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Descansar, um bom negócio

O setor corporativo rende-se a técnicas que visam a pausa e o lazer no trabalho e investe num repouso lucrativo

TEXTO Thiago Lins

01 de Março de 2012

A empresa australiana Metronaps é pioneira na área de equipamentos para descanso

A empresa australiana Metronaps é pioneira na área de equipamentos para descanso

Foto Divulgação/Metronaps

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 135 | março 2012]

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As palavras soam como slogans para aparelhos portáteis, mas servem à divulgação de uma cama – ou da cama do futuro, que chegou primeiro na Austrália. É lá que fica a sede da Metronaps, pioneira na “manutenção de fadiga” – um nicho promissor. Especializada em equipamentos para descanso, que vão de fones de ouvido a softwares, a empresa adota um marketing agressivo. “Resumidamente, a fadiga está matando a nação. Olhe bem ao seu redor, e verá que a afirmação é verdadeira”, garante o texto de apresentação no site da empresa. O fato é que a Austrália tem uma média de horas de sono entre as mais baixas do mundo – em torno de sete. E a maioria dos mortais gostaria de poder dormir mais um pouco.

Propondo o serviço como uma solução corporativa, a empresa já construiu filiais nos Estados Unidos, Dinamarca, Alemanha e Inglaterra. O negócio é levado tão a sério, que a Metronaps contratou os engenheiros automotivos mais disputados da Alemanha para projetar a cápsula de descanso Napshell.

A cápsula, de design futurista, parece ter sido encomendada pela Nasa. Toda branca por fora, com linhas suaves e um formato que se assemelha a um bico de tucano, emite sons e luzes relaxantes, e já foi adotada em megaempresas como a Procter & Gamble, que divulga abertamente o uso dela em suas unidades, escolha que “renova as energias dos empregados”. Outras gigantes, principalmente do ramo da tecnologia, como a Google e a Cisco, já incorporaram a “política de recarga”. Sem falar no governo de Queensland, estado do nordeste da Austrália. Em Pernambuco, o Cesar (Centro de Estudos Avançados do Recife, parte integrante do polo Porto Digital) ainda não foi tão longe, mas já disponibiliza uma sala com pufes para que os funcionários descansem.

Mas não é toda empresa que tem o privilégio de manter um espaço só para descanso. É por isso que estão aparecendo as “casas de cochilo”. No Brasil, elas são mais presentes em São Paulo, cidade onde as pessoas apressam o passo até na escada rolante. São lugares com poltronas, redes e pufes. Na capital paulista, até restaurantes reservam espaço para a soneca, como o Bello Bello, situado na zona oeste. O antigo e ocioso porão do local virou uma sala de repouso, com quatro futons. Embora a frequência tenha aumentado após a mudança, velhos hábitos (como o de reservar o horário de almoço ao pagamento de contas e à busca dos filhos na escola) ainda geram alguma resistência.


Em Devagar, o jornalista Carl Honoré narra sua jornada junto a um movimento europeu que prega a desaceleração. Foto: Divulgação

Em outra grande cidade brasileira, o Rio de Janeiro, outra casa de cochilo atende seus clientes com mais tecnologia. O espaço Pausadamente foi concebido para sugerir repouso, a começar pela arquitetura. O lugar é desenhado em linhas curvas, para facilitar o fluxo de energia. Ele ainda conta com luzes coloridas e em degradê que seguem conceitos de cromoterapia (prática que busca a harmonia do corpo e da mente). As cabines são equipadas com poltronas especiais, inspiradas no modelo que a Nasa adota em situações de gravidade zero. O cliente fica deitado com os joelhos acima do nível do coração, o que produz uma sensação de relaxamento. De acordo com a empresa, a posição ainda reduz os batimentos cardíacos.

BEST-SELLERS
Descansar tem se revelado um bom negócio, também, no campo literário. Desde o lançamento de O ócio criativo (Domenico de Masi), diversos escritores têm obtido sucesso na apologia ao descanso. Depois do best-seller, vieram obras como Devagar, do jornalista escocês Carl Honoré. O livro é resultado de uma pesquisa envolvendo entidades de um movimento europeu que preconiza a desaceleração, e narra a jornada de Honoré em meio a espaços de retiro.

Mais recentemente, o americano Timothy Ferris alcançou o topo da lista dos mais vendidos com o inusitado Trabalhe quatro horas por semana. Ferris, um palestrante de mão-cheia, premiado até pela conceituada revista de tecnologia Wired, prega no livro a “ignorância seletiva”. O autor, que trabalhava oito horas por dia, foi reduzindo a carga, até que chegou às quatro horas, sem deixar de viajar e investir (menos) na aposentadoria.

Antes um bem-sucedido professor de Princeton, Ferris mudou de vida após a namorada acabar o relacionamento, deixando-lhe o recado: “Seu trabalho deveria acabar às cinco da tarde”. Depois do rompimento, ele abandonou o emprego e viajou por 18 meses, num longo sabático. Então, de um professor com apego excessivo ao trabalho, ele passou a exemplo de como realizar-se pessoalmente aconselhando os indivíduos a não negligenciarem outros aspectos da existência. 

THIAGO LINS, estudante de Jornalismo e estagiário da Continente.

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