×

Aviso

Please enter your DISQUS subdomain in order to use the 'Disqus Comments (for Joomla)' plugin. If you don't have a DISQUS account, register for one here

banner janela 2016

 

 

“Eu espero não agredir com minha manifestação o protocolo desta casa, mas eu acredito que os senhores não poderão ficar omissos, os senhores não terão como ficar alheios a mais essa agressão movida pelo poder econômico, pela ganância e pela ignorância do que significa ser um povo indígena.” Este trecho faz parte do discurso da liderança indígena Ailton Krenak, da etnia crenaque, no Congresso Nacional, em 1987, e é um dos registros que integram o documentário Martírio (2016), vencedor da categoria longa-metragem da 9ª edição do Janela Internacional de Cinema do Recife, festival que em, dez dias, levou mais cerca de 19 mil pessoas ao São Luiz e ao Cinema de Museu.

 

O filme do documentarista franco-brasileiro Vincent Carelli, que dialoga bastante com a temática do evento cinematográfico neste ano (Desobediência), venceu a categoria, segundo o júri, “por sua habilidade em reconstruir a história de um país que evita uma parte da sua própria história e que tem abusado de uma minoria desde muito tempo, após 25 anos de acúmulo de um material valioso de arquivo dos indígenas Guarani-Kaiowá, é importante para nós reconhecer a perpetuação da resistência e clamar, nos dias de hoje, por desobediência”. Os jurados foram Fabienne Morris (produtora, curadora), Irandhir Santos (ator) e Paulo de Carvalho (diretor artístico do Festival Cinelatino na Alemanha).

 

Martírio também conquistou a categoria de melhor imagem pelo júri oficial do Janela, dividindo a premiação com O auge do humano (Argentina/Portugal/Brasil, 2016), de Eduardo Williams – ainda laureado na categoria de melhor montagem. O melhor som ficou com O ornitólogo (Portugal, França e Brasil, 2016). O filme do cineasta português João Pedro Rodrigues foi eleito o melhor longa do festival pelo júri especial Janela Crítica, composto por nove jovens críticos.

 

Já o franco-sul-africano The beast (2016), de Michael Wahrmann e Samantha Nell, saiu com a premiação de melhor curta internacional pelo júri do Janela Crítica, e o mineiro Estado itinerante (MG), de Ana Carolina Soares, o melhor curta nacional. O filme, que narra as violências explícitas e sutis sofrida por uma mulher, respectivamente em seu ambiente doméstico e profissional, foi escolhido o melhor curta brasileiro, tanto pelo júri especial, quanto pela Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-metragistas de Pernambuco (ABD/PE).

 

O Prêmio João Sampaio para Filmes Finíssimos que Celebram a Vida foi concedido nesta edição ao longa português O cinema, Manoel de Oliveira e eu, de João Botelho, amigo e pupilo de Manoel Oliveira, e que esteve no Recife para um debate com a plateia. A premiação foi instituída pelo Janela em 2014, em homenagem ao crítico baiano João Sampaio, falecido naquele ano, no Recife.

 

A nona edição do festival Janela Internacional de Cinema do Recife foi organizada pela CinemaScópio Produções Cinematográficas e Artísticas, com patrocínio da Petrobras e incentivo do Funcultura/Fundarpe, Secretaria de Cultura do Governo do Estado de Pernambuco.

