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Curtas

A fúria e outros contos

Escritora argentina Silvina Ocampo ganha finalmente tradução para o português

TEXTO ERIKA MUNIZ

02 de Março de 2020

A autora argentina chegou às livraria brasileiras somente no segundo semestre de 2019

A autora argentina chegou às livraria brasileiras somente no segundo semestre de 2019

Foto Reprodução

[conteúdo na íntegra | ed. 231 fevereiro de 2020]

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Há qualquer coisa de mistério e estranheza na ficção de Silvina Ocampo (1903-1993). Esses enigmas também estão presentes nos registros a respeito de sua vida. Dos escritos sobre essa contista argentina, considerada por vários críticos e acadêmicos como a maior de seu país, muitos defendem a ideia de alguém de personalidade e comportamento mais reservados. Também não gostava de ser fotografada, constantemente escondia-se atrás das mãos. Por sua maneira observadora e discreta de circular pelos ambientes portenhos, a autora procurou estar mais à sombra e menos à frente dos holofotes. Ao contrário do que fizeram alguns dos artistas e personalidades com quem ela conviveu intensamente.

No tocante às suas estruturas narrativas, poderíamos até arriscar uma classificação. Mas, além de ser difícil sintetizá-las, o grande Jorge Luis Borges – com quem Silvina cultivou amizade e trocas intelectuais – já fez isso com bastante rigor. Para não corrermos risco de falhar miseravelmente na categorização da obra de Silvina, eis as considerações do argentino, emprestadas do prólogo da novela Faits divers de la terre et du ciel (1974): “Nos seus textos, há um traço que ainda não consigo entender: seu estranho amor por uma certa crueldade inocente ou oblíqua. Atribuo esse interesse a um surpreendente fascínio que o mal inspira na alma nobre” (em livre tradução).

Possivelmente, você, leitor, ouviu pouco ou quase nada a respeito dessa autora de língua hispânica. Ou, ainda, pode estar se questionando por que não conhece publicações em língua portuguesa de Ocampo, vista a relevância de sua obra. Ou, também, por qual motivo temos contato com obras de conterrâneos dela, como Borges e Julio Cortázar, com acesso abrangente a seus textos, diferentemente dos de Silvina. Isso não acontece por acaso. Além de questões de apagamentos de gênero no campo literário, apesar de suas contribuições para a ficção hispano-americana – na poesia e dramaturgia também –, a escritora chegou às livraria brasileiras somente no segundo semestre de 2019, com A fúria e outros contos (Companhia das Letras, 212 páginas), numa cuidadosa tradução de Livia Deorsola.

Capa do livro publicado pela Companhia das Letras. Reprodução


Originalmente publicada em 1959, La furia y otros cuentos talvez seja sua obra máxima, o que aponta para uma escolha precisa para dar início às traduções de Ocampo no país. Ainda que tardiamente. Considerada a mais ocampiana de suas publicações, ela traz os caminhos temáticos da autora, traços de oralidade e características formais de modo mais evidente. Todo o assombro, surpresas e ocultismo que envolvem as inquietantes narrativas da escritora estão delineados em A fúria. A propósito, inquietude e estranhamento são sensações que nos perseguem ao longo da leitura dos seus 34 contos. Cada história, porém, envolve esses sentimentos de modo peculiar.

Em A lebre dourada, conto que abre o livro, através da história de uma lebre (uma presa fácil) perseguida por cães ferozes (seus predadores), o narrador nos convoca a experimentar a tensão de uma fuga. Entre o medo e aquela vontadezinha de rir “meio torta, meio nervosa”, a ambiguidade que dá o tom na literatura de Ocampo vai ganhando contornos mais nítidos. É quase como se nós, leitores, participássemos dessa fuga; só que não como coitadinhos, de modo que a lebre talvez não seja tão frágil assim. Diante de textos complexos, é preciso ler para experimentar como somos capazes de nos questionar a partir dessa e outras narrativas de Silvina.

Nos anos 1940, ela casou-se com o escritor Adolfo Bioy Casares, 11 anos mais velho. Ele, com certa precisão, sugeriu sobre os escritos de sua companheira: “Não se parece com nada, como se tivesse sofrido influências apenas de si mesma”. Borges, amigo do casal, dedica à escritora um de seus textos fundamentais, o conto Pierre Menard, autor do Quixote (1939). Borges, porém, já declarou incomodar-se quando Ocampo tematizava a perversidade infantil, um de seus temas mais marcantes e frequentes. Outros leitores e admiradores da sua literatura foram o chileno Roberto Bolaño, o italiano Italo Calvino e a poeta argentina Alejandra Pizarnik, com quem trocou cartas pessoais. Pelo teor dos afetos, alguns pesquisadores sugerem que as duas tenham vivido uma intensa paixão.

São constantes as histórias criadas por Silvina Ocampo que parecem brandas e corriqueiras, mas que se transfiguram em situações grotescas, fantásticas, improváveis e, por vezes, perversas. Nessa habilidade de tecer ambientes insólitos é que grande parte da sua obra se situa. Em outro conto do livro, A continuação, o ciúme funciona como pulsão para que o protagonista revele seus delírios com personagens que criou ao escrever textos literários. Esse texto ilustra um traço comum da narrativa da escritora: a dubiedade entre o real e o ficcional. Mais adiante, O mal nos convida a conhecer a situação de um enfermo, no leito de um hospital, ao longo de suas últimas horas de vida. O que pensaria alguém nessas condições? Quais os últimos sonhos e desejos de um personagem assim? Essas são algumas das narrativas de A fúria e outros contos em que Ocampo nos faz refletir sobre as questões do existir.

ERIKA MUNIZ é jornalista e bacharel em Letras.

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