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Curtas

MITsp 2018

Mostra internacional de artes cênicas transforma São Paulo em capital do teatro

TEXTO Pedro Vilela

02 de Março de 2018

Adaptação de Krystian Lupa para a novela Árvores abatidas será encenada na MITsp

Adaptação de Krystian Lupa para a novela Árvores abatidas será encenada na MITsp

Foto Natalaia Kabanow/Divulgação

[conteúdo na íntegra (degustação) | ed. 207 | março 2018]

É dada a largada
para o calendário de grandes eventos voltados para as artes cênicas em nosso país. E como tem se repetido nos últimos anos, o primeiro deles carrega também o peso de mais esperado, a MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo.

Se essa tem sido a porta de entrada para o público brasileiro apreciar importantes criadores cênicos mundiais, como Angélica Liddel, Rodrigo Garcia, Dimitris Papaioannou e Joël Pommerat, este ano a MIT parece apostar não só na presença de jovens encenadores que configuram a cena contemporânea, mas principalmente na vinda de “mestres consagrados”, inéditos em nosso país.

O primeiro deles é o suíço Christoph Marthaler com seu mais recente espetáculo, King size, obra que propõe a fusão, nada convencional, em um mesmo espetáculo, de 22 canções que variam entre séculos – de Schumann para The Kinks, via Jackson 5 e folksong alemã.

Considerado por inúmeros críticos como voz única no teatro europeu, o diretor suíço encontra na música o papel central para suas criações, que por vezes assume dimensões cômicas, por outras, uma dose extremada de melancolia. De acordo com Mark Ball, diretor artístico do Festival Internacional de Teatro de Londres (Lift), “o trabalho de Marthaler é afinado com sua personalidade inconfundível, tornando-se uma das vozes mais poderosas, importantes e distintivas no teatro mundial. Ele encontra beleza, dignidade e humor nos lugares mais improváveis – da revolta política ao fracasso pessoal – e seu trabalho também pode obrigar-nos a analisar as consequências brutais de nossos sistemas políticos e econômicos”.

Em 2012, por exemplo, foi ovacionado no Festival de Avignon com sua inesperada montagem da famosa comédia musical da Broadway, My fair lady. Na visão de Marthaler, o cenário foi transposto para uma escola de idiomas dos anos 1960, dirigida por um húngaro, intercalando fragmentos da partitura original com músicas de Mozart e Wagner, além de gerar uma paródia surrealista para a história desse professor de fonética que transforma uma vendedora de flores em lady.

O enredo de King size, espetáculo que será apresentado no Brasil, a princípio é bastante simples. Enquanto um casal tenta dormir em uma sala desconhecida, perdidos na enorme cama, seus sonhos assumem o lugar, consolando-os através da música. Marthaler, então, através de sua reconhecida linguagem, convida-nos a refletir sobre o vazio da vida cotidiana. Como aponta o dramaturgo do espetáculo, Malte Ubenauf: “Todos queremos que nossas vidas sejam ‘king-size’, mas a contradição entre nossas esperanças e a realidade às vezes só é vista durante o sono e os sonhos”.

Outro nome que promete ampliar a concorrências por ingressos é o do polonês Krystian Lupa, que apresentará mais uma de suas adaptações para textos do escritor austríaco Thomas Bernhard. Nesta ocasião, o público presente em São Paulo poderá assistir à sua versão para a novela Árvores abatidas, colocando em cena o reencontro de um grupo de antigos amigos artistas, entre os quais a rebeldia criativa do passado foi posta de lado em nome do dinheiro, conforto e principalmente da profunda comunhão com o aparelho estatal. O enredo desenvolvido por Bernhardt é elemento propulsor para Lupa questionar a classe artística de seu próprio país, que, encurralada pela onda nacionalista e conservadora que chegou ao poder, tem tornado a arte em produtos inorgânicos, recuando cada vez mais diante da ofensiva estatal.

Apontado como o maior diretor europeu de teatro vivo e vindo de um território marcado por nomes como Jerzy Grotowski e Tadeusz Kantor, Lupa alinhou sua trajetória ao refinamento de sua técnica no trabalho de atores e do texto. Considerada como obra-prima do diretor, Árvores abatidas exige disponibilidade do espectador para adentar o universo criado pelo polonês, ao longo de mais de quatro horas de encenação, marcada primordialmente pela dilatação do tempo.

Além da presença desses dois nomes consagrados, alguns outros merecem bastante atenção. O primeiro é o da diretora argentina Lola Arias, que virá ao Brasil com sua mais recente criação: Campo minado. Referência na criação de obras que levam aos palcos não atores, nesta edição, apresentará uma obra com seis ex-combatentes, entre argentinos e ingleses, recorrendo a memórias e documentos sobre a Guerra das Malvinas, para poder expor o absurdo do antagonismo nacional capaz de produzir uma guerra.

Somada à extensa programação que inclui diferentes atividades formativas e reflexivas, haverá ainda a presença de Joris Lacoste, artista em foco dessa edição, com seu Suíte nº 2, espetáculo falado em diversas línguas, pertencente ao projeto intitulado Enciclopédia da palavra (Encyclopédie de la parole), criado em 2007, e a performance A gente se vê por aqui, com direção de Nuno Ramos, onde dois performers reproduzirão na íntegra a programação da Rede Globo durante 24 horas.

Mais uma vez, o Brasil se transformará no centro mundial das artes cênicas. A MITsp parece driblar a crise estética-política-financeira que assola o país e nos apresenta uma programação por demais instigante.

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