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Depoimento

Como salvar a única biblioteca internacional do mundo?

Brasileira conta como tem sido a luta pela manutenção da biblioteca internacional de Estocolmo

TEXTO ISI DE PAULA

04 de Dezembro de 2019

A Biblioteca Internacional de Estocolmo funcionava num edifício de três andares, anexo, mas independente da Biblioteca Municipal

A Biblioteca Internacional de Estocolmo funcionava num edifício de três andares, anexo, mas independente da Biblioteca Municipal

Foto Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 228 | dezembro de 2019]

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Enfileiradas atrás dos computadores, pessoas de várias nacionalidades aguardam sua vez de registrar o empréstimo de pilhas de livros. Cinquenta exemplares é o número máximo permitido por usuário. Outros passeiam pelos corredores e escolhem os títulos, alguns equipados com mochilas e malas de viagem para carregar o peso. Essa era a ação nos sábados de julho na Biblioteca Internacional (BI) de Estocolmo – a maior da Europa, e provavelmente a única do mundo dedicada exclusivamente a livros em língua estrangeira – e que agora corre o risco de desaparecer, após uma decisão controversa do novo governo do país, que vem cortando gastos na área de cultura.

Do lado de fora do prédio da capital sueca, um grupo de manifestantes recolhe assinaturas contra a medida, que é justificada pelos partidos envolvidos por uma “diminuição no número de visitas e empréstimos nos últimos anos”. A ação de retirada de livros em massa é o protesto pacífico dos cidadãos para preservar a biblioteca. Ao longo desses sábados, vou à BI não só para pegar livros emprestados e contribuir com a ação, mas também para fotografar e entrevistar usuários e funcionários. Ali começamos a nos conectar para trocar experiências e elaborar novas estratégias para salvar a biblioteca.

Aberta ao público em 2000, a Biblioteca Internacional de Estocolmo reúne atualmente em seu acervo mais de 200 mil livros, além de audiolivros e filmes, em mais de 100 idiomas. É provavelmente a única do mundo nesse formato, já que funciona em edifício próprio de três andares, anexo, mas independente da Biblioteca Municipal, com seu próprio pessoal especializado em línguas diversas.

Descobri a BI há alguns anos, quando mal havia chegado à Suécia e a língua local ainda me era estranha. Foi um cavalete na calçada que chamou pela primeira vez a minha atenção para o edifício amarelo pálido: “Café da Biblioteca Internacional”. Após uma busca no Google, mal pude acreditar que a cidade para a qual eu havia me mudado abrigava uma biblioteca inteiramente dedicada a livros em outras línguas. Voltei em outro dia para procurar a seção de língua portuguesa e encontrei, no segundo andar, entre as fileiras de espanhol e dinamarquês, prateleiras cheias de livros na minha língua materna.

Desde então, a BI tem sido para mim um pequeno oásis familiar na terra estrangeira, onde tenho – ou tinha – acesso gratuito a livros do mundo todo, não só dos vários países lusofalantes, mas também obras da literatura mundial traduzidas para o português; e de todos os gêneros, de poesia a livros científicos, de biografias a dicionários. Tenho usado a biblioteca rotineiramente, pegando emprestados, por exemplo, livros de literatura infantojuvenil, no período em que trabalhei como professora de português; obras clássicas da literatura mundial, para o curso de Teoria Literária que estudo na universidade; além de leituras não obrigatórias, quando, depois de já ter lido tudo o que trouxe do Brasil, busco inspiração na familiaridade da minha própria língua e descanso para a cabeça do sueco difícil.


Interior da Biblioteca Internacional de Estocolmo. Imagem: Divulgação

Desde que se tornou oficialmente membro da Biblioteca Real, em 2011, a Biblioteca Internacional recebeu do governo sueco a importante missão de ser um centro de suporte a todas as bibliotecas municipais do país, disponibilizando mídia multilíngue e oferecendo aconselhamento e consultas. Do arquivo da BI são enviados volumes que usuários podem reservar de todos os lugares do país através de suas bibliotecas locais.

Além do acervo, pode-se usufruir do espaço público da biblioteca de outras formas: lá são realizados eventos como cafés de intercâmbio linguístico, tanto para os aprendizes tanto do sueco, como de outros idiomas, bate-papo com escritores e contações de histórias para crianças. O local funciona também como um centro de serviços. O térreo do prédio abriga um grande acervo de jornais e revistas de outros países que os usuários podem ler gratuitamente, uma rede de computadores com acesso à internet e serviço de auxílio em informática, além do café, aquele que me atraiu à biblioteca há alguns anos, onde se pode sentar para ler enquanto se toma uma fika. Os usuários da BI já não têm acesso a esses benefícios desde o dia 2 de setembro, quando a biblioteca foi fechada para balanço. Os funcionários agora seguem trabalhando a portas fechadas, preparando a realocação do acervo, prevista para a virada do ano.

