Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Cobertura

Um artista para os tempos de crise

O chinês Ai Weiwei, também ativista e agora cineasta, apresenta seu novo longa-metragem, que abriu a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo acendendo o debate sobre refugiados

TEXTO Luciana Veras

20 de Outubro de 2017

Weiwei percorreu 23 países para radiografar o que considera uma crise política, humanitária e moral

Weiwei percorreu 23 países para radiografar o que considera uma crise política, humanitária e moral

Foto Milton Mansilha/Divulgação

Ai Weiwei é mais do que um artista contemporâneo, talvez o mais conhecido da China. É ativista dos direitos humanos, é dissidente do regime de seu país e é um cidadão do mundo que atualmente reside em Berlim, mas que, há pouco, inaugurou em Nova York uma exposição pública chamada Good fences make good neighbours – literalmente, “boas cercas geram bons vizinhos”. E é, agora, um cineasta. Seu longa-metragem Human flow – Não existe lar se não há para onde ir abriu a 41ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, na noite da última quarta-feira (18/10).

Seu trabalho é, na essência, surpreendente, e como produção artística e existência não se dissociam, sua vida também o é. Assim ele não esteve presente à cerimônia, pois a United Airlines, a companhia área que o transportaria para o Brasil, alegou que havia um problema com seu visto. Entraves diplomáticos resolvidos, Weiwei desembarcou na capital paulista na manhã da quinta (19/10) e foi direto para a coletiva com os jornalistas, no shopping Frei Caneca, um dos QGs de exibição da mostra. Chegou vestindo um traje semelhante ao que aparece usando em boa parte de Human flow – calça escura, camisa azul e seu telefone celular na mão.

No filme, Weiwei percorre 23 países para radiografar o que considera “não apenas uma crise política, mas uma crise humanitária e moral”: as vidas de centenas dos 65 milhões de seres humanos forçados a sair de suas casas e experimentar a condição de refugiados. São 140 minutos que levam o espectador a campos de refugiados na Turquia e no Iraque, ao litoral da Grécia, à fronteira cercada da Hungria, ao muro que divide os Estados Unidos e o México, ao Líbano e a Gaza... É uma narrativa impressionante, por trazer imagens das condições precárias em que vive esse contingente de pessoas “que se consideram ninguém, pois é assim que o mundo as vê”, nas palavras do diretor, e triste, pois não há indicativo de soluções ou mesmo melhorias.

“Há pouca ajuda para os refugiados. Os políticos estão trabalhando na direção errada. E as nações ricas estão sendo irresponsáveis, ainda mais agora nesse momento de avanço de uma extrema direita. Se não tivermos compaixão ou tolerância, não teremos futuro. Ainda confio e acredito na humanidade, mas a verdade é que não tenho muita esperança para o mundo de hoje”, resumiu Weiwei.


Ai Weiwei na entrevista coletiva de São Paulo. Foto: Milton Mansilha/Divulgação

À Continente, o artista/ativista/cineasta disse que o que levou a fazer esse filme foi, primeiro, a curiosidade: “Sou muito curioso sobre tudo que acontece no mundo de hoje. Se 65 milhões de pessoas estão sendo forçadas a fugir de suas casas, o que está acontecendo? Quando eu estava na ilha de Lesbos, na Grécia, vendo aquelas pessoas saindo do barco, vi como aquilo era chocante. E ainda é chocante os europeus serem responsáveis, também, por tudo isso. Fui me envolvendo para aprender o que está acontecendo no planeta. Gradualmente, isso foi virando um filme”.

Ele visitou 40 campos de refugiados, conversou com mais de 600 pessoas, reuniu 900 horas de filmagens em mais de dez idiomas por acreditar que não há como existir, hoje, sem se relacionar com as crises que nos cercam. “É importante e crucial que os artistas se envolvam com o que acontece, porque somos todos humanos e esses problemas todos foram criados por humanos e temos que acreditar em nós mesmos. E defender, sempre, a humanidade e a liberdade. Os indivíduos têm que atuar, o envolvimento de cada um é essencial. Não dá para confiar nos políticos, nas grandes companhias e nas instituições”, pontuou. Em especial, em tempos de conservadorismo e ameaças à liberdade de expressão…

CENSURAS
Uma das jornalistas presentes à coletiva indagou se Ai Weiwei estava a par dos acontecimentos recentes no Brasil, como o cancelamento da exposição #Queermuseu e a iniciativa de grupos de extrema direita de incentivar a censura de obras e artistas. “É extremamente perigoso para a sociedade se permitirem que isso aconteça. Perder a liberdade de expressão na arte é sempre um péssimo sinal”, respondeu, que depois foi a protesto no Masp. (leia mais).

Weiwei enfrentou o cerceamento à liberdade de expressão em seu próprio país. Entre abril e junho de 2011, foi detido por acusação de evasão fiscal. O ato arbitrário do regime chinês não lhe foi surpresa, pelo que compartilhou com os jornalistas na coletiva. “Nasci em 1957 e, logo depois, meu pai foi mandado para um campo de trabalho forçado só por ser poeta. Ele passou 20 anos preso. Durante a Revolução Cultural, e por muito tempo, meu pai era visto como um inimigo do Estado. Cresci dentro dessas condições. Em 1981, viajei para os Estados Unidos sem falar uma única palavra de inglês. Passei 12 anos lá, dos quais sete como ilegal. Aprendi arte e depois voltei para a China. Só que muita coisa aconteceu comigo, além de ser detido. Tive que sair de lá. Se eu morasse na China, poderia desaparecer a qualquer momento. E não queria que meu filho de 8 anos tivesse que lidar com isso”, situou.

Ele também se pronunciou a respeito de uma outra questão que ele diz ser recorrente após as exibições de Human flow. “Como moro em Berlim agora, sempre me perguntam se eu me identifico com a vida dos refugiados e com os problemas que eles enfrentam. Sim, eu não moro no meu país, e nem falo alemão, mas minha condição é privilegiada”, comentou.

Assista ao trailer:


Human flow
tem distribuição no Brasil pela Paris Filmes e entra em cartaz no dia 16 de novembro. Ai Weiwei espera que seu filme ajude a gerar outras ações: “Como artista, trabalho com ações. Meu filme é a linguagem que escolhi para falar dessa situação inaceitável. Precisamos ver os refugiados como seres humanos, tratá-los como seres humanos. Vivemos um tempo crucial. Na Alemanha, a propaganda da extrema direita era explícita: eles querem o ‘white blood’, a Alemanha pura. Enquanto isso, os milhões de refugiados não têm identidade, privacidade, casa ou qualquer outra coisa. Nós não somos capazes de enxergá-los. Eles são transparentes. Simplesmente não existem”.

LUCIANA VERAS, repórter especial da revista Continente. Viajou à capital paulista a convite da 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Publicidade

veja também

“A morte, para nós, é sagrada”

A morte, ou outras travessias

O cinema frente ao autoritarismo

comentários