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Marta Guimarães vocifera em cena o corpo da mulher. Foto: Wellington Dantas/DivulgaçãoMarta Guimarães vocifera em cena o corpo da mulher. Foto: Wellington Dantas/Divulgação

[releia texto sobre o espetáculo Grito, apresentado no Janeiro de Grandes Espetáculos de 2017]

Embora não seja uma exigência, a arte possui potencialmente um fio reflexivo acerca do homem e da sociedade: um espelho a meditar os pensamentos, as ideias, as vontades e, por que não, as lutas. No campo cênico, a performance é uma das vias para isso. Renato Cohen, professor da Escola de Comunicação e Artes da USP, autor do livro Performance como linguagem, fala que esse gênero é uma mescla de arte cênica e arte visual. A dança, então, pode ser considerada uma performance, na qual essa simbiose acontece, como é o caso do espetáculo Grito, do Coletivo Soma (PE), apresentado até este domingo (29/1), no Janeiro de Grandes Espetáculos.

Em Grito, a performance acontece antes mesmo de começar. Num ambiente escuro, neblinado por fumaça de gelo seco, espectadores – na maioria mulheres – dividem lugares no Espaço Experimental, às sombras do Recife Antigo. No palco à frente, duas mulheres vestidas de blusas-regata brancas e calcinhas militares transitam pelo palco como quem foge de inimigos. Não são somente passos apressados, respirações ofegantes, mas também lampejos de medo refletidos nos olhos das intérpretes-criadoras Marta Guimarães e Anne Costa. Correm ao redor do espaço, andam para trás, jogam-se ao chão. Suas silhuetas quase escapam na densa fumaça.

Assim, luzes laranja preenchem o palco, penetrando na neblina artificial, iluminando os corpos delas com mais nitidez. Jogadas ao chão, contorcem-se – suas faces contraídas de medo e repulsa –, empinam suas nádegas, ao mesmo tempo em que é possível ouvir gemidos de homens, como se estivessem numa relação sexual forçada. “O espetáculo não passa só pelo lugar da mulher violentada, ou de como essa agonia repercute no corpo dela, é um espetáculo que busca negar a violência na rua que temos medo de andar. Mostramos que é um local [de medo] que a mulher não precisa estar”, explica Marta Guimarães em entrevista à Continente. 

Anne Costa e Marta expõe questões urgentes. Foto: Wellington Dantas/DivulgaçãoAnne Costa e Marta expõe questões urgentes. Foto: Wellington Dantas/Divulgação


“É minha!”, bradam as duas quando os gemidos cessam e do chão se levantam. Olhavam furiosas para a plateia, especialmente para os homens, dando tapas em seus órgãos genitais e repetindo as palavras de posse. A antropologia do corpo, abordada pelo francês David Le Betron (Antropologia do corpo e modernidade), soçobra no corpo como uma simbologia, uma construção social e cultural. Se é assim, de que forma construímos as mulheres e seus corpos?

Quando as bailarinas despem-se para mais de 70 pessoas, num ato abrupto e, de certa forma, chocante, a simbologia encenada por elas é de "modelagem". O jogo de luz por trás de Marta, relembra as clássicas cenas do longa alemão Metrópolis (1927), de Fritz Lang. De sapatos altos e sufocada por um espartilho, a artista caminha como um robô (ou boneca) recém-saído de fábrica, a fábrica social, a indústria machista que insiste em querer modelar mulheres e, depois, abusá-las.

De efeito visceral e chocante, Grito é mais do que um espetáculo para mulheres. É, antes, para todos os homens que buscam subterfúgio na cultura machista, a mesma que faz de nós machos enlouquecidos pela libido, cães a farejar nossas mulheres. O trabalho da Soma é um manifesto, em forma de arte, que grita contemporaneidade, feminismo e sororidade. 

Informações sobre a programação do espetáculo no festival AQUI.

 

 

capa 198
CONTINENTE #198  |  Junho 2017

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