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Curtas

Em ‘Lovecraft country’, o monstro é o racismo

Refiro-me à série que estreou na HBO em agosto, com 10 episódios, e terminou de ser exibida em setembro

TEXTO Christiane Gomes

01 de Dezembro de 2020

Os atores Courtney B.Vance, Jonathan Majors e Jurnee Smollett na série

Os atores Courtney B.Vance, Jonathan Majors e Jurnee Smollett na série

Imagem Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 240 | dezembro de 2020]

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O que seria de nós sem a arte em suas mais diversas manifestações e nuances neste covídico ano de 2020? Ela segurou nossas mãos e alimentou tempos e pensamentos em um período de tantas incertezas e medos. Minha verve folhetinesca – aliada a um cotidiano intenso de home office e cuidados de uma bebê que se tornou criança na quarentena da Covid-19 – me faz ter nas séries de TV o momento acolhedor de relaxamento e fuga do mundo. Mas a realidade é implacável e eis que me apaixonei por uma que elevou meus níveis de tensão, ao mesmo tempo em que me envolveu em uma narrativa como há tempos não acontecia. Refiro-me a Lovecraft country, série que estreou na HBO em agosto, com 10 episódios e terminou de ser exibida em setembro.

Com produção executiva de Jordan Peele (de Corra! e Nós) e J.J. Adams (Lost e Star Wars), é baseada no livro de mesmo nome (na tradução para o português, intitulada Território Lovecraft) de Matt Ruff, que dá vida à mitologia criada por H. P. Lovecraft, um dos grandes nomes da literatura de terror e pulp que viveu entre 1890 e 1937, nos Estados Unidos, e cuja obra é extremamente racista. E aqui o pulo do gato, ou melhor, da gata, já que a criação do roteiro, a adaptação, enfim, o grosso do trabalho, ficou por conta de Misha Green (de Underground).

O livro de Ruff já subverte a obra de Lovecraft – um assumido supremacista branco –, ao abordar os horrores da segregação racial norte-americana nos anos de 1950 em uma narrativa antirracista e de protagonismo negro. Mas é com o olhar de uma mulher preta que a série ressignifica, desloca-se e imprime força na imagem e na palavra a esta reintegração de posse, no melhor estilo Take your legacy back (“Tome seu legado de volta”, um dos slogans da série, em sua divulgação). Lovecraft deve ter se revirado no túmulo.

A história se passa nos Estados Unidos na era Jim Crow – conjunto de leis que vigorou no país entre 1870 e 1960 e que segregava brancos e negros em espaços públicos –, quando Atticus (Jonathan Majors), um veterano da Guerra da Coreia, volta com sua mala cheia de mágoas para a casa de sua família, em Chicago, para saber o que aconteceu com seu pai, que desaparece misteriosamente deixando uma enigmática carta para seu filho. Em companhia de seu tio George (Courtney B. Vance) e de sua amiga de infância Letticia (Jurnee Smollett), sai em busca de Montrose (Michael K. Williams). A partir daí, surpresas, sustos, monstros, magias e feitiços inundam a jornada dos episódios da série. Mas o terror mais profundo em toda esta história é o horror do racismo, personagem central na narrativa, e de todos os níveis de violência que ele traz consigo.

A série aborda diversas nuances dessa questão sem ser didática, utilizando-se dos elementos que caracterizam a obra de Lovecraft, como o fantástico, o sobrenatural e o horror cósmico, para abordar referências históricas do contexto norte-americano muitas vezes desconhecidas, como a Guerra da Coreia e o Massacre de Tulsa. Vale a pena, ao fim de cada episódio, buscar saber mais a esse respeito, no caso de quem nunca ouviu falar desses acontecimentos históricos. De quebra, é possível compreender muitos processos vividos na atualidade. Estão ali também referências a figuras importantes para a história negra diaspórica mundial, como a de Bessie Stringfield – primeira mulher negra a cruzar os Estados Unidos de moto, e que teve funções fundamentais na Segunda Guerra – e da nossa maravilhosa Elza Soares – que serviu de inspiração para uma personagem em um dos episódios. Fica aqui o desafio para pescar esses sinais.

Cada capítulo de Lovecraft country tem uma estrutura complexa um tanto independente e de protagonismo próprio, mas que vai fornecendo pistas que são como rastros com os quais podemos tentar montar um quebra-cabeça, relembrando o que aconteceu nos episódios anteriores.

Ainda que a série seja classificada no gênero do terror – afinal, estão lá a ficção científica e o body horror, por exemplo –, seu roteiro tem uma profunda elegância e delicadeza em tratar certos temas, manifestada nas personagens construídas sem maniqueísmos e com todas as camadas que caracterizam o ser humano. E a série é, essencialmente, sobre isso: a complexidade das relações pessoais e familiares.

Discute o terror da intersecção entre a discriminação racial e de gênero e como a profunda teia de opressão criada a partir dela atravessa e influencia a vida das personagens. Estas vão além das que citei até aqui, incluindo Ruby (Wunmi Mosaku), Diana (Jada Harris), Ji-Ah (Jamie Chung) e a maravilhosa Hippolyta (Aunjanue Ellis, que protagoniza um dos mais belos episódios da série), cujas circunstâncias na série comprovam minha afirmação.

Costurada em cenas estratégicas e determinantes, a série nos brinda com trechos de discursos potentes, como o do escritor afro-americano James Baldwin, durante um debate com o autor conservador William F. Buckley; de Naomi Waddler, jovem de 11 anos, durante a Marcha Pelas Nossas Vidas (March for Our Lives, ocorrida em março de 2018, depois do massacre na Stoneman Douglas High School), no qual tratou sobre as crianças negras assassinadas nos Estados Unidos; e um trecho do monólogo de Sun-Ra, artista do jazz expoente do movimento afrofuturista.  Para completar o círculo da valorização e de declaração de amor à cultura negra norte-americana, a trilha sonora tem Fats Domino, Etta James, Nina Simone, Gil Scott-Heron, Card B e Rihanna, cujas músicas se conectam de forma genial com as cenas em que são inseridas.

Evitei aqui, ao máximo, dar spoilers, para que o leitor e a leitora possam se surpreender com a narrativa de tirar o fôlego, especialmente ao final de alguns episódios. Isso, não apenas pelo clima de tensão e suspense, mas pela emoção que as personagens nos entregam. Para esta jornalista, uma das melhores séries assistidas nos últimos tempos, ainda que algumas pontas tenham ficado um tanto soltas na season finale.

Há rumores de que Lovecraft Country não terá uma segunda temporada. Vamos aguardar. Enquanto isso, para diminuir a saudade, revejo episódios na busca de referências que tenham passado despercebidas. Afinal, elas são muitas, o que torna a série ainda mais atraente.

CHRISTIANE GOMES é jornalista, mestra em comunicação e cultura pela USP. É coordenadora de projetos da Fundação Rosa Luxemburgo onde desenvolve projetos na área de feminismos negros e questões raciais. É dançarina e integrante da coordenação do bloco afro Ilú Oba de Min.

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