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Paulo Bruscky na exposição "Palarva". Foto: Breno LaprovíteraPaulo Bruscky na exposição "Palarva". Foto: Breno Laprovítera

 
Mais de 50 anos atravessam a trajetória do artista pernambucano Paulo Bruscky. São anos de um tempo passado, mas não de um tempo passado guardado nas gavetas da memória; um tempo que o constitui hoje. A exposição Palarva, em cartaz até 12 de fevereiro na Caixa Cultural Recife (Avenida Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife), com curadoria de Yuri Bruscky, perpassa esse tempo por meio de quase 550 obras produzidas pelo artista desde o final dos anos 1960.



Ao contrário das retrospectivas mais convencionais, que enfatizam uma espécie de evolução da técnica, ou associam a criação artística a acontecimentos históricos, por exemplo, Palarva evidencia um Bruscky cujas práticas e inquietações atuais são intercedidas pelo passado, em uma espécie de ligação temporal que não se dá como passagem, mas como acumulação.




Na mostra, vemos um artista de perfil verborrágico, excessivo, com um certo afã pelo colecionismo e pela acumulação. A exposição conta com obras oriundas de uma série de práticas experimentais, como poemas/processo, colagens, arte correio, registros de performance, vídeos, intervenções e poemas sonoros, e mostram a mente voraz de um artista que funciona como uma “usina criativa”, como define Paulo Meira, amigo e artista cujas criações possuem relação com os trabalhos de Bruscky.



ARTE-VIDA
De algum modo, as obras dele resultam de uma inquietação criativa que permeia o próprio viver, como se, enquanto vivesse, o artista fosse continuamente interrompido (ou afetado) por coisas, objetos, ideias ou imagens. Essa espécie de “maldição do artista”, que não dá sossego a quem se sente afetado, tocado ou perpassado pelas manifestações mais simples da vida, deu surgimento a vários trabalhos da exposição, sendo um deles a série Teste poético, da década de 1980.

Confira imagens da mostra feitas por Breno Laprovítera:


Após ter marcado uma reunião com um editor italiano, Bruscky decidiu comprar comidas e levar a um parque público em Amsterdam, onde morava na época. Enquanto comia e observava a paisagem, encontrou ao seu lado uma revista italiana que continha, nas últimas páginas, uma espécie de “quiz” poético. Uma das perguntas dizia: “Considerate l’incesto: a) Normale; b) Perverso; c) Fatale; d) Immorale; e) Affascinante; f) Inconcepibile”. “Me levantei correndo e fui para o hotel. Aquilo já era uma obra de arte pronta, só fiz as pinturas sobre as quais ficaram as perguntas”, conta o artista, com a naturalidade de quem vive em paz com este tipo de desassossego. As obras da série Teste poético possuem, então, trechos do “quiz” encontrado na publicação italiana e imagens do Brasil da década de 1982, recortadas das revistas que eram enviadas a Bruscky por sua família.



É preciso ressaltar que essa espécie de “maldição” é exatamente o motor criativo do artista. Bruscky coleciona revistas, folhetos, panfletos, manuais, bulas, garimpa objetos antigos, resgata coisas que vão para o lixo, fotografa tudo aquilo que o comove (“um artista de verdade sai sempre com uma câmera no pescoço”, diz). Guarda sargaço em envelope (“para guardar o cheiro do mar, tudo tem cheiro”, afirma), como se vê na obra Abra e cheira: a primeira lembrança é arte, de 1976, na qual ele envia um envelope com sargaço encontrado na Praia de Itamaracá a amigos e artistas, para que eles pudessem se lembrar do cheiro do mar.



