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Premiação do 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Foto: Junior Aragão/DivulgaçãoPremiação do 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Foto: Junior Aragão/Divulgação

 

Numa das edições mais políticas dos últimos anos do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, realizado em um momento de quebra de processo democrático no país, a premiação do evento não deixou também de deixar seus enunciados. Premiado pelo júri popular, e aplaudido de pé na ocasião do anúncio desse prêmio, Martírio, o segundo filme da trilogia documental que Vincent Carelli está fazendo sobre a questão indígena no Brasil, deixou claro que sua essência marginal estaria, também, à margem da premiação maior do evento. Esta foi destinada à produção mineira A cidade onde envelheço, de Marília Rocha, um filme que valoriza a narrativa do afeto. Mesmo que esta ficção não tenha qualquer subtexto político, há de se pontuar que Marília é apenas a sétima diretora a levar o Candango mais disputado em 49 edições do festival. E que isso acontece no mesmo ano em que o curta-metragem de Ana Carolina Soares, Estado itinerante, um filme sobre a violência contra a mulher, ganhou corações e mentes no festival (e levou três prêmios importantes, entre eles o de Melhor Atriz e Melhor Filme pela crítica), e também na mesma edição em que, na Mostra Especial, o festival trouxe dois documentários que lidam diretamente com as pautas feministas: Câmara de espelhos, de Dea Ferraz, e Precisamos falar sobre assédio, de Paula Sacchetta.

Destaque ainda para mais uma leva de prêmios destinada ao cinema pernambucano, numa noite que foi também dedicada a celebrar os 20 anos do filme O baile perfumado, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira. Entre as premiações que vieram para o estado, além daquelas destinadas a Martírio, destaque para o curta O delírio é a redenção dos aflitos, de Fellipe Fernandes, que levou os importantes prêmios de Melhor Direção, Melhor Roteiro e Melhor Direção de Arte, este para Thales Junqueira. Renata Pinheiro ganhou também o prêmio de Melhor Direção de Arte em longa pelo filme Deserto, de Guilherme Weber.

Leia nossa cobertura AQUI.

 
Confira a lista completa de premiados:

Melhor Filme de Longa-metragem – R$ 100 mil
A cidade onde envelheço, de Marília Rocha

Melhor Direção – R$ 20 mil
Marília Rocha, por A cidade onde envelheço

Melhor Ator - R$ 10 mil
Rômulo Braga, por Elon não acredita na morte

Melhor Atriz – R$ 10 mil
Elisabete Francisca e Francisca Manuel, por A cidade onde envelheço

Melhor Ator Coadjuvante - R$ 5 mil
Wederson Neguinho, por A cidade onde envelheço

Melhor Atriz Coadjuvante - R$ 5 mil
Samya de Lavor, por O último trago

Melhor Roteiro - R$ 10 mil
Davi Pretto e Richard Tavares, por Rifle

Melhor Fotografia - R$ 10 mil
Ivo Lopes, por O último trago

Melhor Direção de Arte - R$ 10 mil
Renata Pinheiro, por Deserto

Melhor Trilha Sonora - R$ 10 mil
Pedro Cintra, por Vinte anos

Melhor Som - R$ 10 mil
Marcos Lopes e Tiago Bello, por Rifle

Melhor Montagem - R$ 10 mil
Clarissa Campolina, por O último trago

Prêmio Especial do Júri Oficial:
Martírio, de Vincent Carelli em colaboração com Ernesto de Carvalho e Tita


FILME DE CURTA OU MÉDIA-METRAGEM

 
Melhor Filme de Curta ou Média metragem - R$ 30.000,00
Quando os dias eram eternos, de Marcus Vinicius Vasconcelos

Melhor Direção - R$ 10.000,00
Fellipe Fernandes, por O delírio é a redenção dos aflitos

Melhor Ator - R$ 5.000,00
Renato Novais Oliveira, por Constelações

Melhor Atriz - R$ 5.000,00
Lira Ribas, por Estado itinerante

Melhor Roteiro - R$ 5.000,00
Fellipe Fernandes, por O delírio é a redenção dos aflitos

Melhor Fotografia - R$ 5.000,00
Ivo Lopes Araújo, por Solon

Melhor Direção de Arte - R$ 5.000,00
Thales Junqueira, por O delírio é a redenção dos aflitos

