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Diretor ao lado dos protagonistas do filme. Foto: Marcos Finotti/DivulgaçãoDiretor ao lado dos protagonistas do filme. Foto: Marcos Finotti/Divulgação

Da Bahia, onde trabalha na escrita de um novo roteiro, o cineasta Sérgio Machado falou à Continente por telefone sobre A luta do século, seu primeiro longa documental depois de Onde a Terra acaba (2002), no qual radiografava a figura do diretor Mário Peixoto (1908-1922) e o impacto de Limite (1931) no audiovisual brasileiro - até hoje, é tido em diversos fóruns como o melhor filme já rodado no país. Foram duas experiências distintas, como ele mesmo aponta: “No primeiro, havia o controle de tudo: o personagem principal estava morto, eu já não tinha mais história para contar. Parti para A luta do século muito preparado, já sabia que filme eu queria fazer: contar a história de dois homens, duas pessoas que se odeiam, mas que se necessitam, que não existem sem o outro, e falar de um país que esquece e não dá chance. Mas veio a vida e tudo saiu completamente do controle”. 

CONTINENTE Logo após a sessão na 40ª Mostra de Cinema de São Paulo, Lázaro Ramos nos relevou que, em princípio, o filme seria uma ficção. Como nasceu o documentário? 
SÉRGIO MACHADO Estávamos jantando um dia, eu, ele e Wagner Moura, procurando uma história para fazermos juntos, repetindo a parceria de Cidade baixa (2005), e alguém falou sobre Holyfield e Todo Duro. Lázaro disse que queria fazer Holyfield, Wagner faria Todo Duro e eu, que não sabia de nada daquela rivalidade, pedi um tempo para fazer uma pesquisa. Decidi fazer um pequeno documentário sobre os dois e Lázaro até brincou: “você vai se empolgar com o documentário e vai esquecer a ficção”. Foi o que aconteceu.

CONTINENTE Foi aí que veio a certeza de que ficção alguma seria melhor do que eles próprios? 
SÉRGIO MACHADO Na verdade, à medida que fui aprofundando, o documentário foi crescendo. A ideia era fazer um filme sobre dois lutadores famosos, que caíram no ostracismo, para falar também do Brasil, das impossibilidades de mobilidade social. A história virou à minha revelia em Salvador, no último dia de filmagens, quando o traficante Ravengar, que tinha acabado de sair da prisão, veio com essa ideia de fazer uma nova luta.

CONTINENTE Diante das câmeras, ele veio com essa “cartada surpresa”, do nada?
SÉRGIO MACHADO Tudo que eu queria era que não tivesse uma luta. Estávamos filmando, ele chega, pede o meu celular, liga para Todo Duro e inventa a luta. Obviamente, o documentário influenciou. Se não estivesse com aquela câmera ali, acho que Ravengar não teria dito aquilo. Então, é claro que o filme tem uma relação direta com a luta. A ideia original era que, no final, eles se encontrassem para uma conversa. Eu não queria terminar com nenhum dos dois vencendo. Pensava que eles poderiam se machucar – afinal, já são dois caras com mais idade, que subiriam ao ringue para trocar socos, e aquilo não poderia ser um bom final.

CONTINENTE Como incorporou essa novidade ao filme? 
SÉRGIO MACHADO Quando surgiu isso, joguei fora quase 90% do que tinha filmado. Fiz mais de 40 entrevistas das quais entrou quase nada. O filme virou completamente. Antes, A luta do século era a luta contra a pobreza, contra a ignorância, era um documentário sobre dois homens que foram tão famosos, mas talvez justamente por serem analfabetos, pretos e nordestinos, caíram no ostracismo. Era um filme pessimista, de certa forma, na largada, mas com a luta, virou outra coisa. Me mostrou, inclusive, que quando se trata de dois homens pretos, pobres e nordestinos, não dá para ser determinista em nada. Eu não fazia ideia, por exemplo, de que quando Holyfield se acidentou no incêndio, foi Todo Duro que fez uma campanha para arrecadar dinheiro, mesmo com aquele ódio todo. Quem acreditaria nisso? Mas eles podem e vão te surpreender. Há uma resiliência forte. Na teoria, o filme era uma coisa, e na prática virou outra.

CONTINENTE E se de fato houver a nova luta, para quem você torcerá?
SÉRGIO MACHADO Puxa...Para ninguém. Não posso torcer para nenhum dos dois. Me afeiçoei demais a eles para torcer para um machucar o outro.

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LEIA TAMBÉM:

O duelo de Todo Duro e Holyfield

 

 

capa 196
CONTINENTE #196  |  Abril 2017

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