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[Entrevista] Mauro Rosso

TEXTO Eduardo Cesar Maia

01 de Novembro de 2019

CONTINENTE Que contribuições Arthur Azevedo trouxe para a literatura brasileira?
MAURO ROSSO Ele foi um multicriador. Sua obra constitui um painel da própria sociedade de seu tempo, envolvendo diversos gêneros e concebendo novas possibilidades de criação literária, como contos e crônicas dramáticas, teatro em verso e prosa, contos em versos etc. Azevedo forneceu a matriz para uma espécie de “contística carioca”, e seus textos são considerados os introdutores da classe média na temática da literatura nacional. Há, na obra de Azevedo, um conteúdo de crítica social intenso – notoriamente quanto à escravidão –, assim como, aqui e ali, manifestações de cunho político. Seus textos revelam um arguto observador da vida social, um perspicaz comentarista de comportamentos e sentimentos humanos, um atilado crítico moralista, que soube retratar as comédias e tragédias, os dramas e o burlesco dos homens, não apenas de sua época, mas de todas elas.

CONTINENTE O que o estilo despojado desse escritor revela sobre sua personalidade pública?
MAURO ROSSO Talvez muito da crítica ou descaso com relação à obra do autor se deva em parte à sua imagem de iconoclasta e boêmio; parte à política (era defensor incondicional de Floriano Peixoto), parte – na seara literária propriamente dita – ao seu despojamento estilístico, refletido na falta de movimentação narrativa ou de multiplicidade de situações de enredo e na “não-seriedade” de sua temática.

CONTINENTE Quem escreve sobre temas menores é necessariamente um escritor menor?
MAURO ROSSO É certo que existe o conceito de “alta literatura” e padrões básicos de beletrismo aos quais se procura enquadrar, ou julgar, toda obra literária. Isso não significa refutar o valor daquelas que, por concepção e propósito originais, determinação autoral explícita, deliberadamente se afastem desses diapasões. É o caso dos contos de Arthur Azevedo, que não podem ser classificados como obras menores.

CONTINENTE Como ele se relacionou com as escolas e estéticas literárias de sua época?
MAURO ROSSO Ele abominava as tendências literárias de seu tempo, que lhe pareciam nada condizentes ao modus natural de sua literatura. Criticava o falar rebuscado e retórico, que não diz nada e só serve para demonstrar uma suposta superioridade de inteligência. A simplicidade de sua narrativa, passando ao largo de divagações metafísicas, era parte intencional de seu estilo e não se devia à penúria expressional ou carência de embasamento literário – Azevedo conhecia muito bem a língua e tinha pleno domínio do fazer literário. 

 

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