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Comentário

Por uma defesa (utilitária) da leitura literária

TEXTO Roberto Azoubel

02 de Março de 2020

Ilustração Eduardo Azerêdo

[conteúdo na íntegra | ed. 231 março de 2020]

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Nós brasileiros temos uma dívida histórica e social com a leitura. Em nosso percurso sígnico, como já nos alertou o professor, crítico e compositor José Miguel Wisnik, praticamente pulamos de uma comunicação/tradição oral para a comunicação das ondas radiofônicas e, logo em seguida e paralelamente, para o domínio da linguagem audiovisual. Sabemos que toda expressão humana, seja cultural, seja artística, é passível de interpretação, portanto, de “leituras” – tomando essas, obviamente, não apenas como a leitura do código alfabético. No entanto, ainda que valorizemos essas “leituras” (e devemos, sim, valorizá-las), perdemos muito ao negligenciar toda uma tradição da cultura escrita que nos foi (e continua a nos ser) legada pela humanidade. A interação do texto com o leitor, praticamente um ato de oração, é um acontecimento de grande potência para a expansão e desenvolvimento das nossas subjetividades. É sobre a importância da leitura literária, essa magnífica ferramenta para o enriquecimento de nosso espírito (e, consequentemente, de nossa nação), que desenvolvi neste curto artigo algumas breves reflexões.

Trabalhei como assessor técnico durante uma década na antiga Representação Regional Nordeste do extinto Ministério da Cultura (o atual Escritório Regional Nordeste, hoje ligado ao Ministério do Turismo), sempre atuando junto às políticas do setor do Livro e da Leitura. Nesse período, não era raro encontrar uma crítica em relação à militância da defesa da leitura: somos frequentemente acusados de fazer uma defesa um tanto banalizada, repetitiva (e talvez até por isso) e inconsistente do ato de ler. “A leitura forma os indivíduos”, “Ler constitui cidadãos” – eis alguns exemplos de frases prontas que facilmente escutamos país adentro. De fato, encontramos esses tipos de generalidades que repetimos no automático como mantras-clichês, por vezes esvaziados de sentido ou de um conteúdo mais substancial. Ainda que verdadeiros, precisamos contra-atacar essa crítica dando aos inquisidores o que eles querem, ou seja, respostas pragmáticas, objetivas ou, se ainda quiserem, utilitárias.

Dito isso, usarei aqui três referências que, praticamente ao acaso, encontrei em leituras avulsas nos últimos anos e que, costurando-as, servem como resposta aos críticos em questão.

A primeira delas é uma palestra intitulada Por que nosso futuro depende de bibliotecas, de leitura e de sonhar acordado, realizada pelo escritor britânico de contos, romances e quadrinhos, o Neil Gaiman (autor de Sandman, Deuses americanos, entre outros) para a Reading Agency em Londres, no dia 14 de outubro de 2013. Trago abaixo uma fusão de duas passagens do seu magnífico relato:

“Eu estive na China em 2007, na primeira convenção de ficção científica e fantasia aprovada pelo Partido Comunista na história da China. E em algum momento eu tomei um alto-oficial de lado e perguntei a ele ‘Por que a ficção científica foi reprovada por tanto tempo? E por que isso mudou?’. ‘É simples’, ele me disse. Os chineses eram brilhantes em fazer coisas se outras pessoas trouxessem os planos para eles. Mas eles não inovavam e não inventavam. Eles não imaginavam. Então eles mandaram uma delegação para os Estados Unidos, para a Apple, para a Microsoft, para o Google e perguntaram às pessoas de lá que estavam inventando seu próprio futuro. E descobriram que todos eles leram ficção científica quando eram meninos e meninas. A ficção pode te mostrar um outro mundo. Pode te levar para um lugar que você nunca esteve. E, uma vez que você tenha visitado outros mundos, como aqueles que comeram a maçã da árvore do conhecimento, você pode nunca mais ficar completamente satisfeito com o mundo no qual você cresceu. (…) Olhe à sua volta: eu falo sério. Pare por um momento e olhe em volta da sala em que você está (o exercício pode ser feito com essa sala aqui, com qualquer uma!). Eu vou dizer algo tão óbvio que a tendência é que seja esquecido. É isto: que tudo o que você vê, incluindo as paredes, foi, em algum momento, imaginado. Alguém decidiu que era mais fácil sentar numa cadeira do que no chão e imaginou a cadeira. Alguém tinha que imaginar uma forma que eu pudesse falar com vocês em Londres agora mesmo sem que todos ficássemos tomando uma chuva. Esse quarto e as coisas nele, e todas as outras coisas nesse prédio, esta cidade, existem porque, de novo e de novo e de novo as pessoas imaginaram coisas.”

