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Premiado pelo júri popular do 49º Festival de Brasília, filme estreia no Brasil nesta quinta (13/4)

Vincent Carelli foca na questão da etnia Guarani-Kaiowá como símbolo de luta. Fotos: DivulgaçãoVincent Carelli foca na questão da etnia Guarani-Kaiowá como símbolo de luta. Fotos: Divulgação


Há cinema que fala sobre resistência, há cinema que usa da resistência para falar sobre si mesmo e há aquele cinema cujo corpo inteiro sua filmagem, montagem e exibição  é a resistência em si, um cinema que nasce com a tessitura do enfrentamento dentro e fora daquilo que ele enquadra. E este é o caso de Martírio, o novo filme do antropólogo, indigenista e documentarista Vincent Carelli, desta vez em colaboração direta com Ernesto de Carvalho e Tita, dois realizadores que dedicam suas vidas ao projeto fundado por Carelli em 1987, o Vídeo nas Aldeias. Juntas, essas e várias outras pessoas finalizaram esse que é o segundo filme de uma trilogia que, sem medo de ser leviana, vai se constituir no documento mais importante e completo já feito sobre a questão indígena no Brasil. Martírio, portanto, é um filme para sempre urgente, fundamental e medular no entendimento da nossa formação enquanto sociedade. Porque falar sobre como os índios são tratados no Brasil há mais de 500 anos é falar também sobre quem somos nós, os não-índios. E se ainda tivermos a cada vez mais rara capacidade de sentir empatia, a imagem que veremos de volta, no espelho involuntário em que tantas vezes se transforma a tela de cinema, o reflexo irá nos corroer.

 

“Nós (50 homens, 50 mulheres e 70 crianças) comunidades Guarani-Kaiowá originárias de tekoha Pyelito kue/Mbrakay, viemos através desta carta apresentar a nossa situação histórica e decisão definitiva diante da ordem de despacho expressado pela Justiça Federal de Navirai-MS, conforme o processo nº 0000032-87.2012.4.03.6006, do dia 29 de setembro de 2012. Recebemos a informação de que nossa comunidade logo será atacada, violentada e expulsa da margem do rio pela própria Justiça Federal, de Navirai-MS.”

 

Sobre esse reflexo e, portanto, sobre algo essencial a qualquer filme que é o momento em que ele é compartilhado publicamente, a sessão de sua estreia no Festival de Brasília precisa ser lembrada, ela mesma, como um acontecimento que pertence ao próprio documentário. O ano é 2016, nós, os não-índios, vivemos as primeiras semanas de um golpe político-jurídico-midiático no Brasil. Na cidade de Brasília, capital federal e lugar de onde saíram e saem as ordens de extermínio indígena, se chama para subir ao palco parte da equipe do filme. Como todas as sessões que precederam aquele momento, as pessoas em cena fazem sua manifestação pública contra o já citado golpe. O índio antropólogo Tonico Benites, figura essencial para realização desse documentário e tradutor de várias conversas, fala brevemente ao microfone. A projeção começa e já nos primeiros minutos surge a imagem da senadora Kátia Abreu como epítome de tudo aquilo que o país vem adotando como política desde que a coroa portuguesa fincou seus pálidos pés nas terras do “Novo Mundo”. O golpe, para os índios, acontece desde então. Todos os dias.

 

“Entendemos claramente que esta decisão da Justiça Federal de Navirai-MS é parte da ação de genocídio e extermínio histórico ao povo indígena, nativo e autóctone do Mato Grosso do Sul, isto é, a própria ação da Justiça Federal está violentando e exterminado e as nossas vidas.”


