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'Faz que vai": Versões para a dança do frevo

Projeto de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca reúne fotografias, documentários e videoinstalação em que o gênero pernambucano funde-se a ritmos populares atuais

TEXTO Luciana Veras

01 de Junho de 2015

Ryan evoca a cena electro no gestual e na caracterização

Ryan evoca a cena electro no gestual e na caracterização

Foto Pedro Sotero/Divulgação

Muitas são as certezas e algumas as incógnitas a respeito das origens do frevo, gênero musical e da dança cuja sinonímia primária dá-se com o carnaval pernambucano. Do ferver veio a palavra e, do verbo, fez-se a dança da carne, com acrobacias e passos de causar inveja a capoeiristas ou lutadores. Uma das vertentes históricas aponta similaridades entre a sonoridade do patrimônio imaterial da humanidade, declarado pela Unesco em 2012, e o compasso das bandas que capitaneavam os desfiles militares, como sustenta a pesquisadora norte-americana Katarina Real em O folclore no carnaval do Recife (1990). Outras enxergam semelhanças com a polca ou mesmo a quadrilha junina. O olhar para o passado, provavelmente, não revelará muito além do que já se documentou. Mas, e o porvir?

Os artistas visuais Bárbara Wagner e Benjamin de Burca apresentam uma hipótese em Faz que vai, exposição em cartaz no Capibaribe Centro da Imagem – CCI, no Bairro da Boa Vista (Recife), a partir de 17 de junho. Integram a mostra uma videoinstalação de 12 minutos; quatro conjuntos de fotografias lenticulares – em que a imagem é impressa numa fusão de camadas que causa a impressão de movimento; dois curtas-metragens garimpados no acervo da Fundação Joaquim Nabuco – Olha o frevo, rodado em 1967, em 16 mm, por Rucker Vieira (1931–2001), e Trajetória do frevo, em 35 mm, dirigido em 1988 por Fernando Spencer (1927-2014) –; e a reprodução da partitura de um frevo-canção inédito de Nelson Ferreira e Sebastião Lopes. Trata-se de Picadinho do faz que vai, mas não vai, composta para piano entre 1940 e 1945, que ainda está à espera de gravação no arquivo da Fundação Joaquim Nabuco.

Faz que vai denomina, também, um passo de frevo. Esse universo festivo de Momo atraiu o olhar de Bárbara Wagner em 2014 e, por conseguinte, o de Benjamin de Burca. A brasiliense, formada em Jornalismo pela UFPE, conheceu o alemão na Holanda, quando fazia mestrado no Dutch Art Institute. Casaram-se, viveram em Berlim e construíram uma relação de parceria afetiva e artística – é comum, por exemplo, assinarem Wagner de Burca. No regresso ao Recife, em 2012, Bárbara se confrontou com uma nova realidade. “Cheguei com Benjamin e pensei: o que fazer no Recife como artista? Como representar visualmente essas articulações entre tradição e progresso? Sempre fui uma fotógrafa do documental, que via no artista a função de investigar a realidade e, na arte contemporânea, um meio de compreender o mundo.”

O conjunto de obras de Faz que vai nasceu da vontade de empreender “uma investigação das convenções”, determinação presente em sua trajetória desde a série Brasília Teimosa (2006), nas fotografias de integrantes de maracatu rural em A corte (2013) e amplificada em Edifício Recife (2014), em que ela e de Burca aliaram a fotografias de obras de arte, instaladas em prédios residenciais da cidade, comentários dos respectivos porteiros. Reunidas em 22 trípticos, as imagens estiveram no 33º Panorama da Arte Brasileira do MAM/SP (2013).


Bhrunno mescla a rapidez dos passos tradicionais ao vigor baiano.
Foto: Pedro Sotero/Divulgação

Em janeiro deste ano, eles voltaram a questionar as representações da realidade em É como se fosse verdade, projeto da Prefeitura de São Paulo para que os artistas fotografassem transeuntes em um terminal de ônibus de Cidade Tiradentes, na Zona Leste, e os reinserissem na sociedade em capas de CD, concebidas mediante as especificações apontadas em questionários.

ELECTRO, FUNK, SUINGUEIRA
A minúcia com que conduzem o processo criativo alia-se ao acaso. Bárbara e Benjamin passavam uma temporada em Olinda, coletando informações para a série da Orquestra pernambucana de fotografia, publicação idealizada por Gilvan Barreto com o intuito de pôr em diálogo fotógrafos e músicos, quando começaram a observar a relação que a juventude contemporânea – personificada em rapazes contratados para dançar frevo para os clientes de uma loja de artesanato – tinha com o frevo. “A transição da tradição para o palco se dava ali, com aqueles jovens que, nas suas comunidades e durante o Carnaval, dançavam afoxé, caboclinho, maracatu e frevo, mas que passavam o resto do ano dançando outros ritmos. Nós nos interessamos por essa transformação do folclore em espetáculo”, explica Bárbara.