Melhor Trilha Sonora - R$ 5.000,00
Dudu Tsuda, por Quando os dias eram eternos

Melhor Som - R$ 5.000,00
Bernardo Uzeda, por Confidente

Melhor Montagem - R$ 5.000,00
Allan Ribeiro e Thiago Ricarte, por Demônia – Melodrama em 3 atos

Premio Especial do Júri
Estado itinerante, de Ana Carolina Soares


PRÊMIO DO JÚRI POPULAR 
Filmes escolhidos pelo público, por meio de votação em cédula própria:

Melhor Filme de Longa-metragem - R$ 40 mil
Martírio, de Vincent Carelli em colaboração com Ernesto de Carvalho e Tita

Melhor Filme de Curta ou Média-metragem - R$ 10 mil
Procura-se Irenice, de Marco Escrivão e Thiago Mendonça


PRÊMIO ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema)  

Melhor Filme de longa-metragem 
Pela hábil conexão entre a gramática do documentário e da ficção. Pelo retrato que conjuga a perspectiva de um personagem com as transformações de um Brasil rural. Pela apropriação original da estética do western e o uso potente do som. 
Filme: Rifle, de Davi Pretto

Melhor Filme de Curta-metragem
Pela sensibilidade na forma com que filma os espaços urbanos. Pela qualidade do trabalho das atrizes, com experiência profissional ou não. Pela forma com que retrata uma violência física e simbólica, valorizando o que está fora de quadro. 
Filme: Estado itinerante, de Ana Carolina Soares.

Daiara Tukano em debate cinema e questão indígena. Foto: DivulgaçãoDaiara Tukano em debate cinema e questão indígena. Foto: Divulgação

 

Estamos em 2016, capital federal da República brasileira e no primeiro grande festival de cinema pós golpe-político-jurídico-midiático no país, o evento é marcado por realizadores que sobem ao palco com camisas onde se lê “Amar sem Temer”, “Temer Jamais” e, a mais popular e disputada camisa do evento até agora, “Cinema contra o Golpe”. No microfone, agradecimentos sempre acompanhados da frase mais falada durante toda a semana: “Fora Temer!”, e o rapaz da tradução simultânea para Libras faz gestos efusivos nesses momentos. Ainda que "temer" não seja uma opção, dizem os cineastas em suas camisas, teme-se de fato. As políticas públicas criadas para a cultura e, particularmente para o cinema, podem a qualquer momento sofrer retaliações. A palavra de ordem, portanto, atende pela graça de Resistência, uma ideia que perpassa, aliás, boa parte dos filmes projetados na tela.

 

Inserir esta histórica edição do Festival de Brasília no contexto sociopolítico do Brasil em que ele acontece é tão urgente quanto falar daquilo que atravessa os próprios filmes selecionados. O gesto político é o único gesto possível. De modo que, para além dos filmes exibidos, é preciso falar que esta foi a edição do evento que fez uma memorável mesa de debate chamada Produção audiovisual, identidade e diversidade - Um olhar dos realizadores afrobrasileiros e indígenas sobre o cenário brasileiro do audiovisual, quando se ouviu depoimentos absolutamente reveladores de como o audiovisual brasileiro precisa parar de reproduzir a dinâmica opressora de sua sociedade racista, machista, classista, homofóbica e, fundamentalmente, aniquiladora dos índios. Proposições efetivas de resistência a isso foram feitas, novas alianças (históricas) entre a população negra e a população indígena foram ali repactuadas. A revolução feita nas beiras, no auditório ali meio escondido de um hotel com o nome do presidente dos “50 anos em 5”.

 

Notório também que esse foi o festival que não perdoou a exibição de um longa-metragem que, a princípio, chegou com a melhor das intenções em mostrar um protagonista indígena: Antes o tempo não acabava, de Sérgio Andrade e Fábio Baldo. No debate com a equipe do filme, que aconteceu no dia seguinte ao de sua exibição, três antropólogas questionaram as generalizações que o longa fez ao tratar questões muito delicadas como o infanticídio em algumas tribos da Amazônia (além de outros apontamentos sobre a perspectiva integralista que o filme aponta, indo na contramão de toda uma luta sobre preservação de identidade dessas pessoas) e de como isso dá munição aos discursos sempre inflamados da bancada ruralista brasileira.

