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Leia na íntegra entrevista vinculada à matéria de Claquete da edição #196 (abril 2017)

O diretor Marcelo Gomes. Foto: Letícia Simões/DivulgaçãoO diretor Marcelo Gomes. Foto: Letícia Simões/Divulgação


CONTINENTE
Como concebeu seu filme de época?
MARCELO GOMES Queria falar do passado vivo. Então, primeiro, essa câmera tem de ser viva. Não pode ser aquela câmera clássica. O passado vivo era podre, sujo, condições de higiene nenhumas. As pessoas, às vezes, tinham uma roupa só. Os dentes eram sujos. Tudo é podre, porque o passado era terrível. Era cruel, desumano viver naquele Brasil Colonial. Então o que mais eu tenho de fazer para construir um filme-crônica, que mostre a poética do cotidiano, do dia a dia daquelas pessoas? Tenho de trazer atores negros que falam português de Portugal e um dialeto. Fui descobrir a Isabel Zuáa e o Welket Bungué em Portugal. Preciso de atores portugueses para fazer os portugueses, porque até o jeito de andar é diferente. Para fazer o índio, trouxe Karai Rya Pua, que é professor de guarani. Depois o Rômulo Braga, esse ator mineiro maravilhoso, para fazer o mineirinho. E o Julio como essa mistura de tudo, com esse olhar kinskiano que ele tem, para Joaquim, aquele homem de ação, não de reflexão.

CONTINENTE As motivações de Joaquim no seu filme são pessoais.
MARCELO GOMES Nosso personagem, Joaquim, tinha de ser contemporâneo. E o que é a contemporaneidade? É a contradição. A gente é cheio de contradição. Quer ganhar dinheiro, ser feliz e casar com alguém que a gente ama. E era o que ele queria. E por isso ele trai. E por isso ele engana. Porque o ouro também traz isso, a ganância. Às vezes, as pessoas perguntam: “Esse filme é sobre Joaquim?”. É. “Mas como as pessoas no Festival de Berlim vão entender?” Gente, este filme é sobre traição, ganância e um amor impossível, as pessoas vão entender.

CONTINENTE E é sobre a colonização, que os europeus deveriam entender.
MARCELO GOMES Sim, porque todas as colonizações foram cruéis: a espanhola, a portuguesa, a inglesa, a francesa, a alemã. Todas foram cruéis. Nenhuma delas chegou a um país e falou: “Vamos entender a língua dessas pessoas. Vamos entender o jeito delas. E vamos construir uma junção de culturas”. Eles impuseram a cultura, a língua, a religião e exploraram a terra ao máximo.

CONTINENTE O Recife teve outra colonização além da portuguesa – a holandesa –, da qual muita gente tem saudade. O que pensa disso?
MARCELO GOMES Nossa, os holandeses saíram do Brasil e foram colonizar a África do Sul – e olha o que eles fizeram lá. Agora, quando uma pessoa fala: “Ah, os holandeses poderiam ser melhores que os portugueses”, ela está sendo colonizadora. Esse é o problema, a gente ainda não completou esse processo de descolonização. E isso está em Joaquim, quando ele fala: “Eu sou português também”, por ser filho de um. Vai ser um português de segunda classe sempre!

CONTINENTE Um jornalista português veio me dizer que tinha achado o filme interessante, mas que não concordava com a visão de que Portugal era culpada pela corrupção do Brasil, porque corrupção é uma coisa humana. Ele não entendia que a corrupção sistêmica era, sim, culpa de Portugal.
MARCELO GOMES Mas lógico, gente! É só ver a quantidade de escândalos de corrupção que tem em Portugal e na Espanha! É engraçado, porque pensei, em relação aos meus amigos portugueses que trabalham no filme: “Nossa, estou mostrando algo que acho que os cinemas português e brasileiro nunca mostraram, que é a crueldade da colonização”. Muita gente achou que não, que os portugueses não iam ligar. Na coletiva, veio um português dizer que o filme iria causar polêmica em Portugal porque eles acham que os portugueses foram bacanas no Brasil. Ninguém foi bacana, gente. O capitalismo não podia ser bacana. O capitalismo foi lá para explorar a riqueza. Vá às igrejas de Portugal e veja se foi bacana levar aquele ouro todo à custa de trabalho escravo. Então, estou muito feliz de causar uma polêmica grande em Portugal, porque é mais do que necessário. E eu espero causar outra no Brasil, porque acho que a gente tem de acabar com esse Fla x Flu que está se vivendo no Brasil. Está na hora de discutir política de uma forma profunda e consistente. Chega de discussões superficiais. Parece um bando de crianças. Vamos discutir questões primordiais do país, refletir sobre o presente compreendendo o passado e sinalizando o futuro. Senão não vai dar certo.

CONTINENTE E achar pontos em comum, não?
MARCELO GOMES Sim. Mas eu acho que também tem uma questão muito dura: há pessoas no Brasil que não querem dividir seus privilégios. É de um egoísmo – e é um egoísmo que Joaquim tem. Ele planeja tudo para não dividir privilégios. E isso é cruel no Brasil. O brasileiro quer deixar os privilégios na mão de 35 milhões, mantendo 165 milhões desprovidos de privilégios. Isso não pode. Enquanto a gente tiver esse pensamento colonizador…

CONTINENTE Por que você acha que o cinema brasileiro não olha tanto para o passado?
MARCELO GOMES Fico pensando primeiro no orçamento. Segundo, a dificuldade de construir um filme histórico que fuja desse “drama da BBC”, com direção de arte magnífica, um figurino que não deixa a pessoa falar e aquele passado asséptico, limpo. Fizemos um filme na raça, com pouco orçamento. Neste momento de crises política, e também existencial, porque vêm juntas, ou seja, “quem somos nós?”, “que país é este?”, “que nação estamos construindo?”, temos de voltar para a história. O cinema tem uma responsabilidade muito grande de fazer filmes históricos. Fico feliz que Vazante, da Daniela Thomas, que se passa quase na mesma época de Joaquim, está aí, que a Laís Bodansky vai fazer filme sobre D. Pedro 1º. Acho que é muito sintomático, neste momento de crise, a gente voltar para o passado.

capa 196
CONTINENTE #196  |  Abril 2017

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