Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Curtas

O melhor carinho

Cercada por grandes nomes da música brasileira em sua formação, cantora paulistana Elisa Gudin apresenta o seu primeiro EP, em homenagem ao sambista Elton Medeiros

TEXTO Erika Muniz

24 de Janeiro de 2020

A cantora Elisa Gudin nasceu em São Paulo, mas vive no Rio de Janeiro

A cantora Elisa Gudin nasceu em São Paulo, mas vive no Rio de Janeiro

Foto Vivian Lopes/Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

Como um livro
que só você leu

(O melhor carinho, Eduardo Gudin e Elton Medeiros)

leia ouvindo

A canção que dá título ao disco O melhor carinho (2019), primeiro EP da cantora paulistana Elisa Gudin, nasceu de uma das parcerias entre seu pai – o compositor, violonista e produtor Eduardo Gudin – e o inesquecível Elton Medeiros. As demais faixas são fruto de outros encontros com o sambista carioca – Estrela, Sorri e Sofreguidão. Essas escolhas, e suas interpretações, revelam a ligação da jovem artista com o repertório, além de como suas vivências contornam seu modo de apresentar cada uma das quatro músicas.

Formada em Publicidade pela Casper Líbero, Elisa tem 30 anos. Desde a infância, pôde acompanhar o pai nos estúdios e bastidores de shows de nomes importantes, como Fabiana Cozza, Paulo César Pinheiro – seu padrinho –, Leila Pinheiro, Mônica Salmaso, entre outros. Mas também foi frequentando as manifestações culturais de rua, sobretudo as rodas de samba com a mãe Nádia Nascimento, que intensificou sua ligação com as artes. “De ficar em estúdio, um dos discos que mais me marcou foi a gravação de Tudo o que mais nos uniu, em 1996, uma regravação de O importante é que a nossa emoção sobreviva, com Paulo César Pinheiro & Márcia. Praticamente morei no estúdio. (risos) Tinha uns sete anos, ajudei a escolher a capinha, ficava jogando tarô, tinha que entreter a criança, né?”, relembra com simpatia.

Nascida em São Paulo, ela cresceu entre os bairros da Vila Madalena, de Pinheiros e Pompeia, mas viveu também, em diferentes épocas, no Rio de Janeiro (terra natal de sua mãe), onde atualmente reside. Este ano, Elisa se prepara para divulgar uma campanha de financiamento coletivo para a gravação de seu primeiro álbum, cujos arranjos e direção musical serão assinados pelo paulista João Camareiro.

Selecionar um repertório não é tarefa fácil, sobretudo quando as escolhas dão-se em torno de uma obra como a de Elton Medeiros, um dos maiores compositores brasileiros. Demonstrando total sensibilidade, respeito e envolvimento com as composições do sambista, Elisa conseguiu chegar às suas escolhas para o EP. O mesmo trato se estenderá ao seu primeiro disco, que também será uma homenagem a Elton, a partir de canções importantes para Elisa.

Com lançamento previsto para o segundo semestre de 2020, o álbum ainda não tem data marcada. Mas, dando o tom do que vem por aí, O melhor carinho encontra-se disponível em todas as plataformas digitais, alternativa recente na música brasileira aos que buscam bons sambas, com arranjos sofisticados, sob a condução de uma voz sensível e carregada de emoção.

Nesse EP, talvez a faixa mais conhecida seja Sofreguidão (1966), uma das criações de Medeiros com outro gigante: Cartola. Ouvidos habituados à história do gênero que é uma das caras do Brasil podem conhecer também Sorri (1965), uma parceria com Zé Keti. “Eu não conhecia muito essa música, já tinha escutado com Tereza Cristina, mas eu não cantava. Decidimos fazê-la com bastante sopro. Foi uma coisa muito pensada para o arranjo também e para a minha voz”, conta Elisa, em entrevista à Continente.



VOZ
De timbre delicado, Elisa Gudin deixa escapar sua cautela e seriedade na construção da carreira musical, que, inclusive, vai além do samba. Suas referências abraçam também outros gêneros, como a música instrumental, experimental e a bossa nova, e ainda outras linguagens artísticas, a exemplo do cinema de Glauber Rocha, as pinturas de Tarsila do Amaral, a literatura de Guimarães Rosa… Embora reconhecendo-se como uma cantora de música brasileira, que também realiza apresentações em outros ambientes sonoros, ela reforça: “O samba não tem como sair de mim, porque a minha vivência é dentro dele. Por escolher um compositor de samba para meu primeiro trabalho, fica caracterizado isso. Fui criada principalmente pela música de meu pai, que é considerado um sambista de São Paulo, mas ele tem várias outras linhas na música dele, como composições com Hermeto Pascoal, músicas com orquestra… Cresci ouvindo tudo.”

Estrela é uma das músicas que cresceu cantando com o pai. “E tem muito a ver com o Elton, a letra, que fala um pouco do morro, da cidade. Coisa que ele conseguia transitar. Tinha bastante simplicidade, mas também muita elegância na música dele”, pontua. A escolha de O melhor carinho, por sua vez, não está no repertório por acaso. Trata-se da primeira canção em que seu pai se identificou como letrista.

Em meados dos anos 1980, Elton estava de visita à casa do amigo e parceiro Eduardo Gudin, que o recebera com o violão na mão. Como quem não quer nada, o sambista carioca quis fazer uma canção. “Ele começava a fazer a melodia e eu sempre esperava. Não dava o acorde, para eu não induzir o caminho que ele seguiria. Depois que ele fazia o caminho, eu achava o acorde certo para ele viajar por aquelas modulações dele. A música ficou pronta, fiz a letra, tentando fazer uma que ficasse boa para aquela melodia. Tem uma frase que gosto muito que fala: 'Como um livro / que só você leu'. Mostrei para ele, que gostou e a gente ficou cantando por aí. Ele chegou a gravar num disco. Uma música muito querida, gravada também pela Eliete Negreiros e, agora, pela Elisa”, conta Eduardo à Continente.

Para o próximo trabalho de Elisa Gudin, a formação base será violão (João Camarero), piano (Fernando Leitzke), baixo (João Rafael) e bateria (Marcus Tadeu). Mas haverá outros convidados. As ideias, ela já vem amadurecendo desde 2019, junto a músicos que tem total confiança. “A gente vai ter o regional, como o samba, o choro, mas também o outro lado, que serão arranjos de João e que eu vou pensar. Gosto de muitas outras coisas, espero me dedicar também a trabalhos em outras vertentes. Explorar a música brasileira é o mais bacana, para a gente ir entendendo a voz e onde a gente está”, contou. Por sua intimidade com essas canções, Elisa Gudin parece realmente disposta ao que se propõe.

ERIKA MUNIZ é jornalista e bacharel em Letras.

Publicidade

veja também

Duda (Mangue)Beat

Rec-Beat, 25 anos

Atiça

comentários