 

Veja a lista completa dos vencedores:

 

MOSTRA COMPETITIVA DE LONGAS-METRAGENS:

 

Melhor Longa: “Martírio” (Brasil), de Vincent Carelli

Melhor Montagem: “O Auge do Humano” (Argentina/Portugal/Brasil), de Eduardo Williams

Melhor Som: “O Ornitólogo” (Portugal/França/Brasil), de João Pedro Rodrigues

Melhor Imagem: prêmio dividido entre “O Auge do Humano” (Argentina/Portugal/Brasil), de Eduardo Williams e “Martírio” (Brasil), de Vincent Carelli

 

MOSTRA COMPETITIVA DE CURTA-METRAGEM INTERNACIONAL:

 

Melhor curta internacional: “Cilaos” (Colômbia), de Camilo Restrepo

Melhor Imagem: “Yolo” (África do Sul/EUA), de Ben Russell

Melhor Som: “Manodopera” (Grécia), de Loukianos Moshonas

Melhor Montagem: “Scales in the Spectrum of Space” (EUA), de Fern Silva

Menção especial: “The Beast” (África do Sul/França), de Michael Wahrmann e Samantha Nell

 

MOSTRA COMPETITIVA DE CURTA-METRAGEM NACIONAL:

 

Melhor curta nacional: “Estado Itinerante” (MG), de Ana Carolina Soares

Melhor imagem: “Na Missão, com Kadu” (PE/MG), de Aiano Bemfica, Kadu Freitas e Pedro Maia de Brito

Melhor montagem: “Se por Acaso” (RJ), de Pedro Freire

Melhor Som: “Quando os dias eram eternos” (SP), de Marcus Vinicius Vasconcelos

Menção Honrosa/Especial do Júri: “A Moça Que Dançou com o Diabo” (SP), de João Paulo Miranda

 

PRÊMIO JANELA CRÍTICA:

 

Melhor curta nacional: “Estado Itinerante” (MG), de Ana Carolina Soares

Melhor curta internacional: “The Beast” (África do Sul/França), de Michael Wahrmann e Samantha Nell

Melhor Longa: “O Ornitólogo” (Portugal/França/Brasil), de João Pedro Rodrigues

PRÊMIO ABD (Associação Brasileira de Documentaristas e Curtametragistas de Pernambuco - ABD/PE):

“Estado Itinerante” (MG), de Ana Carolina Soares

 

PRÊMIO OFERECIDO PELO PORTOMÍDIA (120h de estúdio para finalização de imagem e/ou som concedido para o melhor filme pernambucano do festival):

 

“O Porteiro do Dia” (PE), de Fábio Leal

 

PRÊMIO FEPEC (Federação Pernambucana de Cineclubes)

 

Curta “Na Missão, com Kadu” (PE/MG), de Aiano Bemfica, Kadu Freitas e Pedro Maia de Brito

 

PRÊMIO JOÃO SAMPAIO PARA FILMES FINÍSSIMOS QUE CELEBRAM A VIDA

 

“O Cinema, Manoel de Oliveira e eu” (Portugal), de João Botelho

"O ornitólogo". Foto: Divulgação"O ornitólogo". Foto: Divulgação

Após sete dias de maratona audiovisual, a 9ª edição do Janela Internacional de Cinema do Recife entra em sua reta final nesta sexta (4/11). Até o domingo (6/11), o espectador verá os últimos filmes de uma programação que, dentre 100 títulos, englobou clássicos, debates, concorrentes à Palma de Ouro (Cannes) deste ano, longas e curtas-metragens em competição.

O destaque desta sexta é a exibição de curtas no São Luiz, a partir das 15h30, quando o público poderá conferir produções internacionais sob a temática Espíritos e criaturas, com debate ao final. Às 17h30, o coletivo carioca Cachaça Cinema Clube, em sua oitava colaboração com o festival pernambucano, apresenta um filme que se comunica com o programa de Clássicos: Antes, o verão (1968), segundo longa-metragem de Gerson Tavares, uma adaptação do romance de Carlos Heitor Cony, protagonizada por Jardel Filho e Norma Bengell.

No Cinema do Museu, acontece a reprise de Animal político, de Tião. Após a sessão, haverá debate com o diretor pernambucano, duas vezes premiado em Cannes. Às 19h, está prevista a reprise de O ornitólogo, que rendeu ao cineasta português Joaquim Pedro Rodrigues o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Locarno (Suíça). "Não gosto de falar 'cinema português' porque os filmes são muito diferentes entre si, mas são de Portugal alguns dos autores mais instigantes e corajosos do cinema atual. Me agrada como João Pedro trata o tempo e enquadra as personagens e os lugares", diz Tião à Continente. Em seguida, será realizada a sessão comemorativa aos 20 anos de o Baile Perfumado, de Lírio Ferreira.