Um exemplar de Ritmos e danças – volume 1: frevo, uma cartilha lançada pela Secretaria de Educação e Cultura do governo de Pernambuco, em meados dos anos 1970, com fotografias de passos sendo executados por bailarinos brancos, chamou a atenção da dupla, que quis colocar em fricção – ou colisão – a lição daquela cartilha e os ritmos atuais. Não tardou para que percebessem que o vídeo seria a linguagem mais adequada para comparar aquela caricatura de quatro décadas à velocidade com que o frevo era incorporado a outras coreografias. Surgia, assim, Faz que vai.

Para dançar esse frevo misturado, Wagner e de Burca convidaram Ryan Neves, Bhrunno Henryque, Eduarda “Tchanna” Lemos e Edson Flávio e deram aos quatro bailarinos a oportunidade de escolher a modalidade de frevo que gostariam de corporificar. Ryan, que, durante o dia, se apresenta para turistas no sítio histórico olindense, e, à noite, incorpora uma drag queen em boate recifense, escolheu o electro. Tchanna, bailarina de frevo, ficou com o funk. Bhrunno trouxe seu repertório de suingueira, e Edson, integrante do grupo Guerreiros do Passo, intercalou a teatralidade de gestos como o faz que vai aos comandos do strike a pose, que caracterizam o vogue de Madonna.


Fotos sobrepostas dão a ideia de movimento como nestas de
Edson Flávio e Eduarda Lemos. Fotos: Wagner de Burca/Divulgação

“Todos eles escolheram não apenas o ritmo que dialogaria com o frevo, mas também como dançariam e como se vestiriam”, conta Benjamin de Burca. “Para capturar o movimento e registrar como aquele corpo se tornava a expressão de uma transformação, suprimimos a parte melódica. Tiramos os sopros, pois queríamos menos harmonia e mais percussão”, completa Bárbara Wagner. Entre fevereiro e março deste ano, houve ensaios, em que as coreografias eram apresentadas ao diretor de fotografia Pedro Sotero, e, em seguida, as filmagens eram realizadas em pontos diferentes da capital pernambucana, próximos de onde vivem os quatro jovens – negros, gays e moradores da periferia, numa configuração sociológica que interessa aos criadores, nesse embate entre “tradição e progresso” que sustenta suas reflexões artísticas.

A captação foi feita com uma câmera de alta definição, à qual foi acoplada uma lente de 16 mm. Na hora de filmar, os diretores levaram um metrônomo, instrumento que estabelece padrões fixos de andamentos musicais, para determinar a velocidade de cada um. Tchanna e seu frevo/funk se mexem a 95bpm (batimentos por minuto); mais acelerado, Edson empresta leveza e delicadeza à pantomima do frevo/vogue a 120bpm; Ryan – o que mais capricha no figurino – metamorfoseia o frevo no “pancadão” do electro a 140bpm; e Bhrunno evoca axé, arrocha, forró e frevo na mescla que é a suingueira e dança mais rápido do que todos, mexendo-se a 151bpm. Só na edição, quando Wagner e de Burca chamaram os percussionistas Cícero Batom, Wellington Jamaica e Waltinho d’Souza, da Orquestra Popular da Bomba do Hemetério, é que a sequência de imagens recebeu trilha sonora. “Eles viram as imagens e compuseram a percussão para aqueles passos específicos, sem saber o que é que cada um estava dançando”, rememora Bárbara.

As fotografias lenticulares, por sua vez, adicionam outras evidências ao ato de investigar – seja o status quo artístico, político e social, seja o choque entre legado e vanguarda, ou ainda a imbricação entre práticas individuais e rituais coletivos – que norteia a prática dos artistas. É como se cada dançarino fosse legitimado pelo seu duplo, não como tese/antítese, mas à luz da multiplicidade e da pluralidade, palavras tão bem-empregadas para descrever a permanência do frevo como símbolo de Pernambuco, um século após seu surgimento.

Faz que vai, que até dezembro também pode ser visto na mostra coletiva do 5º Prêmio Marcantonio Vilaça, no MAC/USP, vislumbra um futuro para o ritmo secular: abraçar as vibrações do acaso em um jogo em que deve prevalecer, para Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, mais as apropriações intuitivas e menos as releituras mercadológicas. 

LUCIANA VERAS, repórter especial da revista Continente.

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