Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Extra

O lado verde de Brumadinho

Parque de 140 hectares, que une arte contemporânea e botânica, Inhotim aponta respiros na cidade mineira devastada pela lama da Vale

TEXTO OLÍVIA MINDÊLO, DE BRUMADINHO*

20 de Dezembro de 2019

Vista do ponto mais alto do Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais

Vista do ponto mais alto do Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais

Foto William Gomes/Inhotim/Divulgação

[conteúdo extra à ed. 228 | dezembro de 2019]

Há pouco mais de um mês, embarcamos rumo a Belo Horizonte. Do Aeroporto de Confins, pegamos a estrada direto ao Inhotim, a 60 quilômetros da capital mineira. Após mais de uma hora de vistas urbanas em puro asfalto, um chão de terra vermelha anunciava a chegada a uma região dominada, até hoje, pela atividade mineradora. Estamos na zona rural de Brumadinho e, não fosse o cinturão verde do parque de arte contemporânea a atrair uma trovoada para seu território, o cenário de boas-vindas seria desolador – para dizer o mínimo. Impossível não pensar na tragédia de janeiro, difícil não lembrar as famílias arruinadas pela lama da Vale após um rompimento de barragem devastador, que fazia, por si só, o prenúncio da crise ambiental brasileira em 2019; ali, a 20 quilômetros do instituto.

Nós, revista Continente e jornalistas de outros veículos (todos de São Paulo), fomos recebidos na área administrativa do Inhotim. Tão logo passada a chuva, montamos num dos carrinhos do parque em direção à obra de Matthew Barney, intitulada De lama lâmina, que fechara para restauro há cerca de dois anos e estava prestes a voltar a ser rota de visita no meio do mato. Enquanto a equipe empenhava retoques de finalização, a um dia da reabertura da instalação ao público, conhecíamos o seu processo de recuperação, um trabalho meticuloso que, como nos disse Renata Bittencourt, diretora executiva da instituição, não pôde seguir uma “cartilha tradicional” de restauro em arte. No caso de obras contemporâneas, sempre haverá particularidades e, no caso da de Barney, o ponto principal foi refazer completamente a escultura branca que vemos ser arrancada por um trator florestal sob uma estrutura geodésica espelhada, feita de aço e vidro.


Visita à obra De lama lâmina, de Matthew Barney, após o restauro.
Foto: William Gomes/Inhotim/Divulgação

A peça branca que compõe a instalação é um tronco de árvore cravado de instrumentos de desmatamento, como pá, serrote, espingarda, e é curioso observar que, em suas raízes, a escultura abriga um grande ovo, ou poderíamos arriscar, uma semente de futuro. Paulo Soares, gerente da área técnica do Inhotim que acompanhou cada etapa de restauro junto à equipe do artista norte-americano e da própria instituição mineira, nos mostrou que a escultura foi feita (e refeita) por um tipo de plástico biodegradável denominado policaprolactona – foi necessária uma tonelada do polímero para reerguer a “árvore”, que vinha se deteriorando em um processo de desidratação e absorvendo o pó avermelhado da terra.

É muito interessante pensar no retorno desta obra justamente agora que Brumadinho sofre de um transtorno pós-traumático. Ao fazer uma alegoria de embate entre os orixás Ogum (do ferro, da guerra e da tecnologia) e Ossanha (das florestas, plantas e forças da natureza), fica evidente o propósito de Matthew Barney em tratar a relação entre ser humano e natureza – e essa separação completamente artificial. Embora o trabalho tenha sido pensado antes do desastre, o artista captou bravamente a sina frágil que, há anos, persegue a história dessa comunidade. O site specific (elaborado especialmente para o Inhotim) se mostra, por isso, um emblema para refletirmos o parque e seu contexto.

“O que mais me impressiona é a capacidade do artista contemporâneo de fazer crítica ao passado, ao presente e ao futuro em todos os sentidos: dogmáticos, religiosos, políticos, em atitudes interligadas, mesmo que sutis”, resume Bernardo Paz, em vídeo sobre o Inhotim. Colecionador de arte e plantas do mundo todo, o empresário da mineração adquiriu, por volta dos anos 1980, as terras onde antes havia a Vila Nhô Tim – em referência a Timothy (o “Senhor Tim”), engenheiro inglês responsável pela área. Desde então, passou a plantar espécies da região e de fora sob orientação do amigo Burle-Marx, famoso paisagista brasileiro já falecido. Começou praticamente do zero, em uma área devastada. No ano de 2011, havia 4 mil tipos de plantas num solo que reaprendeu a respirar e hoje passa também por um processo de regeneração natural, a partir do estímulo à vocação ambiental da Mata Atlântica com enclaves de Cerrado. Afora a área de reserva, atualmente são cerca de 33 hectares de jardins planejados. Um deles é o poético e sensorial Sombra e água fresca, outra novidade do parque neste fim de 2019.


