tomava conta do país, alegando a existência de uma casta que torna qualquer mudança quase impossível.

“Eles discordavam. Daí eles foram dormir e eu fiquei acordado pensando naquilo. Sabe quando você está com tanta raiva e tem muito o que dizer? Eu não queria apenas reclamar sobre a elite brasileira, mas oferecer um contraponto de alegria. Daí a exaltação a ícones da cultura negra. A alegria e a dança são formas de fazer política e trata-se de um conceito que está bem ligado à música de matriz africana nas Américas”, comenta Dolores.

Questionado se tem medo de ser tachado de “esquerda cirandeira”, ele ri e responde: “Tem essa coisa de esquerda cirandeira, né? Sou ácido demais pra ser chamado assim. Aliás, os termos esquerda e direita se esvaziaram profundamente nesses últimos tempos. Viraram termos vagos diante do avanço da extrema direita no país. A balança está pendendo demais para um dos lados”.

VICTOR AUGUSTO TENÓRIO é jornalista em formação pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e estagiário da Continente.

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