O fechamento da biblioteca foi anunciado em fevereiro deste ano pelo comissário de cultura da Suécia Jonas Naddebo, representando a decisão da maioria eleita no último pleito, no ano passado, formada pelos partidos Operário Social-Democrata (S) e Verde (MP), com apoio dos partidos do Centro (C), ao qual pertence o comissário, e Liberal (L) – uma aliança que foi batizada de “maioria verde-e-azul”. Apesar de serem oficialmente a coligação governamental, o Verde – partido, inclusive, da ministra da Cultura Amanda Lind – e o Social-Democrata, que são de centro-esquerda, precisam governar com o apoio parlamentar dos centro-direitistas C e L.

Foi esse governo que, em decisão fortemente criticada pela população, decidiu cortar 49 milhões de coroas (cerca de R$ 20 milhões) do novo orçamento da área de cultura. Na ocasião, o fechamento foi divulgado como uma “mudança de endereço”: na teoria, uma parte dos livros será transferida para a Biblioteca de Kungsholmen, um espaço menor e menos centralizado, que também apresentou uma redução nas estatísticas nos últimos anos. Os livros que não puderem ser acomodados no novo local serão, em parte, espalhados pelas 40 bibliotecas da cidade e, em parte, armazenados em um arquivo fechado.

Na prática, o que acontece é que a BI perde sua autonomia. Perde o título próprio e, portanto, a possibilidade de ser a única biblioteca internacional do mundo na forma atual. Os usuários, por sua vez, deixam de ter o acervo completo em seus idiomas reunido em uma única biblioteca, precisando se deslocar entre as dezenas de bibliotecas da cidade, ou pagar uma taxa para ter os livros transferidos para a biblioteca de seu bairro. Isso afeta o grande contingente de habitantes de Estocolmo que não têm o sueco como língua materna, principalmente os imigrantes que não dominam o sueco.

Também são especialmente afetadas as famílias com crianças, que costumam ir ler na biblioteca, onde podem manusear os livros, em vez de reservá-los a distância. Outra consequência da suposta mudança é a perda de funcionários qualificados em línguas estrangeiras, que serão, assim como os livros, transferidos e espalhados pelas bibliotecas da cidade – isso sem contar com as 40 demissões previstas no plano.

Em um dos sábados do protesto conheci Matilda Wallin, a funcionária da biblioteca mais ativa na causa. Para ela, essa dispersão do pessoal qualificado é a maior perda que a biblioteca sofre com o fechamento, pois afeta não somente os usuários de origem estrangeira, mas também estudantes e pesquisadores de línguas e culturas internacionais. “Por que justamente esta biblioteca?”, pergunto a Matilda. “Somos um alvo fácil. Não é de hoje que tentam.” Para ela, o fato de o público da BI estar espalhado pela cidade inteira dificulta o planejamento de uma ação conjunta. “Se fosse uma biblioteca de bairro, com certeza os moradores se reuniriam com mais facilidade para protestar”, explica. “Pelo menos agora podemos contar com a ajuda das redes sociais.”

Matilda acredita que foi justamente a falta de investimento na internet como ferramenta de divulgação que causou o declínio no número de visitantes nos últimos anos. “O governo deveria ter apostado mais em marketing virtual para promover a biblioteca e atrair mais público, e esse problema já vinha sendo exposto por nós funcionários há bastante tempo”, conta. Bibliotecária da BI há quase 20 anos, ela tinha lágrimas nos olhos quando falava sobre a Biblioteca Internacional. “Isso é um escândalo. Se espalhamos o acervo e os funcionários da biblioteca por toda a cidade, perdemos o seu significado em si, o que a faz única.”

Um exemplo desse seu receio surgiu quando conheci, há alguns anos, a única funcionária lusofalante da história da BI, a brasileira Regina Bogestam. Eu procurava, para um projeto literário pessoal, o grande clássico da sociologia de Darcy Ribeiro, O povo brasileiro. A cópia havia, por algum motivo, desaparecido no arquivo fechado da biblioteca, mas Regina pôde me indicar alternativas, já que ela conhecia praticamente todo o acervo em língua portuguesa de cor. Até porque foi ela quem fez a compra de boa parte dele. “Não era possível mandar os livros pelo correio, então eu os trazia na bagagem quando viajava de férias”, me conta ela, quando nos encontramos em uma das manifestações.