 

Ao fim do debate, quando os diretores não mais conseguiam dar conta de justificar o injustificável, Daiara Tukano, uma jovem liderança indígena que havia mediado no dia anterior o debate da mesa de realizadores indígenas, dá um extenso relato sobre as particularidades de cada etnia que vive no Brasil e de como essas generalizações, carregadas de um simbolismo usado ideologicamente, são capazes de matar. Realizadores, mais do que nunca, encontram neste momento do país uma oportunidade única de escutarem as vozes que, em nome da sacrossanta licença poética da ficção, nunca foram ouvidas.

 

E esse foi o primeiro festival de cinema também que registrou, ainda que em sua programação não oficial, o primeiro encontro de mulheres que escrevem sobre cinema. No país onde o pensamento sobre o audiovisual é território dominado em mais de 80% por homens (dados da lista de pessoas registradas na Associação Brasileira de Críticos de Cinema), esse encontro marcou um começo de reflexões e ações para que o circuito de crítica comece, finalmente, a se descobrir do manto do tal “olhar masculino” do cinema. Novos registros e novos olhares se abrem no momento em que o país tenta se fechar a toda e qualquer alteridade. Pode o subalterno falar?, perguntaria Gayatri Spivak. A questão se torna cada vez mais necessária justamente em sua possibilidade de indagar do que responder. Enquanto isso, ressoa em nossas cabeças uma das imagens mais cinematográficas deste festival: a de Jean-Claude Bernardet, um dos maiores pensadores do cinema brasileiro, mastigando borboletas em nome dos voos que a arte liberta.

 Foto: DivulgaçãoFoto: Divulgação

 

A cidade onde envelheço já carrega no título a substância constituinte do novo filme de Marília Rocha (o primeiro longa de ficção de uma diretora já bastante premiada por seus documentários). A primeira pessoa, a delimitação do espaço cidade e o caráter afetuoso com que o sujeito da frase se relaciona com esse ambiente. A ideia de que a ternura deve ser a grande mediadora de nossas relações com o entorno é o que move o filme. Mas na busca por achar esse afeto em todos os gestos e objetos, A cidade onde envelheço termina por criar ambiente suspenso no ar, que apazigua todas as possibilidades de conflitos de seus personagens com o filtro utópico da fofura.

 

A premissa narrativa do filme se dá a partir de um encontro: Teresa (Elizabete Francisca) é uma jovem portuguesa que acaba de chegar ao Brasil e está indo ao encontro de uma antiga amiga, também portuguesa, Francisca (Francisca Manuel), que mora em Belo Horizonte. Teresa olha para o Brasil como um lugar idealizado, onde tudo pode acontecer. Francisca, que já trabalha na cidade e construiu sua rede de amigos próximos, está acostumada a morar sozinha e vive uma rotina sem grandes sobressaltos. Naturalmente, a chegada de Teresa e sua impulsão quase adolescente em fazer novos amigos (já em sua primeira cena a vemos puxando conversa com um senhor desconhecido na rodoviária) irá mudar a ordem com a qual Francisca está habituada em seu pequeno apartamento no centro de BH.

 

Essa mudança não acontece com a irrupção violenta de eventos novos na vida de Francisca, mas, sim, com a possibilidade de que se criem laços inesperados entre duas pessoas há muito tempo tão distantes. O carinho que, muito gradualmente, se constrói entre elas, é sempre registrado a partir de pequenos, às vezes minúsculos, gestos: um mexer no cabelo aqui, dedos que se abraçam ali e sorrisos cada vez mais prolongados entre elas. Tudo se encontra no limiar entre a cumplicidade e a sexualidade. Ainda que nenhum sentimento seja, de fato, concreto ou, pelo menos, classificável. Mesmo quando se vislumbra a possibilidade de haver no filme um casal romântico, no caso entre Francisca e um rapaz interpretado pelo artista plástico Paulo Nazareth, há uma negativa de se nominar aquela relação: “Não somos namorados, somos amigos”, diz a moça. Vai se formando aí uma nova quadrilha drummondiana: Fulano que amava Beltrana que amava Cicrana que amava todo mundo porque todo mundo também se amava simultaneamente e era lindo.