INFLUÊNCIAS
Se não já estava evidente, para uns, a forte inclinação colecionista e acumuladora de Bruscky, a exposição Palarva deixa à mostra obras que resultam justamente da inquietação de um artista que quer apreender, a todo custo, o mundo que o rodeia. E foi justamente a ebulição criativa da “usina Bruscky” que levou os artistas Paulo Meira e Oriana Duarte a não só quererem tê-lo por perto como amigo e parceiro de trabalhos, como também a tomarem as obras do artista pernambucano como inspiração e influência artística. A Continente convidou ambos para que contassem um pouco mais sobre o modo como Bruscky os impactou artisticamente e os bastidores de décadas de muitas criações e produções, mas também de uma vida social que alimentava, provocava e transformava as inquietações de jovens artistas.

"Tratava-se de uma época na qual o artista não era um profissional do neoliberalismo que precisava produzir, produzir, produzir. A vida boêmia do artista, tão criticada, chega a alimentar as criações artísticas porque produzem experiências. Falo de uma vida boêmia que produz experiências que transformam, não daquelas vivências que esquecemos, que não nos afeta. Tivemos várias dessas com Paulo”, conta a artista Oriana Duarte. À Continente, ela narra abaixo como conheceu Bruscky e como se sentiu impactada por um de seus trabalhos:



OBRAS
Ao propor uma retomada das várias obras do artista, Palarva também oferece a possibilidade de o público entrar em contato – mais uma vez ou pela primeira vez – com criações que ficaram célebres no decorrer de sua carreira, a exemplo daquelas de arte correio que se tornaram emblemáticas da obra de Bruscky. Estão, na mostra, obras de arte feitas coletivamente a distância, por meio de postagens. Por exemplo, o artista pernambucano enviava uma imagem para outro artista; este, por sua vez, deveria interferir e enviar para o seguinte, a fim de que ele interferisse, e assim sucessivamente. “O que é interessante nessas obras é que você não sabia para onde elas iam no final. Como uma espécie de corrente, você mandava o artista interferir e enviar para outro, mas você também não sabia quem era o outro artista”, lembra Bruscky.

A mostra também conta com registros da performance OperAção nas cataratas, realizada em 2012 nas Cataratas do Iguaçu (PR), na qual o artista assume o papel do Dr. Paulo Bruscky, um artista "oftalmicologista". Diante das cataratas, vestido de médico, ele se propôs uma “ação para deleite dos olhos, que sempre serão responsáveis pelo que veem”, porque “saber ver as cataratas pode salvar o seu olhar”, como está escrito no panfleto que distribuiu aos turistas nos arredores das Cataratas do Iguaçu.

O curta-metragem Via Crúcis, de 1979, filmado em Super 8, também pode ser visto em uma sala reservada da Caixa. O vídeo mostra a escadaria de 365 degraus, cada um remetendo a um dia do ano, que dá acesso ao mirante de Gravatá e à igreja do Cristo Rei. A famosa Escada da Felicidade, também trabalhada pelo artista Marcelo Silveira. Parte das poesias sonoras de Bruscky, menos conhecidas pelo público, também pode ser ouvida na exposição. Neste primeiro semestre, aliás, será lançado um box com todas elas, patrocinado pelo colecionador de arte Pedro Barbosa. Nele, haverá um livro com esboços e desenhos do artista e dois CDs contendo uma produção de poesia sonora que se forma desde a década de 1970. Entre as obras, um “concerto celulacional”, no qual 100 telefones tocam sons diferentes ao mesmo tempo, e “ronco dos brônquios”, uma espécie de ausculta dos brônquios do artista, que se tornam audíveis através de equipamentos de gravação específicos.



Depois do Recife, a mostra segue para a Caixa Cultural Rio de Janeiro (junho a agosto de 2017) e a Caixa Cultural São Paulo (janeiro a março de 2018).

No link abaixo, veja a exposição em 360º, registrada por Breno e Gabriel Laprovítera:
http://revistacontinente.com.br/360/


Serviço
PaLarva – Poesia visual e sonora de Paulo Bruscky
Na Caixa Cultural Recife (Avenida Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife)
Visitação: até 12 de fevereiro de 2017, de terça a sábado, das 10h às 20h; aos domingos, das 10h às 17h
Entrada gratuita
Fone: (81) 3425-1915

capa 199
CONTINENTE #199  |  Julho 2017

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