Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Curtas

Eva

Política e lirismo em novo álbum de Ligiana Costa

TEXTO Augusto Tenório

02 de Outubro de 2020

Ligiana Costa construiu o álbum 'EVA' de modo inteiramente vocal

Ligiana Costa construiu o álbum 'EVA' de modo inteiramente vocal

Foto Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 238 | setembro de 2020]

contribua com o jornalismo de qualidade

“Eva está
voltando.” Essa frase foi pichada pelos muros de São Paulo nas semanas anteriores ao que consideramos o início da pandemia no Brasil. Porém, não se tratava do anúncio de um apocalipse. Era, na verdade, um clamor por novos tempos, imaginados a partir da figura feminina original na mitologia cristã, que é reinterpretada no álbum EVA, de Ligiana Costa. Nele, a cantora e pesquisadora traz músicas apenas vocais, fazendo rimar afeto e política, força e lirismo.

Ligiana Costa, que já mostrou seu talento cantando música brasileira no álbum Floresta (2013) e eletrônica no duo NU (Naked Universe), composto por ela e Edson Secco, agora caminha com calma pelo seu território. Pesquisadora de música barroca e estudiosa das canções líricas, ela transforma seu conhecimento acadêmico (que lhe rendeu o Prêmio Flaiano, na Itália, em 2018) em uma espécie de convite à sua casa. O que encontramos é um projeto uniforme, que apresenta sua mensagem usando outras seis vozes que, selecionadas a dedo por Ligiana e Dan Maia, produtor do disco no qual também colaborou vocalmente, anunciam a marcha liderada por nove mulheres que dão nome às oito faixas do disco.

“Foi uma alegria quando consegui conectar as coisas pelas quais eu mais me interesso: a beleza, a poesia, o lirismo e a luta. Eu estava nessa piração sobre essa figura mitológica e resolvi brincar com o ‘Jesus está voltando’. É como se Eva voltasse e, através dela, os humanos encontrassem mais uma chance de se reconectar com sua gênese”, afirma.

Ela diz também que não planejou o álbum, que foi se construindo aos poucos. “Comprei um caderninho e a primeira coisa que eu escrevi foi ‘nenhuma forma de machismo será permitida’. O primeiro nome que surgiu foi o de Dan Maia, o produtor do disco. A gente se conheceu fazendo trilha para teatro, uma trilha toda vocal, e desde então sonhei fazer algo com ele. Marcamos um encontro, mesmo sem eu ter ainda nada pra falar. De repente, quando cheguei lá, disse que queria fazer um álbum inteiramente vocal. Parece meio estranho contar, mas, do caminho da minha casa até a casa dele, pelo metrô, o projeto foi aparecendo”, conta Ligiana Costa, em entrevista à Continente.

Nesse processo de criação, iniciaram-se as gravações sem que as oito músicas estivessem prontas. No ritmo inspiração-composição-gravação, a primeira canção a tomar forma foi Nice, que traz os versos: “Me abrace neste instante/ Me console deste mundo/ Que lá fora se destrói/ Aqui dentro eu te protejo/ E você também protege/ O país que a gente faz”. O título abre o álbum e traz o nome da companheira da cantora. Como quem pega na mão do ouvinte, a música faz uma síntese de um disco que fala bastante de sentimento e política, traçando com sensibilidade a ponte entre esses campos.

“Eu nunca fiz músicas de amor, a música que mais se aproxima disso é Nice. Eu a compus durante as eleições, quando eu não sabia se ia poder andar de mãos dadas na rua com minha companheira”, recorda Ligiana. A canção também tem inspiração em Marina Lima, que canta “a gente faz um país” em Fullgás, de 1984.

“Eu não planejei criar músicas para mulheres específicas. Foi somente depois de ter as três primeiras que percebi que o disco deveria ter somente nomes de mulheres nas faixas. Quando aconteceu a tragédia do Museu Nacional, eu fiz a música pra Luzia, por exemplo. Quando achei o poema Nossa marcha, de Maiakovski, coloquei-o no álbum como Maya. Logo depois começaram a chegar as outras canções, como se as mulheres estivessem se apresentando pra mim. Como se fosse um pequeno exército de Brancaleone. Elas foram se apresentando conforme eu fui compondo”, recorda Ligiana Costa, citando o filme clássico L’armata Brancaleone (1966), de Mario Monicelli.

EVA, portanto, parte do campo das ideias, ressignificando ícones mitológicos. A canção Eva e Lilith, por exemplo, traz as duas faces do feminino e as aproxima de questões terrenas, como sororidade, colocando-as não como inimigas, mas como parceiras. O disco recupera emblemas do nosso passado histórico, como o fóssil Luzia, na canção homônima, junto a homenagens a mulheres contemporâneas, como a cantora Ná Ozzetti, em . A inspiração nessas mulheres permite a Ligiana revisitar ideias e experiências desse feminino múltiplo.

Luzia tem uma voz imaginária do próprio fóssil falando com a humanidade, vinda do passado, pedindo que nós desvendemos quem ela é. Ela não se lembra se é mapuche ou ianomâmi, mas se conecta com as mulheres de hoje, com as dores atuais e históricas das mulheres; só mais uma mulher queimada. é dedicada às mulheres que fazem da voz o seu instrumento de luta. Usar o lirismo com força é uma coisa muito minha. Fiz 42 anos agora e demora muito tempo pra gente juntar as peças do nosso quebra-cabeças da arte. EVA foi o lugar no qual eu mais consegui juntar as peças do meu quebra-cabeça”, explica Ligiana.

Esse quebra-cabeça não é óbvio para os ouvintes, mas começa no título do álbum. Além de ser o nome da mulher original, pode ser interpretado como uma sigla para “errante voz ativa”, que descreve bem sua autora. Ligiana Costa estudou canto barroco no Conservatório Real de Haia (Holanda), fez mestrado em Filologia Musical da Renascença e Idade Média em Cremona (Itália) e doutorado sobre Ópera Barroca na França. Nesses dois últimos países, cantou música brasileira para se sustentar.

Assim vive a artista, exercitando uma forma singular de criação artística: entre o estudo do passado e a manutenção de novos valores; entre a interpretação do mitológico e sua aplicação terrena; entre o lirismo e a luta. Atualmente, Ligiana comanda o podcast do Theatro Municipal de São Paulo, onde também escreve sobre ópera e dá aulas online. Em tempo, conseguiu-se realizar um show de lançamento de EVA antes da pandemia chegar ao Brasil.

AUGUSTO TENÓRIO é jornalista e, por vezes, cronista

Publicidade

veja também

Matheus Nachtergaele e o cinema pernambucano

Jaime Lauriano

“A tecnologia pode promover direitos ou a redução deles”

comentários