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Daqui a 20, 30 anos, será impossível que, numa mirada em retrospecto do cinema nacional, não se mencione o quão importante foi (e esperamos, ainda será) a presença da Vitrine Filmes como uma marca por trás de toda uma geração pulsante da produção independente no Brasil. Fundada em 2010 por Silvia Cruz (foto), a maior distribuidora de filmes autorais do país acaba de lançar um projeto em parceria com a Petrobras que leva às salas de cinema filmes que costumam circular apenas por restritos festivais. Com a reedição da chamada Sessão Vitrine, agora patrocinada e subsidiada, Silvia Cruz e sua equipe de curadoria, formada por Talita Arruda e Letícia Santinon, levam a 21
cidades sessões diárias e semanais de títulos brasileiros ora já premiados em festivais de cinema nacionais e internacionais, ora inéditos. A feliz e bem-vinda iniciativa surge em um momento de muita apreensão para o audiovisual brasileiro, agora cada vez mais atento a possíveis mudanças na política pública da Ancine. É sobre o futuro da Sessão Vitrine e as implicações políticas do projeto que a sócia e fundadora da Vitrine conversa com a Continente. Saiba mais sobre a Sessão Virtrine AQUI.

CONTINENTE
Durante a coletiva de apresentação da nova edição da Sessão Vitrine, falou-se que um dos principais motivos de se resgatar a ideia do projeto agora, em escala bem maior, é justamente dar o tempo de projeção nas salas para filmes que o circuito exibidor não consegue manter em cartaz no cinema. Em que momento vocês perceberam que poderia haver uma parceria que subsidiasse essas sessões e quanto tempo durou a negociação disso?
SILVIA CRUZ
Essa ideia começou durante a segunda edição da Sessão Vitrine, porque já ali eu sentia a dificuldade por parte dos exibidores de conseguir salas boas, e quando eu digo salas boas, me refiro ao acesso fácil a essa sala e não necessariamente à sua qualidade de projeção. A gente já queria fazer mais sessões em mais lugares, com debates, com preços de ingresso mais acessíveis, mas, para isso, era preciso um patrocínio. De modo que, quando terminou aquela segunda edição da Sessão Vitrine, em 2013, decidi que não dava mais para repetir a experiência sem dinheiro, ou seja, sem recorrer a um edital. Fui, então, falar com a Ancine, porque era preciso haver uma lei que possibilitasse um patrocínio, via incentivo fiscal, para distribuição de vários filmes e não de um filme só, ou seja, para um projeto maior de distribuição. Mas quando a Ancine conseguiu aprovar isso como lei, a Petrobras entrou em balanço e parou de apoiar projetos via incentivo fiscal e aí pararam os editais. Mas em 2016, a Petrobras ligou perguntando se eu ainda tinha interesse no projeto e falando que agora eles poderiam patrocinar direto, com a verba de marketing deles, sem ser via incentivos fiscais. As conversas recomeçaram e isso durou até a assinatura do contrato no fim do ano passado.


CONTINENTE Da maneira como o projeto está desenhado hoje, ele tem duração de um ano ou pouco mais do que isso?
SILVIA CRUZ Na verdade, ele foi desenhado por quantidade de filmes. Inicialmente, ele foi desenhado para oito filmes, mas a gente terminou colocando muito mais, ou seja, estamos com 15 filmes e já em negociação pela continuação do projeto. Vou ver se consigo mudá-lo para que seja, de fato, por ano.

CONTINENTE Um dos aspectos mais importantes dessa reedição da Sessão Vitrine Petrobras é o estímulo ao debate pós-sessão. De que forma a Vitrine pretende se articular com cada sala de cinema dessas 21 cidades para conseguir fazer circular esse debate? Vai haver algum mecanismo para registrar e documentar essas conversas?
SILVIA CRUZ O que eu consegui colocar no orçamento do patrocínio foi que cada filme teria pelo menos dois debates. Um na cidade do filme e outro em alguma outra cidade para onde levaríamos os realizadores. Em paralelo, sim, estamos conversando com algumas dessas salas, que muitas vezes são subsidiadas pelo governo ou alguma instituição, para saber se elas têm alguma verba para levar esses debates para as suas salas também. Sobre o registro desses debates, serei muito sincera: não pensamos ainda em como fazer isso, mas a vontade existe e estamos tentando entender como isso será possível, já que não temos uma verba específica para documentação. Queremos, muito, por exemplo, filmar e, quem sabe, transmitir isso ao vivo pela internet.