E é tudo lindo, de fato. Tanto que esquecemos de que essas personagens vivem num mundo real onde contas de aluguéis precisam ser pagas (apesar de ser uma mochileira europeia sem financiamento da família, Teresa demora meses para começar a pensar em conseguir um trabalho), onde todas as pessoas desconhecidas com quem se cruza na rua estão dispostas a serem a mais amáveis possíveis (ainda que a gente saiba que Belo Horizonte seja uma cidade muito carinhosa...) e onde uma ressaca é imediatamente curada com um encontro de amigos num quintal em que se escuta uma boa música e todo mundo (todo mundo!) é sempre muito amável. Sim, o longa é super bem-filmado, a diretora estreia bem no olhar sobre as potencialidades de cada uma das duas atrizes principais, mas falta a essa narrativa algo que a tire do confortável e tranquilo mundo das fotos de Instagram. Essa lacuna fica evidente particularmente no desfecho do filme, uma tentativa de simular um movimento cíclico dos eventos, mas que parece mais um fio solto que o roteiro não conseguiu costurar.

 

Narrativas à parte, lindo e afetuoso mesmo foi ver uma equipe quase que inteiramente de mulheres subir ao palco do Festival de Brasília para apresentar essa história. Momento histórico se dava ali.

"O delírio é a redenção dos aflitos". Fotos: Divulgação"O delírio é a redenção dos aflitos". Fotos: Divulgação

 

Três filmes que, de maneiras completamente distintas, dialogam de alguma forma com a violência contra a mulher. A primeira sessão da Mostra Competitiva na noite do sábado (24/9), no Festival de Brasília, foi possivelmente aquela com maior unidade temática entre os pacotes de curtas e longas exibidos durante o evento. E a diversidade com que esse mesmo assunto é atravessado pelas três produções em questão diz muito sobre como o cinema vem se aproximando de algo que é tão forte quanto complexo (e cuja relação com o próprio cinema é historicamente guiada por um olhar igualmente violento sobre a mulher).

No primeiro curta, O delírio é a redenção dos aflitos, do pernambucano Fellipe Fernandes, estreando como diretor, há uma proposta estética que beira o realismo mágico para dar conta do pesadelo cotidiano que é ser periférica, trabalhadora, mãe e, claro, mulher abandonada pelo companheiro que não a vê e muito menos a escuta. Sabemos já na primeira sequência que, no prédio-caixão onde ela mora, todos os moradores estão sendo despejados e sendo levados para outros lugares. Raquel (Nash Laila, em mais uma interpretação potente) é a última residente daquele edifício fantasma.

Qualquer semelhança com Aquarius é mera coincidência, dadas as situações diversas em que os roteiros foram escritos, mas não deixa de ser rico colocar os dois filmes em diálogo para ver como, para uma mulher periférica, resistir em um edifício abandonado nunca será uma opção. O filme acompanha essa personagem em seu cansaço, sua dormência diante das luzes de Natal no atacadão onde trabalha, a anestesia do mundo tão bem sonorizada por uma voz de Simone lá no fundo que canta “o ano termina e começa outra vez” ou mesmo pela boneca da filha que, incansavelmente, repete: “let it go, let it go”. Com senso de humor e muito do delírio já descrito no título, o filme traz uma solução poética e relativamente simples para que, enfim, se ache alguma redenção possível, redenção esta que surge apenas da ação da mulher.


"Estado itinerante""Estado itinerante"

Caminho semelhante toma o segundo filme da noite, Estado itinerante, de Ana Carolina Soares, produção de Minas Gerais. Grande destaque da noite, o filme constrói, com sutileza, completo domínio de câmera, montagem e uma atuação extraordinária da atriz protagonista, uma história sobre uma cobradora de ônibus e sua própria saga de redenção. Viviana fala pouco, fuma muito e olha constantemente pra baixo. Nunca vemos os homens que, de alguma forma, se relacionam com ela, mas sabemos exatamente como eles a violentam diariamente. Seja o motorista do ônibus que grita e a repreende, sejam os motoqueiros que passam na rua desfilando suas máquinas de “machos”, seja o marido que nunca aparece, mas que ganha corpo na segunda pele que Viviana usa por debaixo da farda da firma. A diretora, equipe e, particularmente, a atriz estreante Lira Ribas estão de parabéns por um dos curtas mais contundentes dos últimos anos (com um dos planos-sequência mais poderosos de 2016) no que diz respeito ao trato das mulheres que sofrem violência no Brasil.