Dando sequência ao projeto que começou no momento da exibição de Corumbiara, em 2009 (o filme se encontra disponível, na íntegra, no YouTube) e que se encerrará com o já anunciado Adeus, capitão, Martírio é resultado de um longo trabalho de pesquisa de Vincent Carelli desde que, há mais de 30 anos, ele passou a ver e viver de perto a realidade de tribos indígenas sendo dizimadas no Brasil. No segundo longa desse projeto grandioso, Carelli concentra suas atenções na questão específica da etnia Guarani-Kaiowá, aquela mesma que, em 2012, fez com que milhares de brasileiros se solidarizassem com sua causa após uma carta pública endereçada ao Governo brasileiro, carta esta reproduzida aqui entre os parágrafos deste texto. A exemplo do filme anterior, Martírio tem uma estrutura aparentemente simples de narração em off do próprio Carelli e a montagem entre filmagens recentes e cenas de arquivo, pessoal e público, que cruzam a narrativa. É aparentemente simples porque flui muito bem nas quase três horas de projeção. Mas, na verdade, o trabalho de organizar o vasto material que se tem em mãos, cujo escopo remonta a períodos mais distantes em nossa História, é de fato um processo que exigiu da equipe desse filme um exercício bastante intricado de compreender esses momentos históricos numa cronologia e edição que, em nenhuma parte, perde o contato com o caráter afetivo pessoal no qual nasce o filme. Sua verdade está nesse cuidado em ser sincero com quem o faz e para quem ele se dedica.

 

“A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas? Para qual Justiça do Brasil? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós. Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos mesmo em pouco tempo, não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados a 50 metros do rio Hovy onde já ocorreram quatro mortes, sendo duas por meio de suicídio e duas em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas.”

 

Os momentos históricos que atravessam esse documentário dão conta dos vários processos de negação e extermínio da comunidade indígena brasileira, que remontam, em um primeiro momento, à Guerra do Paraguai e à subsequente concessão de terras que a recém-criada República concedeu ao comerciante Thomaz Larangeira, por serviços prestados na mesma Guerra do Paraguai. Surgia ali a Companhia Matte-Laranjeira e, com ela, a expulsão de milhares de índios Guarani-Kaiowá que habitavam a região do Mato Grosso do Sul. As plantações de erva-mate daquele momento são os infindáveis hectares tomados pela soja hoje. De lá para cá, o filme relembra episódios de massacre da vida e, fundamentalmente, da cultura indígena no Brasil. Houve o marechal Rondon, militar de origem indígena que, absorvido pelo positivismo da época, tentou catequisar os índios em sua missão sertanista; houve o desenvolvimentismo de Getúlio Vargas e o não-reconhecimento de terras indígenas asseguradas pela Constituição; houve o Golpe Militar e a imagem grotesca de índios militarizados batendo continência para Ernesto Geisel (e Martírio nos dá a cena devastadora de índios sendo usados pelo governo para desfilar com um homem em pau-de-arara); houve o tal processo de redemocratização e medidas nunca suficientemente efetivas para reconstituir a identidade e sobrevivência desses povos; e houve, finalmente, o mais recente projeto desenvolvimentista do país e sua sanha por um Brasil industrial e agropecuário de tratores, pistoleiros, deputados e senadores, ministras e ministros, presidente e presidenta que se empenharam, cada um a seu modo, em varrer do mapa a existência dos Guarani-Kaiowá.

 

“Moramos na margem do rio Hovy há mais de um ano e estamos sem nenhuma assistência, isolados, cercados de pistoleiros e resistimos até hoje. Comemos comida uma vez por dia. Passamos tudo isso para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay. De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários dos nossos avôs, avós, bisavôs e bisavós, ali estão os cemitérios de todos nossos antepassados. Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso, pedimos ao Governo e Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos aqui.”

 

Mas eles existem, e resistem. A terra, para essas pessoas, não é um espaço por onde se pode deslocar e construir memória onde e quando se quer. A terra, para essas pessoas, é a sua própria identidade. Retirados à força desses espaços que estão na constituição de sua própria existência, os índios sofrem uma fratura emocional que nós, não-índios, não conseguimos (ou não procuramos) entender. Muitas vezes empurrados pelo agronegócio para as beiras de estrada – e não é à toa que boa parte desse documentário acontece com a câmera dentro do carro, passando por caminhos cercados de indústrias, soja, pasto e concessionárias de carros –, a população indígena sobrevive em estado de vigília. Suas novas gerações já nascem sendo ensinadas e entender que podem morrer a qualquer momento.


Os atropelamentos, as balas disparadas por capangas de fazendeiros e, não se pode esquecer, os frequentes casos de suicídio testemunham o gradual aniquilamento dessas pessoas. E aí a equipe do Vídeo nas Aldeias, que se dedica desde os anos 1980 a levar conhecimento e equipamento em audiovisual para que os índios criem seus próprios registros e narrativas, é ela mesma uma personagem fundamental nessa história, particularmente quando, em uma das imagens mais fortes do filme, vemos finalmente as cenas capturadas por um índio que, “armado” com uma câmera digital de pequeno porte, consegue filmar pistoleiros atirando em direção à tenda onde vive uma família indígena. O cinema-resistência é, fundamentalmente, deixar que os espaços de registros sejam ocupados por aqueles que sempre foram ditos pelo outro.