No sábado pela manhã, no São Luiz, ocorre, dentro do Especial Shakespeare, a reprise de Henrique V, protagonizado e dirigido por Laurence Olivier, e de Eles vivem, de John Carpenter, da programação de Clássicos. Às 16h, será exibido O cinema, Manoel de Oliveira e eu, documentário de João Botelho, amigo e pupilo de Manoel de Oliveira que estará presenta à sessão para uma conversa com a plateia. No cinema da Rua da Aurora, o dia será encerrado com Robocop, de Paul Verhoeven.

No cinema da Avenida 17 de Agosto, o crítico Alexandre Figueirôa destaca a sessão do Rabbit Hole. "Os diversos filmes desse coletivo da cidade de Lisboa, Portugal, é um ótimo exemplo da nova cena cinematográfica mundial, com obras que se inspiram na noite queer-trash das grandes cidades, dando voz e espaço aos queers e às prostitutas, amantes da arte, do core, da artcore e do hardcore, cyborgues, genderfuckers e 'rave-feministas", avalia. Na mesma sala, passará Banco imobiliário, no qual, nas palavras do crítico Luiz Joaquim, "o cinema brasileiro mostra o quão pateticamente engraçado pode ser o mercado imobiliário no país". 

Para o último dia do festival, no Cinema do Museu, estão reservadas as reprises dos clássicos Pinóquio (1940), de Walt Disney, Hair (1979), de Milos Forman, e Ricardo III (1995), de Richard Loncraine, Macbeth (1971), de Roman Polanski, e a exibição de O que está por vir, de Mia Hansen-Love (2016), com Isabelle Huppert. No São Luiz, o destaque do encerramento fica com o arrebatador Memórias do subdesenvolvimento, de Tomás Gutiérrez Alea, e a sessão surpresa, com acesso gratuito. Sobre esta exibição, a produção divulgou uma sinopse “dica” (“Registro sublime de músicos tocando”) e a duração (85 minutos), o que nos leva a supor que o filme seja Sign 'O' The Times (1987), de Prince. A trilha sonora ao vivo executada pelo grupo Rumor para a exibição de filmes mudos baseados na obra de Shakespeare, fecha, com mais música, a programação da 9ª edição do Janela.


Programação:

SÃO LUIZ


Sexta (4/11)
15h30 | COMPETITIVA CURTAS INTERNACIONAL 4: Espíritos e criaturas - 78 min + debate
17h30 | PROGRAMA CONVIDADO: Cachaça Cinema Clube: Antes, o verão, Gerson Tavares - 80 min
19h15 | COMPETITIVA LONGAS: Muito romântico, Melissa Dullius e Gustavo Jahn – 72 min + debate
21h20 | CLÁSSICOS: Apocalypse now, Francis Ford Coppola - 153 min

Sábado (5/11)
11h | Sessão Bossa Jovem: Reprise ESPECIAL SHAKESPEARE: Henrique V, Laurence Olivier - 136 min
14h10 | Reprise: CLÁSSICOS: Eles vivem, John Carpenter - 93 min
16h | ESPECIAL: O cinema, Manoel de Oliveira e eu, João Botelho - 80 min + debate
18h | ESPECIAL: Gente bonita, Leon Sampaio - 74 min + debate
20h | ESPECIAL: Solon, Clarissa Campolina - 16 min + Elon Não Acredita na Morte, Ricardo Alves Jr - 75 min + debate
22h30 | Reprise CLÁSSICOS: Robocop, Paul Verhoeven - 103 min