O terceiro filme da noite, também de Minas, Elon não acredita na morte, de Ricardo Alves Jr., traz como protagonista um homem que, se sugere mas nunca se define, mantinha uma relação violenta com sua mulher. Portanto, ao contrário do que acontece nos dois curtas que precederam sua exibição, o ponto de vista do longa que acompanhamos agora (e com frequência) é o masculino, de alguém que parece estar sempre muito carregado, não sabemos se por culpa, se por trauma, se pela própria natureza violenta que o move.

A câmera o segue por corredores mal iluminados, onde o vemos de costas andando e tateando as paredes com as mãos (é um personagem cujo corpo solitário busca algum tipo de contato). Esses travellings por cenários kafkianos de ambientes maquínicos (a fábrica) e burocráticos (a delegacia, o prédio abandonado onde ele trabalha) nos coloca na posição de cúmplices do estado de torpor e contido nervosismo do protagonista. O primeiro plano do rosto sempre tensionado do ator Rômulo Braga (um caso exemplar daquilo que Gilles Deleuze viria chamar de "imagem-afecção") é a potência de medo que o filme carrega. Existe, para além desses travellings e das imagens fotograficamente frias, um muito bem-realizado trabalho de som do filme que, igualmente, nos leva a compartilhar subjetivamente desse ambiente que exala uma silenciosa violência.

"Elon não acredita na morte""Elon não acredita na morte"


Mas... O fato é que, ao contrário do que acontecia em Tremor, curta-metragem anterior de Ricardo Alves Jr., em que esse mesmo personagem do Elon busca por sua mulher enquanto a câmera o busca por trás, no longa em que o protagonista ganha novas camadas de significação e outras personagens surgem em cena, a figura da mulher (das mulheres, na verdade) está visualmente presente. E sua representação é problemática. Madalena (Clara Choveaux), a mulher desaparecida, aparece em determinado momento. E ela é lida como a mulher louca, cujo corpo já surge erotizado. Sim, é olhar do personagem que estamos vendo, e o personagem é evidentemente um homem de olhar violento (“você tem um jeito muito estranho de amar, sufoca”, é mais ou menos isso que diz a irmã de Madalena para ele), mas é preciso questionar até que ponto o cinema pode pôr na conta da ficção essa representação sempre tão naturalizada de que as mulheres servem mais dramaticamente à trama quando elas são as mulheres transtornadas e nuas de sempre. Narrativamente falando, é um filme muito poderoso, com completo domínio da tensão que carrega, mas dentro de um debate maior sobre como esses personagens masculinos, mesmo no papel eles mesmos de homens loucos e paranoicos, são postos a serviço de uma violência que acontece também na ação do olhar, há de se questionar essa recorrência de soluções narrativas.

"Rifle" traz Dione como protagonista de resistência em meio à paisagem. Foto: Divulgação"Rifle" traz Dione como protagonista de resistência em meio à paisagem. Foto: Divulgação

 

Nos créditos finais, não passam despercebidos os agradecimentos do diretor: Abbas Kiarostami e John Ford se destacam entre os citados. O primeiro transformou comunidades de sentimento em espaço, enquanto o segundo fez do espaço um de seus personagens. São referências, portanto, fundamentais para um filme que faz das paisagens seu principal argumento de locomoção dramática. Planos abertos sobre cenários quase desérticos como uma tentativa de falar sobre territorialização e desterritorialização do ser humano diante do mundo que o cerca. É precisamente no movimento em que a ideia de terra (pertencimento, memória, afeto) vai gradualmente se reduzindo a território (vigilância, propriedade, demarcação) que se localiza Rifle (85 min. 2016, RS), o novo filme de Davi Pretto e o primeiro longa-metragem exibido na mostra competitiva do 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O filme é carregado de imagens-potência, tão fortes quanto contundentes. Todas elas funcionam muito bem isoladas em si mesmas e, não à toa, se espelham na cinematografia de Kiarostami e Ford (há sequências que soam mesmo como um tributo a ambos os diretores). Mas esses mesmos planos, uma vez juntos para criar esse percusso terra-território e todo o conflito embutido nele, terminam perdendo energia ao longo da história. Fica a impressão de que as várias possibilidades abertas pela mise-en-scène do filme terminam se esvaindo na própria natureza difusa do personagem central.

