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[leia na íntegra este texto publicado na edição 194 da Continente (Fev 17)]


"Acima do nível do mar" (2006) usa cidade não como suporte, mas como um elemento vivo. Foto: Victor de Melo/Divulgação"Acima do nível do mar" (2006) usa cidade não como suporte, mas como um elemento vivo. Foto: Victor de Melo/Divulgação

Se houvesse passado
no vestibular para Biologia, que prestou na década de 1990, talvez Waléria Américo fosse uma das mais proeminentes cientistas do Brasil, dado o modo minucioso com que concebe e elabora suas performances, instalações e jogos imagéticos. A jovem que um dia quis se tornar bióloga, porém, foi levada pelos fluxos da vida a percorrer um caminho menos exato, mas não menos instigante. E, com quase duas décadas de produção artística, saiu dezenas de vezes da sua Fortaleza natal para experimentar processos criativos em Lisboa, Belo Horizonte, Hamburgo, Rio de Janeiro, Buenos Aires ou Belém.

É do signo do deslocamento que a artista visual cearense se alimenta, decerto porque o vislumbre da migração faz parte de sua constituição subjetiva desde sempre – os pais, comerciantes de Pedra Branca, sertão central do Ceará, partiram para “morar e viver na capital”. “Desde pequena, tenho esses projetos de vivência em trânsito. A travessia tem a ver com permanência em todos os lugares. Quando vou a uma cidade, não vou rápido; geralmente habito esse lugar para que ele possa se desterritorializar, saindo da ideia fechada de que se trata de uma cidade com nome X ou Y. Isso me alimenta a aura”, explica Waléria.

O mesmo se aplica às obras que imaginou na sua Fortaleza, a exemplo de Acima do nível do mar (2006). “É um muro na praia, como uma imagem que faz sentido no vídeo, mas também uma situação em que a performance possa existir na cidade naquele momento. A cidade não é um suporte, é um espaço vivo ao fundo”, condensa a artista. Em Des-limite (2007), vídeo que integrou Contraditório – 30º Panorama da Arte Brasileira, ficam evidentes algumas chaves para compreender sua trajetória artística: o corpo que se projeta para dentro da obra, a relação com a espacialidade e a reflexão acerca do estatuto da imagem.

Atravesso as janelas por fora, em um ato de desobediência, mas não falo de Waléria e, sim, de uma representação dos corpos possíveis. Assim como não se trata de um registro propriamente dito, porque não é cru. Há um pensamento imagético que me levará a criar o que vai existir depois”, pontua a artista. Doar (2006) e Pendular (2014/2015) são obras que também espelham tal imbricação entre corpo e ação, performance e transmissão, a partir da noção de atravessamento. Na primeira, ela cruza uma faixa de pedestres em Belo Horizonte, munida de 80 balões vermelhos; na segunda, puxa um piano antigo por uma corda.

Não sei qual o resultado final, mas são situações que passam por uma construção. Em Doar, sou um corpo que se fragmenta na cidade. Era preciso ter uma câmera do alto e uma outra a me acompanhar para registrar uma ação que durou segundos. Logo me arrancaram os balões”, lembra. Pendular, exibido no 19º Festival de Arte Contemporânea Sesc_VideoBrasil e desdobrado também em Arrasto (2015), traz Waléria Américo sob esforço: numa superfície de relva, ela arrasta um piano: “O ato performativo passa pela convivência com os espaços. Quando vou para a frente da câmara, crio uma imagem para existir no presente, ancorada no corpo performativo”.

Enquanto estudava Artes Visuais na primeira faculdade a oferecer o curso em Fortaleza, ela trabalhou como montadora nas exposições do Centro Dragão do Mar, o que ampliou sua consciência sobre a relevância das trocas criativas e sobre as camadas de força que revestem a obra quando nela mergulha, literalmente, de corpo e alma. Aos 37 anos, agora mestra em Arte Multimédia pela Universidade de Lisboa, Waléria Américo agradece os intercâmbios com artistas como Solon Ribeiro, Eduardo Frota e Alexandre Veras e curadores como Bitu Cassundé, Moacir dos Anjos e Ricardo Resende: “Conviver com os outros nos deixa mais vivos; as trocas nos fortalecem e potencializam nossas práticas”.

E, tal como a emular a calmaria dos barcos empilhados de Paragem (2014) ou a amplitude de Plano de fuga nº 1 (2009), ela propõe um jogo de “interação e imersão”. “Gosto das coisas livres, sem amarras; as pessoas é que vão dar o tom de como se relacionarão com aquilo. Para encontrar a imagem, hoje transito por um tempo mais dilatado. Desacelerei”, observa a artista visual, atenta às setas descritas por Guimarães Rosa em Grande sertão: veredas: “O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.

 

capa 198
CONTINENTE #198  |  Junho 2017

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