Domingo (6/11)
11h | Reprise CLÁSSICOS: O criado, Joseph Losey - 116 min
14h | ESPECIAL SHAKESPEARE: Rei Lear, Peter Brook - 137 min
16h40 | CLÁSSICOS: Memórias do subdesenvolvimento, Tomás Gutiérrez Alea - 104 min
18h40 | CLÁSSICOS: Sessão surpresa - 85 min
20h45 | ESPECIAL SHAKESPEARE: Shakespeare Plan On! Trilha ao Vivo por RUMOR - 70 min

CINEMA DO MUSEU

Sexta (4/11)
15h20 | Reprise COMPETITIVA CURTAS INTERNACIONAL 3: Freud e seus amigos - 79 min
17h | ESPECIAL: Animal político, Tião - 76 min + debate
19h | Reprise COMPETITIVA LONGAS: O ornitólogo, Joaquim Pedro Rodrigues - 118 min
21h30 | Baile Perfumado – 20 anos – 93 min

Sábado (5/11)
11h | Reprise COMPETITIVA CURTAS INTERNACIONAL 4: Espíritos e criaturas - 78 min
14h | Reprise COMPETITIVA LONGAS: Muito romântico, Melissa Dullius e Gustavo Jahn – 72 min
15h30 | PROGRAMA CONVIDADO: Rabbit hole: Disforias digitais - 69 min
17h10 | ESPECIAL: Banco Imobiliário, Miguel Antunes Ramos - 61 min + debate
19h | Reprise COMPETITIVA LONGAS: Wild, Nicollette Krebitz - 97 min
21h | CLÁSSICOS: O tambor, Volker Schlöndorff - 162 min

Domingo (6/11)
11h | Reprise CLÁSSICOS: Pinóquio, Walt Disney - 88 min
14h | Reprise CLÁSSICOS: Hair, Milos Forman – 121 min
16h15 | Reprise ESPECIAL SHAKESPEARE: Ricardo III, Richard Loncraine - 104 min
18h15 | ESPECIAL: O que está por vir, Mia Hansen-Love - 102 min
20h15 | ESPECIAL SHAKESPEARE: Macbeth, Roman Polanski - 140 min


Seja em escolas e universidades, seja em imóveis abandonados que poderiam servir de moradia ou área-alvo da especulação mobiliária, seja em equipamentos culturais interditados: parte da força deste ano, que em breve se encerra, está no fenômeno das ocupações. Embora cada uma guarde particularidades, com estratégias diversas e objetivos específicos, tais iniciativas se irmanam pelo seu poder de mobilização e indicam o descontentamento dos indivíduos com os agentes políticos e as instituições públicas que os representam. Se na metade do século XX, o escritor e dramaturgo francês Antonin Artaud já entendia o corpo como um campo de batalha, é emblemático que, hoje, seja justo pelos corpos, pelos corpos individuais e políticos – essas duas instâncias cada vez mais imbricadas – que se conjuga o verbo ocupar.

É neste ano que o Cine Olinda, ocupado desde o último 30 de setembro, completa 105 anos de uma existência capenga. Isto porque está (estava) fechado para obras de restauro há mais três décadas. Localizado na Avenida Sigismundo Gonçalves, no Carmo, o cinema, sempre rodeado por tapumes com dizeres de reforma, já virou uma espécie de objeto folclórico, se não uma ruína de fato, e os destroços afetivos já eram evidentes para habitantes de uma cidade-patrimônio que não possui sequer um cinema público em funcionamento. É neste contexto que, de modo espontâneo, as primeiras articulações do que viria a ser o Ocupe Cine Olinda foram se formando. Primeiro em eventos isolados, com a participação de cineclubes e discussões na frente ou ao lado do prédio que ainda conserva seu letreiro desenhado, na década de 1960, pelo artista pernambucano Bajado.

