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[conteúdo na íntegra | ed. 197 | maio 2017]

"Chuva no Sertão" (obra de 2016). Imagem: Divulgação"Chuva no Sertão" (obra de 2016). Imagem: Divulgação


Se fosse
para ficar por ali, ele tinha se deixado estar na cidade pequena do interior mineiro, onde, criança, fez as brincadeiras que povoam nossa memória afetiva, de tomar banho de rio, desenhar com lápis de cor e ir à missa no domingo. Se fosse para não quebrar expectativas, já rapaz, tinha seguido o curso de Economia. Mas não foi assim. Aos 19 anos, ele saiu da pacata Janaúba, trancou a faculdade, e fez o que tantos fazem: migrou pra capital. Foi pra Belo Horizonte tentar outra vida, um princípio difícil, mas era já uma promessa, porque conseguiu trabalho para ilustrar um livro infantil.


Isso faz 25 anos e, vocês sabem, a vida não é conto de fadas, vai sendo vivida nos altos e baixos mesmo. Com Menote Cordeiro, hoje um homem de 45 anos, não tem sido diferente, mas ele pode dizer que encontrou o próprio caminho, construído pela experiência de trabalhar por duas décadas com ilustração para publicidade e identidade visual para projetos culturais, como autodidata. Menote conta que somente há 10 anos é que pôde se dedicar exclusivamente ao trabalho artístico, técnica que foi sendo depurada com o uso de lápis de cor, tinta a óleo, aquarela e, mais recentemente, caneta óptica, ferramenta que ele usa para desenhar no computador.

Embora seja interessante saber a respeito da técnica usada por ele, que hoje é quase toda digital – já que trabalha no computador, criando o que denomina de “retalhos e carimbos digitais”, em composições que equilibram com sofisticação o geométrico e o figurativo – o que certamente atrai os observadores de seus trabalhos é uma temática tradicional muito bem revisitada.

E, por tradicional, nos referimos a temas caros à pintura clássica: natureza/paisagem e religião/espiritualidade. Em síntese, podemos dizer que são esses os dois assuntos trabalhados e retrabalhados por Menote Cordeiro. O suporte em que o artista aplica suas composições não são os papéis e as telas, mas a madeira (trata-se de OSB, painéis de tiras de madeira prensada), sobre a qual se faz a impressão gráfica com tintas sem uso de solventes e, no caso dele, em grandes formatos. O processo é semelhante ao de impressão de gravuras, sejam elas xilos, litos, linos ou em metal, em que o artista cria uma matriz e a estampa em superfície. Menote cria uma matriz digital e com ela parte para o processo de reprodução, que, por sua vez, é também digital.



A história é boa sobre como Menote Cordeiro concebeu os seus “carimbos digitais”. Aquele menino de Janaúba ia à missa de domingo, que era proferida em latim. Ele não entedia nada e ficava extasiado em olhar para o chão coberto de ladrilho hidráulico, aquela beleza de composição geométrica e figurativa. Uma primeira epifania! “O piso da igreja foi minha primeira referência de Deus.”

A religiosidade, que aparece de modo tão plástico quanto devocional em seu trabalho, também está impregnada na sua história. “Os temas relacionados à espiritualidade e às imagens mágicas sempre me fascinaram”, diz. “Os santos, desde a adolescência, depois os devas hindus e, há 10 anos, os orixás.” Outra boa história pode ser contada sobre Menote, agora relacionada às divindades do panteão africano.

Como imprime suas obras em madeira, ele nunca conseguia trabalhar bem o azul nessa superfície amarelada, de modo que a cor era um “problema”. Ele foi para a beira do mar e fez uma promessa pra Iemanjá, de que se ele conseguisse o azul que tanto queria daria 10 gravuras a 10 mães. Foi assim que a mãe dos orixás inaugurou uma série de retratos de divindades africanas. “Depois do primeiro desenho, Mar de Iemanjá, veio a inspiração para fazer o Espelho de Oxum, em seguida, Ventos de Iansã e uma trindade de sagrado feminino se potencializava em imagens.”

Desde então, Menote produziu cerca de 40 imagens de 15 orixás, que está reunindo no livro Divinamentos – Orixás, disponível em versão digital, mas que ele pretende imprimir, quando achar que arrematou bem os estudos. Quando conversamos, ele estava às voltas com estudos sobre Iroco, associado ao tempo, e Ewá, filha de Nanã. São obras de beleza e vigor, que dignificam a tradição pictórica de cunho religioso.

[leia outros conteúdos na edição 197 da Revista Continente | maio 2017]

capa 199
CONTINENTE #199  |  Julho 2017

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