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Temporada: A água que atravessa tudo

Com diálogo entre projeção cinematográfica, áudio e dança, espetáculo verte em dança contemporânea conto A enchente, de Hermilo Borba Filho

TEXTO Guilherme Novelli

01 de Março de 2016

'A enchente' é baseado no conto homônimo de Hermilo Borba Filho

'A enchente' é baseado no conto homônimo de Hermilo Borba Filho

Foto Danilo Galvão/Divulgação

Uma criada zela pelo cadáver do seu antigo senhor, em meio a uma enchente no engenho. A água entra por todo lado, vinda da chuva e do rio que transbordou. O defunto se separa do próprio caixão pela força da corrente e começa a bater nos móveis. Uma cadeira se choca contra o corpo da criada, mas ela não desiste de seu objetivo. “Seu antigo senhor está morto, mas ela é tão servil, que ainda assim precisa salvar o cadáver da enchente”, descreve Flávia Pinheiro, diretora do espetáculo de dança A enchente. Baseado no conto homônimo de Hermilo Borba Filho, o trabalho fica em cartaz entre 16 e 26 de março, no teatro que leva o nome do escritor, no Bairro do Recife, através do projeto O Solo do Outro.

Corpos que atravessam o espaço e que se atravessam entre si, com uma fluidez característica da força da água. “Dos quatro contos propostos no edital, escolhemos esse e trabalhamos com as qualidades da dança moderna de Rudolf Laban, a textura do movimento, pensando nas características da água (leveza, contínuo, fluido, em deslocamento através do ar). Além disso, Maria Paula Costa Rêgo, nossa dramaturga corporal, também ajudou bastante nesse trabalho com as três performers”, explica Flávia. “É uma água que atravessa, cachoeira, que vai com tudo.”

O espetáculo tece um diálogo entre projeção cinematográfica, áudio, dança e é dividido em três partes. Na primeira, um prólogo sobre o rio citado no conto. Todas as imagens projetadas têm relação com o movimento do rio e o corpo das performers segue esse movimento. A segunda parte é a relação, no conto, da mulher com o defunto e os objetos que se chocam contra eles. Tudo no plano da matéria, da relação física. As bailarinas/performers Gardênia Coleto, Marcela Aragão e Marcela Filipe trabalham neste impacto físico com os objetos. “A terceira parte é um delírio, sai do conto e amplia a ideia de enchente numa simbologia de ‘enchentes humanas’, imigrantes tentando entrar na Europa, por rio, por água, por terra… Ou do México para os EUA. Multidões passando, num momento bem oportuno para falar dessa relação de vida e morte, justamente, a ideia do conto, se a água traz a vida ou a morte. Aí, trabalhamos, de forma quase literal, com imagens midiáticas dos imigrantes projetadas. As bailarinas estão tensionando um fio que está quase quebrando”, descreve a diretora.

Fica marcada no conto a ideia de gênero, a mulher empoderada, mas que não consegue salvar o cadáver. “Nós escolhemos, filosoficamente, falar sobre essa ideia de vida e morte, já que na contemporaneidade isso é algo complicado. Quem é que faz morrer e quem é que faz viver? Quem eu deixo entrar e quem eu deixo sair?”

ADAPTAÇÃO
“Aqui estou eu, de pés plantados na terra, vomitando palavras.” Hermilo Borba Filho escreveu peças para teatro e escritos sobre o ator e sobre teoria teatral, mas não escreveu nada sobre dança. Suas histórias têm muita referência ao corpo, ao carnal, às mulheres, ao sexo. “Ele era uma pessoa muito ligada às coisas da terra, tinha uma personalidade mais dionisíaca do que apolínea. Dionisíaca no sentido carnal, visceral”, comenta Leandro Oliván, autor do desenho audiovisual do espetáculo.


Três performances traduzem em movimentos o conto de Hermilo.
Foto: Danilo Galvão/Divulgação

Filho de um senhor de engenho de Palmares, Pernambuco, Hermilo se mudou para Recife na adolescência após a falência de sua família. Na vida adulta, carregava consigo a contradição do passado aristocrático e um presente que buscava desligar-se dele. “Queríamos pôr em cena essa contradição entre o aristocrata e o homem do povo, trazer à tona essa característica de Hermilo com imagens dele, mas ressignificando a sua história. Acabamos criando um personagem dele nos vídeos para contracenar com a dança. Usamos imagens de cineastas do cinema experimental Found Footage e comecei a desenvolver uma narrativa visual de como teria sido a infância de Hermilo”, conta Leandro.

Numa das cenas, as bailarinas manipulam tábuas de madeira. Ao mesmo tempo, são projetadas em vídeo várias imagens de mulheres famosas da história do cinema experimental mundial. “Imagens conhecidas do cinema para falar sobre as mulheres, o trabalho delas, criando a ideia ficcional de colocarmos Hermilo naquele universo feminino. Colocamos um monte de mulheres e o Hermilo criança, crescendo, no teatro”, explica Flávia.

PROJETO
Idealizado pelo produtor cultural e artista Arnaldo Siqueira, em 2002, o projeto O Solo do Outro é voltado para o diálogo e o intercâmbio da criação artística, juntando artistas com percursos e formações distintos num mesmo local, e propondo uma provocação para tirá-los de uma zona de conforto: “Comecei a perceber que no Recife, e não apenas no Recife, o diálogo sobre criação artística é um pouco engessado. No Brasil, há bons artistas, mas pouco diálogo sobre o processo de criação. São vários nichos, mas pouco intercâmbio de ideias”, opina Arnaldo.

O modelo do projeto, realizado desde a sua criação no Centro Cultural Apolo Hermilo, através da Prefeitura do Recife, foi inspirado nas residências artísticas muito comuns nas artes plásticas, em que vários artistas/criadores ocupam um mesmo local durante um período de tempo e convivem lado a lado. “O segundo ponto foi, justamente, colocar os artistas em contato uns com os outros e também com alunos e o público interessado, juntar opiniões bem diferentes sobre o fazer artístico e colocá-las como em atrito, conflito de estéticas e poéticas, apostando num resultado a partir desse cruzamento, já que nas artes cênicas existe mais tensão nas relações do que ações complementares”, continua.

A atual coordenação do projeto é de Carlos Carvalho, diretor do teatro Hermilo Borba Filho e um estudioso da obra do escritor. A proposta do atual edital é levar Hermilo para a dança. “Carlos veio com a ideia, escolheu quatro contos do escritor e me consultou. Eu disse que o desafio seria bom, já que Hermilo era dramaturgo e teórico do teatro, mas não chegou a trabalhar com dança. A gente anteviu que poderia ter substância ali, ser um bom substrato para a criação”, revela Arnaldo. 

GUILHERME NOVELLI, jornalista e antropológo, colabora para revistas culturais e científicas.

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