 

Absolutamente sincronizado com o zeitgeist brasileiro desses anos pós curto período desenvolvimentista, quando o tema da "ocupação e resistência" nos espaços parece atravessar boa parte da cinematografia nacional, o filme traz como protagonista um jovem rapaz chamado Dione que, já em sua primeira cena, é visto apagando os rastros de uma lembrança afetiva no tronco de uma árvore. Saberemos mais adiante que essa cena condensa toda a construção do personagem: ao mesmo tempo em que ele atualiza sua identidade a partir do espaço que ocupa, há uma tentativa constante desse homem em extinguir rastros, obscurecer seu próprio passado. Sabemos apenas que ele mora nessa fazenda trabalhando para uma família de pequenos proprietários de terra, e que ali chegou para ajudar nas tarefas com o gado. Não se sabe de onde ele vem, por que está ali e se tem alguma mãe ou pai a quem se possa relacioná-lo. Em determinado momento, a partir de um comentário vago de um desconhecido e depois de um registro fotográfico, sabemos que esse jovem já serviu ao Exército. Mas essa informação nem mesmo a família que o acolhe sabe. Portanto, tudo nele escapa enquanto ele mesmo tenta escapar de algo (seu passado? sua natureza violenta?) que nos foge.

 

O que há de concreto na narrativa é que, em defesa desse espaço que é sua única forma de identificação no mundo, Dione usará do poder que está sob seu alcance: um rifle. Com essa arma, ele tentará criar um campo de defesa contra os invasores montados em suas picapes, contra todos os carros que vêm da cidade, contra o sentimento de derrota que acomete os pequenos proprietários quando os latifundiários da soja colocam os olhos sobre seus terrenos. Dione é a personificação pampa do mito do cavaleiro solitário, o pistoleiro com coração e conflitos internos que vaga pelas paisagens como uma forma de se apropriar delas – e nesse sentido, é possível criar um paralelo entre ele e o memorável Shane, de Os brutos também amam, do diretor George Stevens. Ambos vêm de um lugar que não se conhece e tentam, de alguma maneira, proteger uma família da tomada de suas terras por grupos financeiramente poderosos. Mas há uma diferença fundamental entre Dione e Shane: enquanto este último carrega sobre os ombros o peso de ser um herói, o protagonista do filme de Davi Pretto em nada se aproxima dos contornos morais da figura heróica.

 

Quando Dione dispara sua arma, seu alvo é tudo aquilo que lhe parece não pertencer àquele espaço. Suas vítimas, sempre vistas à distância e em nenhum momento humanizadas, são completamente aleatórias. O sentimento de justiça contido em tantos faroestes norte-americanos deixa de fazer sentido em um filme que quer falar, justamente, da não possibilidade de justiça e o que acontece a partir disso. O uso acertado de atores iniciantes que, de certa forma, fazem um pouco o papel de si mesmos (os personagens têm os mesmos nomes que as pessoas que os interpretam, vivem nas cercanias onde a história foi filmada e sofrem as mesmas pressões de desapropriação de terra) e os diálogos truncados, muitas vezes imcompreensíveis dadas as particularidades idiomáticas da região e a uma fala para dentro, reafirma esse lugar de fronteiras difusas, perdidas da amplidão da profundidade de campo, que o filme propõe.

 

A proposta estética que fabula em cima do documental é rica, os enquadramentos e a iluminação seguem a tradição do cuidado com a imagem da Casa de Cinema de Porto Alegre, mas a construção do longa termina sendo a potência de algo que acaba por não acontecer, por dois motivos: a empatia pela jornada desse personagem central não se realiza (tal como ela se dá de uma maneira muito poética e rápida com o protagonista do longa anterior de Pretto, Castanha) e o roteiro, em vários momentos, cria curvas inesperadas que poderiam levar o filme para o campo do surreal e do insólito, e isso acaba por dispersar nossa atenção (e a tensão que se pretende criar). Rifle tem o estouro da largada e traz consigo genuínas imagens de cinema, mas corre o risco de ver essas mesmas imagens serem gradualmente apagadas do tronco da nossa memória.

capa 199
CONTINENTE #199  |  Julho 2017

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