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"Alguém para fugir comigo" é uma montagem não linear do Resta 1 Coletivo de Teatro. Foto: Mariá Vilar/Divulgação "Alguém para fugir comigo" é uma montagem não linear do Resta 1 Coletivo de Teatro. Foto: Mariá Vilar/Divulgação

Quando o fotógrafo mineiro Sebastião Salgado visitou 40 países, durante seis anos, suas lentes registraram a história. Sua sensibilidade para o humano fotografou migrantes e refugiados que, fugindo de suas terras para fugir da morte, vestiram-se involuntariamente do estigma de “invasores”, como está retratado em Êxodo, lançado pela Companhia das Letras. Essa perspectiva de fuga pode ser aplicada ao espetáculo Alguém para fugir comigo, do Resta 1 Coletivo de Teatro, vencedor do último Prêmio Apacepe de Melhor Espetáculo de Teatro Adulto, durante o 23º Janeiro de Grandes Espetáculos. A montagem cumpre primeira temporada no Recife a partir desta sexta-feira (24/3), indo até o dia 2 de abril, no Teatro Hermilo Borba Filho, a partir das 19h.

“Sebastião Salgado diz que mais de 50% da população (mundial) está em trânsito, isto é, tanto o turista, quanto o exilado e o refugiado. Três figuras em trânsito, mas de maneiras distintas. E o refugiado, que está espontaneamente fugindo, ele não resolveu ficar, porque se ficar, morre. O espetáculo é sobre isso, não ficar no mesmo lugar”, destaca Quiercles Santana, diretor do espetáculo. Embora a peça não seja necessariamente focada na questão dos refugiados, sendo este tema utilizado apenas como exemplo, o próprio nome, Alguém para fugir comigo, é um convite para emergir da “caixinha onde tudo faz sentido”.

Porém, para justamente instigar no espectador um pensamento provocante, a montagem apresenta-se de forma não linear: as 14 cenas não conversam entre si, além de representarem temas político-sociais, entretanto, não encarnados de forma contemporânea, que faça sentido a um primeiro olhar. Uma das primeiras cenas de Alguém para fugir comigo é uma cujo cerne criativo foca na corrupção. A escolha da direção, no entanto, foi não relacionar o tema ao Congresso Nacional, nos problemas da Lava Jato e da perseguição midiática, mas levar o espectador de volta ao tempo da escravidão. Ali, há um embargador que, ao entrar numa delegacia, denuncia uma negra que fugiu. Porém, estando o país na Lei do Ventre Livre, a polícia não poderia buscá-la; exceto, é claro, se a corrupção não culminar no sepultamento da lei. É o que propõe o embargador, ao oferecer dinheiro para o delegado, a fim de que ele se esqueça da lei. “Quando a gente faz isso, retrata-se o passado, porém, o país é o mesmo. A gente lança uma luz sobre a negra, não aquela negra ali representada, mas sim o significado dela perante a atualidade”, ratifica o diretor em entrevista à Continente. Começando a fazer conexões, monta-se um quebra-cabeça teatral, no qual a próxima cena já não conversa – de forma narrativa, ou de forma clara – com a antecessora.

Para ajudar a compreender, o próprio Santana apresenta a frase “Eu quero você de alguma forma”. Invertendo-se os polos das palavras, facilmente muda-se o contexto dela, por exemplo, “eu quero você de forma alguma”. “Todas as vezes que a gente mudava algo, elas passavam a dizer mais, ou a dizer menos. Ou uma dialogava mais ou menos com a antecedente. O que a gente tentou foi ver se essas cenas colocavam no espectador a atenção para a avaliar o que estava acontecendo. A gente resolveu não ir na tranquilidade, mas incitar o pensamento: o que isso tem a ver com o que vai acontecer? O que significa no contexto (da peça)?”.



AS MÚSICAS
Observando a não linearidade de Alguém para fugir comigo, elementos de construção narrativa ajudam a elaborar a montagem do coletivo pernambucano. Canções, imagens, provérbios etc. ajudam a compor o espetáculo que se ergue à frente do espectador. A curadoria responsável pela parte sonora da peça, o próprio diretor e Cleber Santana, focou em não oferecer a quem assiste um só estilo musical, mas uma variedade de gêneros e formas de música, utilizando até mesmo “hipnose” da música minimalista. Mexendo com o racional e o emotivo, Alguém não será sobre um ponto fixo, portanto. “A forma (de fazermos isso) foi que, musicalmente, a gente pudesse encontrar vários lugares, ter a sensação de ancoragem numa paisagem sonora”, elucida Santana.

Serviço
Alguém para fugir comigo
De 24 a 31 de março, 1 e 2 de abril; sextas e sábados, 19h; domingos, 18h.
Teatro Hermilo Borba Filho, Av. Cais do Apolo, Bairro do Recife.
R$ 30 e R$ 15 (meia)

capa 196
CONTINENTE #196  |  Abril 2017

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