Em setembro, motivada também pela configuração política brasileira, com a PEC 241 e a mobilização nacional contrária à proposta que, entre outros pontos, pretende congelar por 20 anos gastos em educação e saúde, a ocupação se concretizou a partir desse cenário e inseriu em seu discurso demandas próprias. No manifesto, publicado na página do Facebook do movimento, atualizada pelos próprios membros quase que diariamente, lê-se: “A reabertura e manutenção do cinema é nosso objetivo. Para vê-lo realizado, exercitamos a prática diária de criar o cinema e o mundo que queremos. Entre mutirões de limpeza, organização, melhorias e debates políticos, acreditamos que o Cine Olinda é e tem que se efetivar como espaço público popular. Isso significa que a formulação da programação e a gestão do lugar devem estar abertas à participação, com mecanismos simples e diretos para a intervenção das pessoas”. O texto é assinado por mais de 30 organizações, entre elas o Direitos Urbanos, o Movimento de Trabalhadores Sem Teto (MTST), a Marcha das Vadias, o Centro Popular de Direitos Humanos (CPDH) e o Movimento Ocupe Estelita.

JANELA DE CINEMA
Desde que foi ocupado, o Cine Olinda exibiu mais de 50 produções cinematográficas e cerca de 2 mil pessoas já visitam o local. Além disso, foi firmada uma parceria com o festival Janela Internacional de Cinema, que cedeu parte de sua programação fílmica à ocupação, apelidada de OCO-Janela. A ideia surgiu por acaso e espontaneamente, de acordo com o coordenador de programação do festival, Luís Fernando Moura. “As pessoas estão levando a ocupação de forma muito interessante, e nós, do Janela, acreditamos muito na causa. Esse gesto é a nossa maneira de apoiar as causas do Ocupe Cine Olinda”, observa. “De alguma forma, é o Janela que está sendo ocupado politicamente pelo Cine Olinda, um local que esperamos que volte a ter vida e funcione com a cidade.”

Por ter se construído como um movimento horizontal, participativo e democrático, a programação incorporada do Janela seguiu o mesmo caminho. Luís Fernado faz questão de frisar que “os integrantes do Ocupe tiveram autonomia total, como um programa convidado, então eles sugeriram, organizaram e fizeram a curadoria dos filmes”. Assim, formou-se uma comissão, eleita em assembleia aberta ao público. Elaine Una, membro da comissão e representante da plataforma de comunicação Amaro Branco, deixa claro que a escolha de curtas e longas não passou simplesmente por uma análise de qualidade fílmica, mas “buscou dialogar com a ocupação enquanto estratégia de estabelecer e gerir um cinema popular”.

Outro critério levado em conta pelo júri foi a autorização dos diretores dos filmes e a disponibilidade desses realizadores de debaterem com o público do Cine Olinda. Envolvida com o Ocupe, a jornalista Débora Britto pontua que estimular a discussão “abre possibilidades de diálogo e representa muito bem o caráter aglutinador do movimento”. Uma vez concluído o Janela, porém, as atividades do Cine Olinda devem ser continuadas, com sessões às terças, quintas, sábados e domingos.

Segundo os integrantes da ocupação, ainda não houve contato da Prefeitura de Olinda, da Fundação de Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), instituições envolvidas na reforma do cinema, que ainda precisa de instalação de poltronas e aparatos técnicos para a exibição de filmes. Débora aponta que o desejo “é dialogar com o poder público”. Até lá, a ocupação segue seu projeto de reivindicar por um “equipamento cultural que exista para as pessoas”. Para ela, o grande legado do Ocupe Cine Olinda é justamente o de “recriar o sentimento de pertencimento da sociedade”.

Confira programação do OCO-Janela:

Sexta-feira 04/11

18h30 – Sessão OCO-Janela: HETERÔNIMO + debate com o realizador
Direção: Vitor Medeiros (RJ, 2016, 25', COR)
Sinopse: Mariana vive no fundo do mar. Um dia, sua professora Cecília lhe apresenta Christian, um príncipe de outro mundo. Ele é perfeito pra você.

