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"Tudo sobre minha mãe". Foto: Teresa Isasi/El Deseo/Divulgação"Tudo sobre minha mãe". Foto: Teresa Isasi/El Deseo/Divulgação

Toda a valoração do cinema latino-americano implica necessariamente uma valoração dos gêneros sobre os quais baseou seu desenvolvimento industrial: a comédia e o melodrama, ou, como o público dizia: os 'filmes para rir' e os 'filmes para chorar'. Esta divisão foi a forma espontânea de reconhecimento do poder do espetáculo-divertimento existente naquela produção.” Foi assim, no livro Melodrama – O cinema de lágrimas da América Latina (Rio Fundo Editora, 1992), que a professora e pesquisadora argentina Silvia Oroz, há muito radicada no Brasil, contextualizou os gêneros fílmicos que lastreiam a própria ideia de um cinema latino-americano.

Silvia esteve no Recife no último fim de semana (13 e 14/5) para falar de um realizador que, embora nascido na Europa, ampliou as possibilidades de conjunção entre a comédia e o melodrama e, por conseguinte, aumentou o poder de fascínio do “espetáculo-divertimento” feito com os amores, humores e sabores dos latinos: o espanhol Pedro Almodóvar. Ela é uma das curadoras, ao lado do jornalista Breno Lira Gomes, da retrospectiva El deseo – O apaixonante cinema de Pedro Almodóvar, que entra na sua segunda semana na Caixa Cultural Recife (ver programação completa AQUI).

Só por exibir a totalidade da filmografia do cineasta de Ata-me (1989) e Carne trêmula (1997), El deseo – O apaixonante cinema de Pedro Almodóvar já seria uma mostra mais do que louvável. No entanto, a retrospectiva também buscou propiciar a oportunidade de uma investigação mais densa sobre os matizes – estéticas, políticos, sociais – do cinema almodovariano. O próprio catálogo, aliás, é testemunho disso, com uma considerável fortuna crítica de artigos e entrevistas (em formato PDF, pode ser lido e baixado AQUI).

Na sexta (12/5) e no domingo (14/5) passados, respectivamente, Silvia Oroz participou do debate O cinema de Pedro Almodóvar e comandou uma master class sobre as relações entre Almodóvar e o melodrama – e esta, mesmo se tratando do Dia das Mães, levou um excelente público ao centro cultural, no Bairro do Recife. Antes de conversar com os recifenses sobre “um dos cineastas mais contemporâneos da atualidade”, a professora de Cinema da Universidade Estácio de Sá e da Facha, também por anos curadora de pesquisa da cinemateca do MAM/RJ, falou à Continente sobre o vulcão Almodóvar. Os filmes dele são híbridos que partem do melodrama para se fundir à comédia, à farsa, ao musical. Ele faz um mosaico de raiz melodramática”, descreve. A filiação do espanhol ao melodrama e sua liberdade para reinventá-lo e subvertê-lo foi o motor da entrevista que ela concedeu abaixo

CONTINENTE Em Melodrama – O cinema de lágrimas da América Latina, você analisa como o gênero foi moldado pelos diretores e, ao ser bem-recebido pelas plateias, se transformou num dos marcos do cinema latino-americano. Como Pedro Almodóvar se encaixa nisso?
SILVIA OROZ Almodóvar é um expoente muito interessante do melodrama latino-americano, mas um melodrama que não é o mesmo dos anos 1930, 1940 e 1950, e sim um melodrama de outro tipo, um melodrama híbrido. Seus filmes se inscrevem dentro do processo de hibridismo cultural. São híbridos porque misturam melodrama com farsa, comédia, musical… Ele faz um mosaico de raiz melodramática. Estão lá os elementos clássicos do gênero – amor, poder, morte, perda –, mas ele os utiliza com um lado bem irônico. A morte é descrita por um viés cômico, coisa que não acontecia nos melodramas clássicos. O que Almodóvar faz é atualizar o melodrama.

CONTINENTE Isso é algo que se percebe desde os primeiros filmes dele, que remontam ao início dos anos 1980?
SILVIA OROZ Sim, sem dúvida, e que explode com Mulheres à beira de um ataque de nervos (1988). Amor, ódio, morte, tudo aparecia misturado de um modo bem pós-moderno, totalmente contemporâneo. Era a Espanha pós-Franco, então o desbunde espanhol surgia com toda força. Os filmes dele dessa época são, às vezes, uma salada russa, com esculhambação, com deboche, com muito frescor. Mulheres..., por exemplo, é um dos primeiros filmes a colocar o fim do patriarcado. As personagens femininas eram poderosas; aliás, ele criou uma tradição de figuras femininas fortes e fantásticas. Acho que tem a ver a própria criação dele.