Imagem de uma parte do jardim Sombra e água fresca. Foto: Divulgação

Pensando na fusão que o instituto busca promover entre arte e meio, outro ponto emblemático no percurso de visitação do Inhotim chama atenção: a galeria da fotógrafa e ativista Claudia Andujar, que, como ela mesma disse, dedicou uma vida ao povo Yanomami. É justamente isso que vemos traduzido em seu trabalho exposto no local. Em novembro, uma sala da galeria ganhou uma nova obra, feita a partir da apropriação de uma de suas fotografias. Na imagem em preto e branco, clicada em 1976, vemos uma maloca indígena incendiar, mas na instalação permanente Yano-a, de Gisela Motta, Leandro Lima e Claudia, essa mesma imagem ganha uma dimensão fílmica, já que a cena parece reproduzir a ação do fogo em looping, graças a um aparato de projeção envolvendo filtro vermelho, água e ventilador, que juntos criam uma ilusão de movimento.

RELACIONAL
A despeito das contradições que envolvem o Inhotim, existe um impacto bastante positivo na relação que o espaço estabelece não apenas com os visitantes – aqueles que podem pagar R$ 44 pelo ingresso (valor cheio) ou ir às quartas (dia gratuito) –, mas, sobretudo, com o seu entorno. A diretora executiva Renata Bittencourt nos informou que, depois do rompimento da barragem, uma das primeiras iniciativas do instituto, após passar um tempo fechado, foi abrir as portas para os moradores da cidade terem acesso gratuito, todos os dias, ao local. Em outros momentos, a população teve o mesmo “passe livre”, mas isso vinha se limitando. Até o mês passado, havia cerca de 5.500 cadastrados – Brumadinho tem quase 40 mil habitantes. Em dia de domingo, uma das obras preferidas do público local tem assinatura do argentino Jorge Macchi: Piscina (2009), na qual é possível tomar banho.

Renata ressaltou a importância do impacto emocional que o Inhotim tem – principalmente hoje – na vida de Brumadinho e localidades vizinhas, cujos moradores recebem atualmente uma indenização da Vale por danos diretos e indiretos (colaterais), embora não se saiba até quando. A empresa, aliás, aumentou este ano no patrocínio ao instituto, que perdeu público após o desastre. Enquanto isso, pessoas ainda procuram pelos corpos desaparecidos de seus familiares e tentam reinventar a própria vida. Um dos funcionários que circulam pelos 140 hectares do parque dirigindo os carrinhos de visitação é morador da cidade e nos contou que o pai dele escapou da morte porque estava de folga no dia da tragédia. Mesmo assim, perdeu vários amigos e conhecidos, como disse.


Claudia Andujar visitando a nova instalação de sua galeria. Foto: Leo Lara/Inhotim/Divulgação

Parte da população local trabalha no Inhotim, como é o caso do jardineiro-chefe da instituição, Robson Santana. O homem do dedo verde vem de uma das cinco comunidades quilombolas das cercanias – Marinhos, Sapé, Ribeirão, São José e Rodrigues. Seu povo já participou da concepção e realização de programações culturais do espaço, com apresentações de congada e outras manifestações de matriz africana. “O Inhotim é uma instituição que procura ser permeável ao território, trocando, ouvindo, conversando”, ressaltou Renata.

Permeável ao território também é, de outra forma, a nova obra ao ar livre do parque, criada pelo artista norte-americano Robert Irwin – cujo trabalho é tema do Portfólio desta edição. Do seu octágono escultural, elaborado especialmente para a coleção permanente do Inhotim, no ponto mais alto do terreno, é possível ter uma visão privilegiada do entorno. De lá, vemos a paisagem por vários ângulos e enquadramentos. De lá, avistamos, mais uma vez, o contraste entre o verde e o vermelho. De lá, quem sabe, podemos vislumbrar um horizonte ao que será de Brumadinho e seus filhos.


Vistas da obra sem título de Robert Irwin. Foto: William Gomes/Inhotim/Divulgação

OLÍVIA MINDÊLO, jornalista cultural, mestre em Sociologia e editora da Continente Online.

*A jornalista viajou a convite do Instituto Inhotim.

Publicidade

veja também

Fora das roupas, dentro das almas

Matos, pragas e ervas daninhas

Como salvar a única biblioteca internacional do mundo?

comentários