19h – Sessão OCO-Janela: O ÚLTIMO TRAGO + debate com os realizadores
Direção: Luiz Pretti, Pedro Diogenes e Ricardo Pretti (BRA, 2016, 93')
Sinopse: Os vivos pedem vingança. Os mortos minerais e vegetais pedem vingança. É a hora do protesto geral. É a hora dos voos destruidores. É a hora das barricadas, dos fuzilamentos. Fomes, desejos, ânsias, sonhos perdidos, misérias de todos os países, uni-vos!

Sábado 05/11

15h – Sessão OCO-Janela – Filme surpresa!

17h – Sessão OCO-Janela Curtas + Debate com os relizadores

Rua Cuba – Direção: Felipe Marcena (BRA, 2016, 20'). Sinopse: Uma casa numa ladeira. Um grupo de amigos. Uma noite de festa. Um inquilino recluso. Um filme de horror?

Quarto para alugar – Direção: Enock Carvalho e Matheus Farias (BRA, 2016, 21'). Sinopse: Letícia mora sozinha. Após conhecer Gabriela numa festa e trazê-la para casa, estranhas movimentações passam a se desenvolver em seu antigo apartamento.

O delírio é a redenção dos aflitos. Direção: Fellipe Fernandes (BRA, 2016, 21'). Sinopse: Última moradora de um prédio ameaçado, Raquel precisa se mudar com a sua família o quanto antes. Este belo exercício de direção de Fellipe Fernandes, premiado em diversos festivais, revela tanto amor pela cena de cinema quanto pelo muito olindense bairro de Jardim Atlântico, onde se ambienta. É também crônica cinematográfica sobre espaço, com claro carinho fotogênico pelos folclóricos prédios-caixão.

Dia de pagamento. Direção: Fabiana Moraes (PE, 2016, 28). Sinopse: Em Rio da Barra, sertão de Pernambuco, a transposição de um rio possibilitou a compra de biscoito, casa, suco de caixinha, perfume, terreno. Quase todos foram usados como substitutos da cidadania.

19h – Sessão OCO-Janela: CÂMARA DE ESPELHOS + debate com a realizadora
Direção: Dea Ferraz (BRA, 2016, 76', COR). Sinopse: Um grupo de homens é selecionado no Recife para ingressar numa sala hermética, onde a diretora os observa e os filma. Uma televisão participa da conversa e, controlada meticulosamente dos bastidores, interrompe-os repentinamente com imagens diversas, nas quais as mulheres são figura permanente. A diretora está à espreita para ouvir os comentários de seus personagens e nos revelar uma coleção de sintomas históricos. Em tempos de combate amplamente midiatizado ao machismo, surge no Brasil um filme de ação, com muita munição.

Domingo 06/11

16h – Teatro de sombras: Ensaio aberto do novo espetáculo de Habib Zahra e Valeria Rey Soto

17h – Sessão OCO-Janela: PINÓQUIO
Direção: Hamilton Luske, Ben Sharpsteen [Walt Disney] (EUA, 1940, 88', COR, LEGENDADO)
Sinopse: Talhado em madeira pelo velho Gepeto, Pinóquio quer se tornar um menino de verdade. A animação que eternizou a figura da mentira em um nariz que cresce rebeldemente é, no fim das contas, uma bela fábula sobre a persistência.

19h – Sessão OCO-Janela: GENTE BONITA
Direção: Leon Sampaio (74 min) + debate. Sinopse: Neste filme de invasão, jovens carnavalescos vestidos de abadá empunham paus de selfie e adentram os salões dos camarotes privados no Carnaval de Salvador. Em seu primeiro longa-metragem, Leon Sampaio desloca para o cinema uma experiência até então secreta aos nossos filmes, revelando o que se passa neste universo VIP, enquanto produz um antimusical de classe.