Silvia Oroz. Foto: DivulgaçãoSilvia Oroz. Foto: Divulgação

CONTINENTE
Ele já falou, em diversas entrevistas, da infância cercado de mulheres, numa cidade próxima a Madri.
SILVIA OROZ Ele cresceu cercado pela mãe e pelas tias, todo imerso num mundo feminino. O mundo de Almodóvar como cineasta não é muito diferente do que ele vivenciou como criança. Todas as mulheres de seus filmes parecem de carne e osso. Acho que é por isso também que ele constrói suas relações com as atrizes. Durante um tempo, o primeiro da sua carreira, ele foi casado com Carmen Maura. Depois, vieram Victoria Abril, Marisa Paredes, Penélope Cruz... Adoro Carmen Maura, ela era um gênio de mulher e um elemento fundamental do primeiro Almodóvar. Já Marisa é muito mais melodramática. A relação que ele construiu com elas foi uma espécie de casamento mesmo. Como Godard e Anna Karina, e Roberto Rossellini e Ingrid Bergman. Almodóvar casa com essas mulheres seguindo uma etapa cultural de sua subjetividade e todos os filmes são pensados pela perspectiva da mulher que ele escolheu. Isso é o que faz esse universo feminino dele tão rico. Ele tem um carinho por essa mulherada, trabalha suas personagens com empatia total, se coloca dentro das personagens. Já elas dão tudo de si, se entregam a essa paixão almodovariana. Isso é muito interessante.

CONTINENTE Como é que isso tudo transborda para a concepção imagética?
SILVIA OROZ A paleta de cores dele se baseia no Cinemascope, o tipo de película e projeção que era vanguarda quando ele era pequeno. Essas são as cores – exuberantes, fortes – que ficaram fixadas na subjetividade dele. E o que ele faz com essa paleta é fascinante. É uma paleta que viaja. Há sempre um elemento na mise-en-scène para reforçar essa paleta de cores… Até os lábios das protagonistas reforçam isso, seja no batom vermelho que a personagem de Penélope usa em Volver (2006), seja no que a personagem de Victoria Abril usa em Ata-me.

CONTINENTE Você acha que esse cuidado na composição da imagem atinge o ápice na fase mais madura dele, que começa em 1997, com Carne trêmula, e tem Tudo sobre minha mãe (1999), Fale com ela (2002) e Volver?
SILVIA OROZ Acho que esses são filmes muito perfeitos. A imagem é perfeita, assim como a atuação, mas eu prefiro a imperfeição. Como cineasta, ele pode amadurecer, mas não pode deixar de lado sua face brincalhona, contestadora. Eu gosto mais de um filme como Os amantes passageiros (2013), em que ele volta a flertar com os limites da esculhambação, do que de A pele que habito (2011), por exemplo, em que é muito acadêmico. Todos esses filmes que você citou não são ruins, muito pelo contrário, são perfeitos demais. O que me perturba é essa perfeição.

CONTINENTE É como se Almodóvar tivesse se domesticado então?
SILVIA OROZ Exatamente. Tem a ver com a idade, com o Oscar (Almodóvar levou a estatueta de melhor filme estrangeiro por Tudo sobre minha mãe e a de melhor roteiro original por Fale com ela), com a vida em geral… 

CONTINENTE Partindo daí, uma curiosidade: você considera Ata-me mais filme do que Volver, por exemplo?
SILVIA OROZ Ah, claro. Mas isso é gosto pessoal.

Almodóvar (direita) dirigindo "Maus hábitos". Foto: Ana Muller/El Deseo/DivulgaçãoAlmodóvar (direita) dirigindo "Maus hábitos". Foto: Ana Muller/El Deseo/Divulgação

CONTINENTE Como percebe Pedro Almodóvar diante do mundo em que vivemos hoje?
SILVIA OROZ O que é preciso ressaltar é que, mesmo domesticado, como eu costumo dizer, mesmo abrindo mão da esculhambação, Almodóvar é um cara absolutamente contemporâneo. Seus filmes anteriores, mais iconoclastas, falavam de divórcio quando ainda era um tabu. Depois, ele falou de HIV, do abuso sexual dos padres católicos, do sexo entre homens. A cena de sexo de A lei do desejo, com Antonio Banderas, é emblemática até hoje. Hoje, seus filmes refletem as conversas que temos com nossos amigos, o cotidiano, a matéria de que é feita a vida. Eu prefiro o Almodóvar de Maus hábitos (1983) e Que fiz eu para merecer isto? (1984), mas é inegável que ele é um dos cineastas que mais dialoga com a contemporaneidade. Todos os temas que ele abraça vêm envoltos na contemporaneidade, com tudo que ela tem de excessivo, de performático e contraditório.

capa 199
CONTINENTE #199  |  Julho 2017

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