CONTINENTE Sabemos que muitas dessas salas onde a Sessão Vitrine será exibida agora são salas que lutam diariamente para se manter funcionando. Não é fácil pagar a estrutura de um cinema com um público pequeno. De alguma maneira, essas salas vão ter apoio financeiro também com essa Sessão Vitrine Petrobras?
SILVIA CRUZ Não, infelizmente não conseguimos repassar nenhum dinheiro para as salas, nesse momento. Isso não coube nesta edição do projeto. O que elas vão receber é material de divulgação, debates, tudo para tentar fazer que essas sessões sejam mais cheias. É uma maneira indireta de fazer com que essas salas tenham mais bilheteria. Mas não é descartado, e acho que é um desejo, um apoio às salas para que elas continuem existindo e possam exibir esses filmes. Você mesma falou da dificuldade que muitas delas têm em somente existir e agora acabamos de saber que o Cine CentoeQuatro, lá em Belo Horizonte, está em vias de fechar. Ou seja, é mais um caso de uma sala dedicada a exibir um cinema mais autoral que não conseguiu se manter.

CONTINENTE Uma boa parte desses filmes que serão exibidos na Sessão Vitrine têm uma duração não tão longa. Já se pensou na possibilidade de haver exibição de curtas brasileiros antes de cada filme?
SILVIA CRUZ Se pensa muito nisso. Na primeira edição, isso chegou a acontecer, todos os filmes tinham curtas antes. Agora não será uma obrigação, mas será uma possibilidade. Acho que nesse semestre já vão aparecer alguns curtas antes dos longas.

CONTINENTE Existem filmes que estão na programação de vocês que têm, juntos, potencial para aquecer esse debate. Exemplo: Martírio e Rifle, dois filmes que falam sobre essa proteção de um espaço territorial que vem sendo tirado das pessoas pelo agronegócio. Será possível, em algum momento, a Sessão Vitrine se desdobrar em sessões casadas que possibilitem articular um filme com outro?
SILVIA CRUZ Olha, acho que tudo é possível. Confesso que não tinha pensado, por exemplo, nessa conexão entre Martírio e Rifle, mas agora que você falou, acho que eles crescem muito em conjunto. Talvez, lá na frente, a gente consiga fazer uma sessão com os dois filmes juntos para debater isso. Estou aqui anotando as sugestões.

CONTINENTE Entendo que muito da proposta da Sessão Vitrine, tanto naquelas primeiras versões quanto agora, é tentar criar um mecanismo de formação de público, um público que perceba o cinema menos como entretenimento e mais como reflexão de mundo. E essa não deixa de ser uma atitude política nos tempos acríticos em que vivemos. Tua ligação com esse tipo de pensamento sobre o cinema vem também de um lugar político?

SILVIA CRUZ Vem sim. Não temos um discurso político, mas há em nosso trabalho diário uma ação política. Muitas das nossas atitudes, do nosso funcionamento, da própria fundação da Vitrine vêm desse lugar. Acho muito importante a própria questão da descentralização dos filmes que distribuímos, porque muitas vezes as pessoas não fazem ideia de que se faz cinema em estados tão distantes dos seus e que esse cinema é tão bom. Quando se sabe, por exemplo, que se faz um cinema muito pulsante numa cidade como Contagem (Minas Gerais), isso deixa de ser apenas uma discussão sobre cinema, como se torna um debate sobre geografia e como políticas públicas podem e devem chegar a esses lugares. Isso se reflete na cinematografia de Pernambuco, da Ceilândia (Distrito Federal), ou mesmo do Rio e de São Paulo.