 

Eryk Rocha nasceu no cinema. Sua mãe, Paula Gaitán, era diretora de arte e figurinista de A idade da Terra (1978), o último filme de seu pai Glauber Rocha, quando sentiu as contrações do parto e foi para o hospital. Glauber morreria quando ele tinha três anos, e sua formação cultural veio de Paula e de todos os amigos do pai que continuaram na ativa: Cacá Diegues, Gustavo Dahl, Ruy Guerra, Joaquim Pedro de Andrade, Nelson Pereira dos Santos e tantos outros.


Por tudo isso, Eryk tornou-se o herdeiro natural de uma obra que o cinema brasileiro vinha se devendo: um grande documentário sobre o Cinema Novo, até hoje o único movimento nacional de ampla repercussão internacional, reconhecido até hoje por críticos e cineastas do mundo todo. Mas o diretor jura que o projeto não partiu de uma cobrança de terceiros – muito menos de uma autocobrança. “Surgiu de uma conversa minha com o Canal Brasil, que é coprodutor de meus filmes há 15 anos. Uma conversa que vem desde pelo menos 2006. Percebemos que não havia um filme que desse conta da complexidade, da potência e do movimento do Cinema Novo”.


O maior mérito de Cinema Novo, o documentário que será exibido, neste domingo (30), no Janela Internacional de Cinema do Recife e estreia, no próximo dia 3, no circuito comercial, é emular na sua montagem a mesma energia e pulsação que existe nos filmes de Glauber, nos primeiros filmes de Cacá Diegues, Nelson Pereira, Leon Hirszman e todo o grupo de cineastas que, a partir dos anos 50, se propôs a retratar a realidade dos morros e favelas, do sertão e das ruas fora dos estúdios, extraindo poesia das mazelas do país que continuam a existir até hoje.

 

São trechos de 130 filmes que desfilam na tela, entre os longas de ficção e imagens raras de programas de entrevista. Mesmo quem nunca viu os filmes na íntegra vai sentir, em poucos segundos, a potência estética e a força política de filmes como Terra em transe e Deus e o diabo na terra do sol, ambos de Glauber; A grande cidade, de Cacá Diegues; O grande momento, de Roberto Santos; e Vidas secas, que Nelson Pereira dos Santos adaptou do clássico de Graciliano Ramos. Há entrevistas raras dos diretores para a TV francesa; uma imagem em que Glauber e Ruy Guerra, entre outros, reúnem-se com colegas que lideravam movimentos equivalentes na Europa, como o francês Jean-Luc Godard (a Nouvelle Vague) e Marco Bellocchio (o cinema político italiano dos anos 60 e 70).

 

Eryk se orgulha especialmente de ter registrado as últimas entrevistas de figuras do movimento que viriam a morrer meses depois, como Paulo César Saraceni – autor de um dos filmes seminais da época, O desafio; e Mário Carneiro, um dos mais importantes diretores de fotografia do período, responsável pelas imagens de Porto das caixas e O padre e a moça.

 

Nesse trabalho, Melhor Documentário em Cannes deste ano, Eryk dá prosseguimento a um trabalho que começou em Rocha que voa (2002), filme-ensaio em que sondava a influência do cinema de Glauber entre outros diretores da América Latina. Ele assume a influência do Cinema Novo sobre seu trabalho, mas lhe dá o mesmo peso de outras fontes. “Qualquer cineasta tem as suas inspirações. Sou inspirado pelo movimento assim como sou por Eisenstein, Dziga Vertov, Pasolini, Godard, Antonioni, Tomás Gutierrez Alea. O que fica para mim é essa simbiose que o movimento promoveu entre política e estética, forma e conteúdo. Não se deve separar essas coisas na arte, e sim colocá-las em ebulição. Isso não deve ser assimilado como continuidade, mas como inspiração. É a raiz de algo que continua em movimento”, explica.

capa 195
CONTINENTE #195  |  Março 2017

banner Suplemento 316x314

publicidade revista