 

“Sabemos que não temos mais chance em sobreviver dignamente aqui em nosso território antigo, já sofremos muito e estamos todos massacrados e morrendo em ritmo acelerado. Sabemos que seremos expulsos daqui da margem do rio pela Justiça, porém não vamos sair da margem do rio. Como um povo nativo e indígena histórico, decidimos meramente em sermos mortos coletivamente aqui. Não temos outra opção, esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS.”

 

No acampamento de Pyelito KueNo acampamento de Pyelito Kue

 

As imagens mostram homens e mulheres, todos brancos, numa reunião que eles chamam de “Leilão da Resistência”. A proposta é vender gado e, com o dinheiro arrecadado, se munir de um montante de dinheiro para combater as “invasões” dos índios em suas propriedades. Figuras políticas como a então ministra Kátia Abreu, o senador Waldemir Moka (PMDB-MS) e os deputados federais Luiz Henrique Mandeta (DEM-MS), Reinaldo Azambuja (PSDB-MS) e Fábio Trad (PMDB-MS) estão presentes. Seus discursos são acalorados. Falam fundamentalmente da “Propriedade”, de como ela é a fundação da família brasileira, de sua natureza “sagrada”. São cenas de horror, filmadas pela câmera, essa sim resistente, de alguém que estava lá como um corpo estranho para registrar que esses discursos são reais e carregam consigo um montante de ódio suficiente fazer mover um trator por cima de uma criança. As mulheres e homens brancos arrecadam R$ 1 milhão para agir contra os índios. A imagem do trator e da criança não existe no filme, mas podemos vê-la.

 

Posfácio: uma das sequências mais devastadoras de Martírio é um registro de arquivo (disponível na íntegra pelo YouTube), em que, no ano de 1987, o mesmo da criação do Vídeo nas Aldeias, vemos a liderança indígena Ailton Krenak, da etnia crenaque, fazendo um discurso na tribuna do Congresso Nacional, enquanto pinta seu rosto com a tinta preta do jenipapo. Reproduzo aqui, na íntegra, para efeito de registro textual, as palavras de Krenak naquele momento:

 

“Eu espero não agredir com minha manifestação o protocolo desta casa, mas eu acredito que os senhores não poderão ficar omissos, os senhores não terão como ficar alheios à mais essa agressão movida pelo poder econômico, pela ganância e pela ignorância do que significa ser um povo indígena. O povo indígena tem um jeito de pensar, tem um jeito de viver, tem condições fundamentais para sua existência e para manifestação da sua tradição, da sua vida, da sua existência, de sua cultura, que não coloca em risco e nunca colocaram a existência sequer dos animais que vivem ao redor das áreas indígenas, quanto mais de outros seres humanos. Eu creio que nenhum dos senhores poderia apontar atos, atitudes da gente indígena do Brasil que colocou em risco seja a vida, seja o patrimônio, de qualquer pessoa, de qualquer grupo humano nesse país. E hoje nós somos o alvo de uma agressão que pretende atingir, na essência, a nossa fé, a nossa confiança de que ainda existe dignidade, de que ainda é possível construir uma sociedade que sabe respeitar os mais fracos, que sabe respeitar aqueles que não têm o dinheiro pra manter uma campanha incessante de difamação, que saiba respeitar um povo que sempre viveu à revelia de todas as riquezas. Um povo que habita casas cobertas de palha e dorme em esteiras no chão não deve ser identificado de jeito nenhum como um povo que é o inimigo dos interesses do Brasil, inimigo dos interesses da nação e que coloca em risco qualquer desenvolvimento. O povo indígena tem regado com sangue cada hectare dos oito milhões de quilômetros quadrados do Brasil. Os senhores são testemunhas disso.”

 

Na mesma cidade de Brasília, 29 anos depois, no meio de uma sessão lotada de cinema, Krenak finalmente recebe uma contundente salva de palmas.

* Texto publicado em 23/09/2016, durante nossa cobertura do Festival de Brasília em 2016

capa 198
CONTINENTE #198  |  Junho 2017

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