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Foto: Cortesia Mendes Wood DM, São PauloFoto: Cortesia Mendes Wood DM, São Paulo

 

O valor da etimologia pode ser facilmente verificável ao leitor que se permitir abrir o dicionário e procurar, por exemplo, pelo verbete trabalhar. Para além das definições evidentes, que sabemos de modo empírico ao sermos, com frequência, lembrados de seu valor físico, psíquico e material, deparamo-nos com a raiz do termo, o qual remonta ao século XIII: do latim tripalium, seu significado remete a um instrumento de tortura. Ao longo de um mês, três pessoas – devidamente contratadas com salário-mínimo em carteira assinada – deveriam comparecer diariamente a uma galeria de arte e permanecerem deitadas em uma rede durante oito horas. Eis o breve resumo da instalação intitulada Trabalho, idealizada pelo artista mineiro Paulo Nazareth. O que interessava a Paulo era investigar as relações empregatícias a partir de outro ponto de vista, deslocando sentidos e ressignificando o conceito. O artista conta que a experiência chegou a ser maçante para os três voluntários, e houve, inclusive, uma desistência – o que denota que a “tortura” estava mais ligada à obrigação em si e menos ao tipo de atividade que se exerce.


Nascido em 1975, em Governador Valadares, Nazareth é bacharel em Desenho e Gravura pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Estudou Linguística na mesma instituição e aprendeu as técnicas do entalhe em madeira com o artista popular baiano Mestre Orlando. São muitos os desdobramentos das atividades artísticas que desenvolve: desenho, performance, vídeo e instalação fazem parte do seu escopo criativo. Ainda que repletas de pluralidade entre si, as obras de Paulo Nazareth convergem ao que poderíamos tomar emprestado da definição do filósofo e crítico francês Nicolas Bourriaud, que, nos anos 1990, cunhou o termo “estética relacional”, para a qual “a obra de arte nega o artista como sua origem única, isto é, trata-se de uma situação compartilhada, que implica o espectador”.


É por meio de situações compartilhadas que muitas das obras de Nazareth se projetam. Um homem (ele mesmo) vai até uma cafeteria com um pedaço de carne crua no rosto, senta-se e faz tudo o que todos no local fazem, come e bebe enquanto equilibra o pedaço de carne. Em outro momento, o artista segue caminhando ou de carona, de Belo Horizonte até Brasília, depois até Nova York (este último percurso durou cerca de seis meses e deu origem à residência em trânsito Notícias da América), fotografando lugares, pessoas, intervindo no meio com cartazes ou imagens, juntando tampinhas de garrafa, raízes de plantas nativas, tudo isto descalço, “transportando a poeira”, em suas palavras – por cada lugar por onde passa, Paulo Nazareth toma um pouco para si e devolve em forma de arte (numa de suas placas, lê-se: “Esta é uma ação artística. Arte-vida. Eu sou um performer. Você é parte desta arte. Colabore!”).


Em uma barraca no meio da feira de Palmital, Santa Luzia, na Região Metropolitana de Minas Gerais, em vez de frutas ou legumes, Paulo vende pequenos objetos artísticos, utilizando técnicas de arte postal ou panfletos, e é possível comprá-los por R$ 1. A ironia, outra marca de suas obras, é evidenciada no nome do “empreendimento”: Paulo Nazareth, Arte Contemporânea/LTDA.


É numa espécie de corda bamba, entre o mercado da arte e sua negação, que se equilibra com argúcia Paulo Nazareth, explorando as fissuras do entrelugar, daquilo que é considerado canonicamente artístico e do cotidiano em toda sua trivialidade. Convidado para as bienais de Veneza e Lyon, Nazareth não só recusou comparecer ao continente europeu, como se colocou um desafio: pisar, antes, em todo o território africano, tal qual um andarilho, em busca de redescobrir conexões e raízes. Ele ainda criou uma bienal paralela, com uma galeria-residência, noutra Veneza, situada na porção norte do município mineiro de Ribeirão das Neves, sua “Bienal imaginária”, fincada no chão de suas vivências e aberta aos moradores de lá – estes que, possivelmente, não pisariam em qualquer outra bienal. Para citar novamente Bourriaud, os trabalhos de Nazareth podem ser vistos como “obras que já não perseguem a meta de formar realidades imaginárias ou utópicas, mas procuram construir modos de existência ou modelos de ação dentro da realidade existente, qualquer que seja a escala escolhida pelo artista”.

 

capa 199
CONTINENTE #199  |  Julho 2017

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