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Verá Tupã Popygua Timóteo da Silva por Edu SimõesVerá Tupã Popygua Timóteo da Silva por Edu Simões

Leia na íntegra depoimento vinculado ao especial de capa da edição 196 (abril 2017)

 

No princípio não havia nada, era um lugar sombrio.
Havia somente o oceano primitivo, lava. Não havia vidas sequer.
Ainda não existia a terra, nem o sol, nem a lua, nem as estrelas, permanece a noite originária. Uma luz infinita surge através da noite originária, nasce o Nhanderu Tenondegua, nosso pai divino com sabedoria infinita e com amor infinito.
Desde então, nós seres humanos nascemos com vida, palavras e amor e usufruímos da natureza e respiramos o ar, bebemos as águas que Nhanderu criou, somos partículas da natureza.

Guarani Nhande’i va’e
GUERREIROS DA MATA ATLÂNTICA


Peço licença dos Mais Velhos e da própria Natureza, para falar sobre o conhecimento verdadeiro dos Guarani Nhande’i va’e (conhecidos como Mbya Guarani pelos não indígenas) sobre a Mata Atlântica, terra onde milenarmente vivemos. O Guarani tem uma visão totalmente ampla. Para nós, quando Nhanderu criou a terra, criou o mundo, criou o Universo, ele gerou uma porção de terra que nós nhande’iva’e chamamos Yvy Mbyte “o meio do mundo” – o centro de uma grande espiral criada por Nhanderu com seu bastão sagrado, que deu a origem ao cosmos.

Desde essa origem, os Guarani Nhande’iva’e vivem em círculos, orientando-se através dos ciclos da Natureza, tendo a consciência de que nosso planeta é redondo. E que o universo é expandido em anéis pelo infinito.

Sabemos também que foi no ponto central da terra onde Nhanderu apoiou os pés pela primeira vez. E, ao dar um passo, ele viu que uma árvore crescia, e que a terra tinha vida, respirava, ela tinha espírito. E é através desse espírito da terra que começam a brotar as florestas. Meu avô me contava que quando Nhanderu criou esse pedacinho inicial de terra criou-se oca embaixo e aí começou a nascer água, água doce. Os mais velhos sempre contam que em Yvy Mbyte existe muita água subterrânea. E que essas águas representariam a procedência do desdobrar da vida e que ali os Guarani deveriam se concentrar e circular, ocupando os lugares por onde elas se espalhassem. Então é por isso que na Yvy Mbyte ainda hoje existem muitas aldeias Guarani e que por onde correm as águas se formaram aldeias.

Yvy Mbyte é hoje chamada pelos não indígenas de tríplice fronteira (Argentina, Paraguai e Brasil) e o reservatório de água subterrâneo de “Aquífero Guarani” (considerado um dos maiores reservatórios subterrâneos de água doce do mundo), que se estende até São Paulo, onde temos nossa aldeia e de onde estou contando a vocês essa história, que é da Mata Atlântica, mas que é também do desdobramento da cultura Guarani.

Porque Yvy Mbyté e Mata Atlântica são o principal… que o povo Guarani vê como ponto de partida em busca da perfeição, de sua religiosidade, em busca de se fortalecer espiritualmente. Pois a Mata atlântica é uma floresta genuína que tem uma serenidade especial, no sentido de que quando buscamos espiritualmente um equilíbrio, um equilíbrio no pensamento até mesmo de habitat, de tekoa (aldeia, espaço para viver), tekó (modo de ser e viver), arandu (tempo sabedoria), encontramos uma harmonia com a essência dessa, que também fazemos parte. Para nós, a Serra do Mar é Jekupe, uma contenção do mar deixada por Nhanderu e este é um espaço sagrado.

Assim, observando milenarmente o crescimento de bromélias, árvores e diferentes tipos de plantas, observando as estrelas, as fases da lua e o desabrochar das flores alinhadas com o sol, é que extraímos nosso conhecimento.

Vendo os rios, as nascentes, sentindo os ventos e as florestas, percebemos que todos eles são seres com vida completa, entidades que respiram, pensam, comunicam-se, tal como a terra em seu princípio e como nós próprios. E é por isso que o modo de ser e de viver Guarani está intimamente ligado ao respeito à natureza.

Ensinamos para nossas crianças esse respeito, pois, para nós, Nhanderu criou na terra espaços para cada um e para todos, existindo diferentes lugares para os animais, para os homens, para a floresta… e sabemos que é necessário considerarmos o direito de todos os seres de estarem em paz em seus habitats, construindo uma harmonia.

Nunca nós precisamos de “leis” dizendo que não podia cortar as árvores, nós sempre soubemos que é necessário preservar lugares que são espaços de vidas, porque eles e seus elementos são dotados de espíritos tais como nós.

