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Instituições: Produção relevante em outros acervos

Museus Bispo do Rosário, na extinta Colônia Juliana Moreira, e Osório César, no Hospital Psiquiátrico do Juquery, revelam potência artística de internos

TEXTO Marcelo Robalinho

01 de Maio de 2016

Obras de Artur Bispo do Rosário

Obras de Artur Bispo do Rosário

Foto Reprodução

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 185 | maio 2016]

O uso da arte como recurso terapêutico e o reconhecimento do valor artístico das obras feitas por pacientes psiquiátricos não são exclusivos do Museu de Imagens do Inconsciente. A extinta Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá (RJ), e o Hospital Psiquiátrico do Juquery, em Franco da Rocha (SP), também tiveram uma produção relevante nesse sentido. Grande parte do material das duas instituições se encontra preservada em acervos dessas duas instituições, além do Museu de Arte de São Paulo (Masp).

Na capital carioca, o Museu Bispo do Rosário de Arte Contemporânea é referência na produção artística de pacientes com histórico de sofrimento psíquico. Localizado no Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira, complexo de saúde mental ligado à Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, o espaço conta com cerca de 1.500 obras produzidas por internos. Dessas, 804 são de Arthur Bispo do Rosário. Bispo do Rosário nasceu em 1911, em Japaratuba, município do Vale de Cotinguiba, zona norte de Sergipe. Em 1925, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou na Marinha e na companhia de eletricidade Light. Também foi lutador de boxe.

Acometido por um delírio místico em 1938, no qual se viu como um enviado dos céus para julgar os vivos e os mortos, Bispo do Rosário foi diagnosticado com esquizofrenia paranoica e internado no Hospício Nacional dos Alienados, na Praia Vermelha, sendo transferido posteriormente para a Colônia Juliano Moreira. Entre as décadas de 1940 e 60, alternou períodos de alta e internação, até permanecer definitivamente na Colônia. Lá, iniciou sua rica produção de estandartes, composta de fragmentos de tecido, linhas e objetos usados, como canecas, pedações de madeira, arame, vassoura, papelão, fios de varal, garrafas e outros materiais.

“Todo o processo dele foi bem independente, sem orientação de qualquer ordem. Tinha um contexto em que Bispo foi trazendo elementos e influências para dentro de suas obras. Sabemos, por exemplo, que havia uma referência das festas de reisado e do folclore de Sergipe na fabricação de seus brinquedos, quando criança, e de seus estandartes e bordados produzidos posteriormente”, comentou a diretora do museu, Raquel Fernandes.

Bispo do Rosário ficou famoso como artista visual a partir de 1980, depois de aparecer numa reportagem de TV. Em 1982, a convite do crítico de arte Frederico Morais, ele expôs seus estandartes em À margem da vida, mostra coletiva realizada no MAM-RJ com pessoas marginalizadas na sociedade. Foi a única exposição que ele autorizou. “A partir daí, ele recebeu vários convites para expor, mas não concordou mais, possivelmente pela dificuldade de se separar de sua obra. De alguma maneira, era parte dele. Não via como obra de arte, mas uma missão que tinha na Terra, porque era obrigado a fazê-la. Vários críticos diziam que o que ele fazia não era arte, porque não havia uma intencionalidade. Mas a forma como ele organizava isso era artística, a forma como criava as vitrines, muito particular, não tinha a ver com a esquizofrenia”, considerou Raquel Fernandes, que também é médica psiquiatra e com formação em cinema.

Agora em maio, o Museu Bispo do Rosário está fechado, porque se prepara para uma exposição, que iniciará no dia 4 de junho. Sob o título Das virgens em cardumes e a cor das auras e com curadoria de Daniela Labra, a mostra reúne obras de artistas brasileiros contemporâneos de caráter performático e multimídia, com o intuito de estabelecer um diálogo com a obra de Bispo do Rosário.