CONTINENTE Há três anos, quando O som ao redor foi lançado, muito se falava que aquele público que foi assistir ao filme era o teto para o cinema autoral brasileiro. Mas aí logo depois veio o Hoje eu quero voltar sozinho, do Daniel Ribeiro, o Que horas ela volta, da Anna Muylaert e, ano passado, Aquarius, segundo longa de ficção de Kleber Mendonça Filho, e esse teto só esticou com esses filmes. Você é otimista em relação ao que ainda podemos alcançar com esse cinema autoral?
SILVIA CRUZ Sim, sou otimista. Acho que a gente não chegou no teto de público ainda para esse cinema autoral brasileiro. Quantas pessoas existem no Brasil? É muita gente e esse teto vai subir, sim. Infelizmente, acho que vai continuar sendo dessa forma: um filme entre 30. A ideia é que esses filmes comecem a abrir espaços para outros. O filme da Anna Muylaert, por exemplo: sim, teve a Globo Filmes por trás também, tinha a Regina Casé, mas ainda é um filme de autora, que trouxe debates políticos relevantes. O Que horas ela volta fez 500 mil e, com certeza, motivou algumas pessoas a assistirem outros tipos de filmes brasileiros. Acho que há filmes autorais que levam pessoas ao cinema e esses filmes, por sua vez, levam mais pessoas a assistirem a outros filmes autorais que, de outra forma, não seriam vistos.

CONTINENTE Como vocês têm acompanhado, até este momento, a recepção dos filmes que vocês distribuem em outras plataformas, como a TV paga e o Netflix? Como estão indo os números nessas outras plataformas?

SILVIA CRUZ A gente só tem acesso aos números do TVoD, que é o por número de transação, então do iTunes e do NOW nós recebemos relatórios mensais. Porque ele funciona como o ingresso de cinema: você compra um bilhete, uma parte vai para o exibidor, outra para o distribuidor e outra para o produtor do filme. Já os números de SVoD, que é o caso do Netflix, eles funcionam como na TV fechada, ou seja, a forma de comércio é a mesma: eles te licenciam e compram o filme por determinado número de anos e aí como a maneira de comércio não é por transação, mas por licenciamento, não há como saber quantas pessoas viram. Mas, de maneira geral, os filmes mais vistos nessas outras plataformas refletem os números das bilheterias no cinema. Agora, o que acontece, com menos frequência, é a descoberta de algum desses filmes que não foi bem nas salas a partir desses outros ambientes de exibição. Temos alguns casos de filmes que foram muito mais vistos na internet do que na sala de cinema.

CONTINENTE O que faz um filme entrar no radar da Vitrine Filmes?
SILVIA CRUZ Acho que em festivais de curtas, ou festivais que exibem curtas-metragens, é onde a gente começa a detectar realizadores que nos chamam atenção a ponto de perguntarmos se a pessoa já tem um longa na mão e, se tem, se já tem distribuidora. Acontece muito de a gente começar a acompanhar a carreira da pessoa ainda como curta-metragista e entender que há, ali, uma linha consistente e autoral de trabalho.

CONTINENTE Uma das grandes virtudes da política pública desenvolvida pela Ancine nesses últimos 15 anos se dá justamente pelo fato de que a régua que deve medir o sucesso do cinema nacional não está diretamente ligada ao sucesso de bilheteria do filme, mas, sim, ao potencial crítico desse cinema. É possível acreditar que essa mesma política pública permaneça guiando os passos da Ancine nesses próximos anos?
SILVIA CRUZ Tendo a achar que é possível, sim, haver essa continuidade. Porque foi muito tempo fazendo essa política e mostrando resultado. Pega os últimos cinco anos, por exemplo. A repercussão do cinema brasileiro em festivais internacionais. Talvez venham algumas mudanças que podem não ser boas para todos, mas não consigo acreditar que alguém, quem quer que seja, vá chegar e fazer aquilo que foi uma Era Collor para o cinema nacional. Seria de tamanha estupidez parar com algo que já se mostrou consolidado de ‘n’ maneiras, não só com bilheteria, mas com reconhecimento da crítica do mundo inteiro.

capa 196
CONTINENTE #196  |  Abril 2017

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