Porque a Mata Atlântica tem toda essa diversidade até hoje? Porque o Guarani teve, sim, dentro da sua cultura, um pensamento em relação à conservação da natureza. Quando plantamos ou caçamos, há uma lua certa e uma preocupação com o período certo e com os lugares certos, dentro dos circuitos naturais das espécies. Existindo lugares que são Ka-aguy poru ey de “matas sagradas” e “intocáveis”. Nós sempre cuidamos. Até mesmo quando vamos nos banhar em um rio, não vamos a qualquer lugar, existe um só espaço batizado pelos Xeramões (lideres espirituais) onde podemos ir, para não desrespeitar o espírito do rio. Cuidamos com carinho das nascentes porque elas possuem vida, elas têm espírito, e também nos dão saúde.

Durante os últimos milênios, cuidamos e plantamos diversas espécies neste vasto território. Até hoje seguimos levando, trazendo e plantando diversas sementes para ensinar nossas crianças, que assim adquirem sabedoria vasta, milenar, sobre as florestas que formam a Mata Atlântica Yvyrupa, nosso território ancestral que devemos preservar. Nós somos os Guardiões da Mata Atlântica.

Nós amamos a natureza em silêncio, através de poesias, de sentimentos poéticos e da espiritualidade que ama a natureza, porque a natureza é o início, o meio e o fim.

NOSSA LUTA
Em 1532, na Tekoa Paranapuã, chegaram homens vindos de ilhas distantes, eles estavam interessados em nossa floresta, nós os chamamos de Tupi, que na língua dos Nhande’iva’e significa destruidor

Tupi, para nós, não são os povos indígenas que ocupam o litoral do Brasil, são, ao contrário, os que nós hoje em dia chamamos de juruá, juru significa boca e á é cabelo, ou seja, os que possuem barba, os não indígenas. Foi através da ganância do Tupi que começou a destruição das florestas, trazendo o desequilíbrio da natureza. Os Nhande’iva’e, então, correram para sair dos seus lugares originais e deixaram espaços para trás na Mata Atlântica.

Toda a Mata Atlântica é território ancestral dos Nhande’iva’e, pois circulávamos nele visitando e fundando aldeias. Mas, depois que chegaram os Tupi, foi só através de nosso poder espiritual e de muita luta que conseguimos fixar novamente nossas aldeias e muitas ainda hoje ainda não foram demarcadas.

O ano de 1988 foi marcante para os povos originários do Brasil. Antes dos dispositivos legais da Constituição de 1988, as escolas eram integracionistas e não tínhamos terras demarcadas para o nosso povo. Foi a partir dessa data que tivemos avanços em relação à defesa de nossos direitos. Atualmente, os ruralistas estão atacando os direitos que estão na Carta Magna do país. Uma das mais cruéis é a PEC 215, o que é gravíssimo no Estado democrático!

Em 2006, criamos a CGY – Comissão Guarani Yvyrupa para lutar por nossos direitos. Ela é uma organização social de todas as aldeias Guarani Mbya do Brasil (no Sul e Sudeste). Ela existe para defender a sagrada Mata Atlântica porque nós existimos, e resistiremos nela, sempre. Restam menos de 7% da cobertura original da Mata Atlântica no Brasil. Nós sentimos muita pena dos Juruá que têm ambição de passar acima de qualquer um e da vida desta terra para ter o que quer. Nós não temos essa cultura. Mesmo sofrendo diversas ameaças de grandes empresas e de setores e instituições ligados ao governo que são contrários aos povos indígenas, os Nhande’iva’e conseguiram recuperar parte de seu território milenar e ter algumas de suas terras demarcadas. Mas ainda falta muito para termos o território que necessitamos para viver e para formar tekoas como antigamente.

O FUTURO DA TERRA
Nhanderu criou o grande tekoa onde acontece nosso modo de vida humana. O nosso planeta é o grande jardim de Nhanderu. Devemos cuidar dele, não destruir, para que o futuro possa existir e ser maravilhoso, sem preconceito, sem covardia, somente amor e fraternidade.

Vidas têm essência, palavras têm dono, devemos ser solidários uns aos outros, assim podemos viver plenamente no jardim de Nhanderu, pois somos simplesmente transitórios. Precisamos deixar esse legado aos nossos filhos e netos, para que seja o mundo cheio de paz e harmonia entres todos os povos.

Os Guarani Nhande’iva’e descobriram este lugar há milhares de anos. Todo este território pertence ao povo Nhande’iva’e. Nossa mitologia, nossa cosmovisão reafirma este fato. Portanto, queremos que nosso direito de ser e de viver nesta terra, de acordo com nossos costumes, princípios e tradições seja respeitado pela sociedade não indígena.

Aguyjevete.

capa 196
CONTINENTE #196  |  Abril 2017

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