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Texto vinculado ao especial de capa da edição 197 da Revista Continente (maio 2017)

Stravinski. Foto: ReproduçãoStravinski. Foto: Reprodução

No ambiente musical vigente durante o regime leninista (1917–1924), o único postulado estético que valia era o de evitar uma “arte burguesa”, ou seja, de cunho subjetivista, tal qual apreciada pela elite e pela nobreza defenestradas pelos mencheviques e sepultadas pelos bolcheviques. Dessa forma, um assumido romântico tardio como Sergei Rachmaninoff (1873–1943) deixou a Rússia logo após a Revolução, junto com mulher e filhas, e teve sua música banida em solo natal. O compositor de Rapsódia sobre um tema de Paganini radicou-se nos Estados Unidos em 1918, após um ano de passagem pela Escandinávia, e, no ano em que faleceu, naturalizou-se no país que o acolheu e idolatrou.

Por sua vez, Igor Stravinski (1882–1971) já vivia na Suíça em 1917, morou na França de 1920 a 1939 e emigrou para os Estados Unidos, onde também se naturalizou. Os balés russos de Stravinski (O pássaro de fogo, Petrúchka e A sagração da primavera), apesar de inequivocamente russos no enredo, desenvolveram uma original sonoridade, gradualmente complexa na harmonia e agressiva no ritmo, não servindo para a corrente tradicionalista que dominou a estética musical soviética, nem para os futuristas. O autor da Sinfonia dos Salmos voltou à Rússia, a convite de Nikita Khrushchev (1894–1971), para uma série de concertos com suas composições. Em pessoa, o então presidente soviético propôs-lhe voltar a fixar-se no país, sem obter aceite.

Já Sergei Prokofiev (1891–1953) deixou a Rússia em 1918, não por discordâncias com o regime, mas para alavancar a carreira como pianista e não correr o risco de ser tolhido em sua atividade de compositor, tanto que, em 1935, depois de morar em diversas cidades norte-americanas e europeias, Prokofiev voltou a viver em seu país – e não escapou das pressões da União dos Compositores Soviéticos, sindicato oficial da classe fundado em 1932 e que sucedeu a Associação Russa dos Músicos Proletários (ARMP), existente desde 1925.

Aleksandr Nevski – Batalha no gelo, de Serguei Prokofiev:



Na Rússia leninista, experimentalismo e conservadorismo coexistiam relativamente bem. Havia espaço para o Movimento Proletkult (proletárskaya kultura, ou seja, cultura proletária), que fazia arte de linguagem mais acessível, embora sem propagandismo obrigatório do regime – e, por isso, não caiu por muito tempo nas graças da intelligentsia bolchevique (isto é, da elite intelectual governista). O Proletkult estabeleceu uma nova estética nas artes gráficas, não na música, mas agregou muitos artistas futuristas e fomentou a criatividade musical dessa vertente.

O efervescente futurismo russo teve como experiência mais radical e bem-recepcionada pelas autoridades a Sinfonia de sirenes de fábrica, de Arseni Avraamov (1886–1944), com seus cerca de 40 minutos de duração e um instrumental peculiar, que incluía – além das sirenes de fábrica – apitos de navio, buzinas de carros e ônibus, canhões, motores de hidroaviões, armas de artilharia e outros aparatos mecânicos e bélicos que se possa pensar.

O ultraexperimentalismo da Sinfonia de sirenes de fábrica antecipava a relevância que iria ser dada à matéria sonora bruta com a música concreta, em 1951, e só viria a ser superado em audácia (quando falamos da sinfonia como gênero de composição) pela Sinfonia de Luciano Berio (1925–2003), no final dos anos 1960. Se estreada 10 anos após sua concepção, a peça de Avraamov certamente sofreria censura da União dos Compositores, que veio a ditar a cartilha do realismo socialista para seus afiliados. Como foi estreada em 1922 – no porto de Baku, capital do Azerbaijão –, para celebrar o quinto aniversário da Revolução, passou incólume como obra exaltadora do proletariado.

Leia na íntegra na edição 197 da Revista Continente (maio 2017)

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EXTRA:

Ouça exemplares da música russa do período

Três cenas infantis
(1926), de Alexander Mossolov





Zavod (1927), de Alexander Mossolov




Quatro anúncios de jornal (1926), de Alexander Mossolov




Sinfonia n° 7 Lêningrado, de Dmitri Chostakóvitch




Canto de amor e paz, de Cláudio Santoro




Sinfonia n° 4 Da paz, de Cláudio Santoro

 

capa 199
CONTINENTE #199  |  Julho 2017

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