A primeira experiência museográfica da Colônia Juliana Moreira data de 1952, com a criação de um departamento para abrigar a produção dos pacientes da unidade que participavam dos ateliês de arteterapia da época. O setor era intitulado Egaz Muniz, em referência ao criador da operação de lobotomia. Em 1982, passa a se chamar Nise da Silveira, em homenagem à psiquiatra. Com a morte de Bispo do Rosário, em 1989, suas obras integram o acervo do museu. Devido à vinculação feita entre as obras dele e a psiquiatra alagoana, que nunca chegou a trabalhar na Colônia Juliano Moreira, o museu muda novamente seu nome, em 2000, para Museu Bispo do Rosário. O termo “arte contemporânea” foi acrescido em 2002, justamente para reafirmar a presença de Bispo do Rosário no cenário da arte. O acervo foi tombado pelo Instituto Estadual de Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro (Inepac) e se encontra em processo de catalogação.

A experiência mais antiga nesse campo vem de Franco da Rocha. Lá, Osório Thaumaturgo César (1895-1979), médico psiquiatra do Juquery, propôs a pesquisa e a utilização da arte como alternativa para o tratamento dos internos, assim como Nise da Silveira, só que de um modo diferente. As atividades começaram a ser realizadas a partir de 1925, ainda de forma embrionária, dentro de práticas artísticas incentivadas pelos médicos da instituição, que levavam papéis, lápis grafite e lápis de cor para os pacientes que faziam sulcos ou desenhavam nos muros do hospital.

O primeiro artigo de Osório César sobre os fatores psiquiátricos que mobilizavam a produção plástica dos pacientes foi publicado nos anos 1920. “Seguindo o pensamento de psiquiatras com formação em História da Arte ou que demonstravam interesse pela arte, como Hans Prinzhorn, Walter Morgenthaler e Jean Vinchon, principalmente Prinzhorn, César compreendeu que a necessidade do alienado de se manifestar plasticamente não era uma consequência do estado doentio, como defenderam alguns psiquiatras, mas procedia da capacidade humana de organizar ideias e sentimentos por meio de imagens”, revelaram as professoras Rosa Cristina Maria de Carvalho e Lucia Reily, em artigo para a revista ArtCultura sobre a produção artística do Juquery.

Em 1956, Osório César fundou a Escola Livre de Artes Plásticas no hospital. “Osório já vinha de um processo que envolvia o Museu de Arte Moderna de São Paulo. Teve contato com Tarsila do Amaral, com quem chegou a viver por uma época. Por conta desse contato, ele desenvolveu junto aos pacientes uma teoria da recuperação psiquiátrica através da arte. E, com o arquiteto Flávio de Carvalho, promovia exposições com os pacientes que achavam ter dote artístico”, lembrou Pier Paolo Pizzolato, diretor técnico e responsável pelo Núcleo de Acervo, Memória e Cultura do Juquery.

O núcleo é hoje responsável pela proteção do acervo do Museu Osório César, ligado à Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo. Estima-se um total de 8 mil obras, das quais 2 mil são da fase inicial do museu. Cerca de 300 obras desse quantitativo estão catalogadas.

Desde o final de 2014, o Museu Osório César reabriu as portas ao público. A abertura do museu aos domingos (o último do mês, das 9h às 12h) coincide com o dia em que o passeio público de Franco da Rocha é interditado ao tráfego de veículos. As visitas são gratuitas, mediante agendamento.

A proposta de reabertura do Juquery se deveu à exposição Histórias da loucura: desenhos do Juquery, realizada ano passado pelo Museu de Arte de São Paulo (Masp). A mostra reuniu 101 desenhos feitos por internos do hospital psiquiátrico, sendo 42 só de Albino Braz, que ganhou uma sala reservada, em função da quantidade. Os demais desenhos foram de Pedro Cornas, J. Q., Claudinha D’Onofrio, Pedro dos Reis, Sebastião Faria, A. Donato de Souza, Marianinha Guimarães, Armando Natale, Augustinho e H. Novais. 

MARCELO ROBALINHO, jornalista, mestre em Comunicação , com estudos sobre comunicação e saúde

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