Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Curtas

Afiadas

Livro propõe um olhar sobre as mulheres que pensaram o século XX

TEXTO Manu Falcão

07 de Março de 2019

Imagem Arte sobre fotos de divulgação por Janio Santos

[conteúdo na íntegra | ed. 219 | março de 2019]

contribua com o jornalismo de qualidade

There's little in taking or giving,
There’s little in water or wine;
This living, this living, this living
Was never a project of mine
Oh, hard is the struggle, and sparse is
The gain of the one at the top,
For art is a form of catharsis,
And love is a permanent flop,
And work is the province of cattle,
And rest’s for a clam in a shell,
So I’m thinking of throwing the battle 
Would you kindly direct me to hell?

Em minha adolescência, bisbilhotando os abissos da internet, achei o pequeno poema acima, intitulado Coda. Nunca ouvira falar em Dorothy Parker, que eu logo descobri ser a autora; e imediatamente me pus a procurar tudo em meu alcance sobre essa mulher que, como define a jornalista canadense Michelle Dean, tinha o talento de “transformar emoções complexas em ditos espirituosos que insinuavam um amargor, sem que isso aflorasse na sua superfície”. Uma vez que li The portable Dorothy Parker, uma compilação de suas poesias, contos e críticas literárias, tomei ciência de que suas observações chistosas iam além de mazelas pessoais, e tinham a arte como escopo.

Nunca havia lido uma palavra de Kerouac, mas sentia a necessidade de saber o que Parker tinha a dizer sobre sua literatura, divertindo-me diante de seu tédio absoluto. Tampouco conhecia bem Hemingway, mas era fascinada pela anedota de que ela lhe fizera tantas críticas mordazes, que ele compusera um poema inteiro apenas sobre sua chatice. Parker, com a capacidade de ser tão cômica quanto profundamente triste, já é um achado antigo, que comungava junto às agonias existenciais de uma jovem em crescimento como qualquer outra, mas que gostava de ler – uma jovem que, afinal, acabara almejando os mesmos caminhos profissionais que os dela.

A segunda mulher citada, Michelle Dean, é uma nova descoberta. Seu livro Afiadas: as mulheres que fizeram da opinião uma arte, lançado em outubro de 2018 pela Todavia, destrincha as vivências e a práxis profissional de 10 mulheres que pensaram o século XX, cada uma à sua maneira. Das ficções à crítica cultural, reportagens e sátiras. Dean as contextualizam em suas feminilidades, reunindo-as a partir de um ponto em comum: todas já foram chamadas de “afiadas”.

Um adjetivo que, quando aplicado a uma mulher, vem junto de um sentimento de despeito e recuo. Os nomes citados são Joan Didion, Susan Sontag, Hannah Arendt, Renata Adler, Pauline Kael, Nora Ephron, Rebbeca West, Janet Malcolm, Mary McCarthy e, para meu contentamento e espanto inicial, Dorothy Parker. Atenho-me aqui ao lugar de sua leitora entusiasta porque, além de ter sido um nome pouco difundido e traduzido no Brasil, a experiência de Afiadas, para mim, começa em uma autoconsciência metaficcional de que, ao pensar essas mulheres, e ao pensar em como Dean as pensa, faço perdurar o exercício que Parker fomentou em minha formação; bem como na de Dean.

Este talvez seja o maior mérito do livro. Para aqueles que ainda não se debruçaram no trabalho dessas mulheres, Afiadas, que percorre a paisagem intelectual do século passado, das festas repletas de coquetéis nas quais essas mulheres sempre se esbarravam, às guerras de trincheiras literárias e políticas, é um bom começo. Apesar de não se aprofundar em análises da obra dessas mulheres, Dean nos mostra como cada uma delas subverteu as normas de gentileza esperadas do gênero com suas respectivas proezas analíticas e sagacidade, eventualmente criando interseções entre si. Dean constrói uma narrativa cronológica, na qual costura tais confluências, como se cada mulher passasse o bastão para a próxima. Algumas delas tornaram-se aliadas profissionais, outras se desgostavam fortemente, mas nunca deixava de haver uma troca.

O mote aqui não é essencialmente uma ideação feminista de sororidade; afinal, a maioria delas tecia duras críticas ao movimento, mas de uma forma que não culminava em qualquer posição reacionária. Sontag esbravejou sobre sua ingenuidade para Adrienne Rich, e Didion chegou a compará-lo ao stalinismo. Sim, essas mulheres afrontaram as expectativas do sexo, mas nunca se posicionaram como ativistas.

Em Afiadas, porém, pensar essa rejeição não toma, necessariamente, um sentido de crítica. Dean, que se identifica enquanto feminista, defende que o impacto deixado por essas mulheres acabou servindo ao feminismo, mas enfatiza seus espíritos naturalmente opositores, intrínsecos a suas condições de serem afiadas. Por isso, há um fio condutor no livro que parte de uma ambivalência em relação ao movimento feminista por essas mulheres. O leitmotiv é o arquétipo da única mulher dentre vários homens, aquelas que conseguiram se emancipar em um mundo hegemonicamente masculino – algo que, por exemplo, Parker assimilou ao participar do Algonquin Round Table, um exclusivo clube de almoço para escritores em Nova York.

No entanto, em um demérito significativo, mas compreensível, outras justificativas para compilar estes ensaios – mais biográficos do que analíticos – sobre essas mulheres tão díspares tornam-se tênues e se esvaem. Não muito longe do fato de que estas parecem ser as heroínas pessoais de Dean, e ela sugere que também sejam as do leitor, conjecturando que ser afiada é uma virtude perdida na era atual, e clamando por alguma reivindicação em prol do rigor intelectual. Escolhe, então, apegar-se às suas inspirações subversivas e escrever exclusivamente sobre as mulheres que admira, de modo muito particular, uma vez que estas reagiram a ambientes hostis com uma tenacidade que afrontava qualquer preponderância de gênero; até se firmarem neles, clamando-os como espaços delas.

Isso me leva a crer que Afiadas é, acima de tudo, uma leitura imprescindível para estimular jovens escritoras, pois é uma porta de entrada à vida e à literatura dessas mulheres que empurraram suas percepções políticas e estéticas contra um machismo generalizado. Como Parker fizera por mim na adolescência, e como todas elas também o fizeram por Dean; ser mulher e olhar para essas fronteiras enfrentadas pelas nossas antecessoras, com seus êxitos e fracassos, suscita a ideia de que a escrita – e o pensamento crítico – é uma das formas mais eficazes de poder e de compreensão do nosso lugar no mundo. Algo que remanesce em qualquer tempo. E, se, em nossos contextos de feminilidade, podemos fazê-la com assertividade, as chances são de que estamos no caminho certo.

MANU FALCÃO é estudante de Jornalismo da Unicap e estagiária da Continente.

Publicidade

veja também

Minas

Santo sossego

Manual jurídico feminista

comentários