Numa dedução rápida e simples, podemos considerar: a leitura leva à imaginação que, por sua vez, leva às invenções. E as invenções levam aos negócios, aos business (e até e inclusive aos poemas!, esses “desutensílios”, segundo o neologismo do poeta mato-grossense Manoel de Barros, aqui já me escapando uma resposta nada utilitária). Não foi à toa, portanto, que os chineses quiseram investir na realização da sua convenção de ficção científica…

A segunda referência encontrei nas páginas da revista Piauí, na sua edição de número 131, de agosto de 2017. Num despretensioso artigo intitulado A artista dos números, o jornalista e escritor Alexandre Rodrigues traça um perfil da matemática iraniana Maryam Mirzakhani, que faleceu em julho de 2017, em decorrência de um câncer de mama, aos 40 anos de idade e foi a primeira mulher da história a receber a Medalha Fields, oficialmente conhecida como a Medalha Internacional de Descobrimentos Proeminentes em Matemática (o prêmio é visto como a maior honraria que um matemático pode receber). Vejamos essa passagem do artigo:

“Numa entrevista por e-mail em 2015, Mirzakhani me disse que sua escola ficava próxima de várias livrarias em Teerã, e que ela costumava frequentá-las e comprar livros ao acaso. ‘Eu lia tudo que caía na minha mão’, escreveu. ‘Ser escritora parecia então um caminho natural, só depois os números começaram a ocupar esse lugar’. Mirzakhani enxergava paralelismos entre o ofício que acabou escolhendo e o de escritora. Para a iraniana, os objetos matemáticos que ela estudava – como as chamadas superfícies hiperbólicas ou os sistemas dinâmicos complexos que se transformam com o tempo, muitas vezes de maneira caótica – se comportavam como os protagonistas dos livros. ‘São como personagens que um dia você passa a conhecer melhor’, declarou à revista Quanta em 2014. ‘Depois que as coisas evoluem, você olha para aquele personagem e ele se tornou diferente de como era antes.’ Não por acaso, a criatividade foi a dimensão que o matemático Curtis McMullen, orientador de Mirzakhani em seu doutorado na Universidade Harvard, destacou na obra da pupila numa entrevista por e-mail. ‘Uma das coisas que distinguiu Maryam como estudante foi a profusão de questões imaginativas que ela formulou e perseguiu’, escreveu McMullen, ele próprio medalhista Fields em 1998. ‘Sua pesquisa combinou uma grande variedade de campos, indo dos formatos das superfícies no bilhar à teoria das cordas, numa única e rica imagem com notáveis consequências’.”

Claramente percebemos aqui a imaginação e a criatividade a serviço de uma ciência dura, no caso a matemática, que é ferramenta essencial em muitas áreas do conhecimento, tais como a engenharia, a medicina, a física, a química, a biologia etc. Áreas essas cujas pesquisas geram muito rapidamente patentes, negócios, enfim e novamente… business! E o que levou a pesquisadora iraniana a se distinguir por essas características em suas pesquisas? A resposta já nos foi ofertada no trecho acima: leitura literária.

Claro está, portanto, que as duas referências que citei até aqui dizem respeito ao impacto da leitura nos processos de imaginação e criação humanas. Mas, e se agora pensássemos a contrapelo: e a falta da leitura, no que isso acarreta? Tal indagação me remete em primeiro lugar, claro, ao nosso país e sua enorme dívida social com o ato de ler; e, logo em seguida e consequentemente, a pergunta que norteia o admirável trabalho da coordenadora da Cátedra Unesco de Leitura, a professora Eliana Yunes, terceira ilustre referência nesse meu texto: quanto custa o Brasil que não lê? A própria Yunes responde no artigo Era uma vez a leitura…, que integra o livro PNLL: textos e história, obra-documento sobre o Plano Nacional do Livro e Leitura: “Acidentes de trabalho, obras malfeitas, equívocos administrativos, desalinhamento de ações, arquivamento indevido, ignorância dos processos, burocratização inútil e irrealista das práticas interinstitucionais”.

Para finalizar esse curto artigo, amarro rapidamente aqui essas três referências fazendo uso de um adágio popular bem nordestino. Como nós da região poderíamos dizer, numa expressão que nos é muito particular, a importância e o valor do ato de ler é indo e voltando. Entendendo nesta expressão o verbo “ir” como sendo as ações construtivas (inovações, tecnologias, literaturas etc. etc.) que a sociedade desenvolverá decorrente do acesso e da prática da leitura literária (e aqui chamo a atenção para os esforços que autoridades e gestores devem empreender no que diz respeito aos estímulos e incentivos às políticas e práticas de leitura); e o verbo “voltar” pensado na sua triste possibilidade semântica do retrocesso, que, afinal, é isso o que inevitavelmente ocasiona a ausência e a privação do hábito da leitura.

REFERÊNCIAS

GAIMAN, Neil. Por que nosso futuro depende de bibliotecas, de leitura e de sonhar acordado. Disponível em: https://indexadora.wordpress.com/2013/10/17/neil-gaiman-por-que-nosso-futuro-depende-de-bibliotecas-de-leitura-e-de-sonhar-acordado/. Acesso em: 28/11/2019.

RODRIGUES, Alexandre. Artista dos números. Piauí, N°131, Agosto 2017. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/artista-dos-numeros/. Acesso em: 28/11/2019.

YUNES, Eliana. Era uma vez a leitura… In: PNLL: textos e histórias/José Castilho Marques Neto(org.). São Paulo: Cultura Acadêmica Editora, 2010. Págs. 153 a 155.

ROBERTO AZOUBEL, doutor em Estudos Literários pela PUC-Rio e coordenador de Literatura da Secretaria de Cultura do Estado de Pernambuco.

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