Algumas obras em português fazem parte do acervo infantil.
Imagem: Divulgação


Regina, que se aposentou em 2014, trabalhou na biblioteca desde antes de o espaço ser aberto ao público, quando ainda se chamava Invandralånecentralen (central de empréstimos do imigrante). “Os livros ficavam escondidos no acervo, por isso começamos a pensar na possibilidade de abri-lo”, relembra. “Foi feito um estudo que recomendou que o público tivesse acesso. Pensamos que era uma pena ter tantos livros que muita gente não sabia que podia pedir emprestados através de sua biblioteca local”, conta, lembrando também a inauguração da biblioteca, que contou com a presença da rainha Sílvia.

Segundo Regina, a rainha estava especialmente satisfeita com a seção de língua portuguesa, já que, filha de uma brasileira, tem esta como uma de suas línguas maternas. Não escondo a curiosidade: “Vocês chegaram a se falar?”, “Falamos, sim, em português”, responde Regina, que já não se recorda do conteúdo da conversa, mas lembra o livro que mais chamou a atenção da majestade: uma biografia de Carolina Maria de Jesus.

Outra brasileira que contribuiu com a história da Biblioteca Internacional foi Gabriella Teixeira, responsável pelo evento de contação de histórias em língua portuguesa. Conheci Gabriella quando trabalhei como professora de Português, profissão que ela ainda pratica, tendo criado, assim como eu, uma relação muito próxima com a BI. “O evento se tornou muito mais que uma contação de histórias”, conta Gabi. “É um momento em que falantes da língua portuguesa se reúnem com afeto e voltam a sentir-se em casa”. Já a visitei na contação de histórias e pude conferir o quanto esse tipo de evento é importante para fortalecer os laços das comunidades internacionais na Suécia. Crianças vindas do Brasil ou nascidas na Suécia de pais brasileiros têm a oportunidade de brincar com outras crianças que falam a mesma língua, ao mesmo tempo em que aprendem mais sobre a cultura de seu país.

“Pensei que não só meus alunos, mas todos os pequenos falantes da língua portuguesa, precisavam de um momento de descontração, alegria e boas histórias, para perceberem que não estão sozinhos a falar o português aqui na Suécia”, explica. Foi o que a inspirou a estar à frente do evento, que é também realizado em cerca de 20 outras línguas. Graças ao evento de contação de histórias, o público da Biblioteca Internacional teve a oportunidade de conhecer 60 escritores e ilustradores de literatura infantil de mais de 40 países. “A leitura aproxima as pessoas, abre a mente para novos mundos e ideias, gera boas discussões”, defende ela.

Essas relações afetivas proporcionadas pela biblioteca não parecem ser levadas em consideração no orçamento do novo governo verde-azul. É o que tento argumentar, quando entro em contato com eles, por e-mail e pelas redes sociais, posicionando-me contra o fechamento da biblioteca. Ao que sempre recebo uma resposta padrão que diz o mesmo: a “mudança de endereço” é parte de uma série de medidas que tem como objetivo a melhoria do sistema de bibliotecas. O que não fica claro nas explicações é exatamente como o fechamento de bibliotecas pode provocar algum tipo de melhoria.

Escrevi, em julho, para um veículo local, um artigo no qual expressei minha frustração. O fechamento da biblioteca não só me afeta como estudante e profissional da área cultural, mas também me discrimina como imigrante. Argumentei que não se pode fazer uma interpretação superficial das estatísticas – a diminuição do número de visitas e empréstimos pode ter uma série de explicações. E que não se pode usar esses resultados contra as próprias bibliotecas e seu público, como uma espécie de punição por não terem tido um bom desempenho. “Bibliotecas são instituições públicas, não empresas. As estatísticas devem ser usadas, pelo contrário, como sintomas do que pode e deve ser melhorado”, escrevi. Foi a primeira vez em que me envolvi em uma questão política local.

Muitos artigos do tipo foram e continuam sendo escritos por nomes da cena cultural sueca, entre escritores, jornalistas, tradutores, acadêmicos e professores de idiomas, além de instituições como as associações de escritores e de dramaturgistas, editoras e bibliotecas. Através do movimento Rädda Internationella Biblioteket (Salve a Biblioteca Internacional), tem-se estimulado a população a pressionar o governo contra o fechamento. A ação de empréstimos em massa durante o mês de julho fez com que os números de empréstimos aumentassem em cerca de 500%. Mais de mil usuários visitaram a biblioteca para participar da ação em cada um dos sábados. No momento em que escrevo, alguns meses após o início do imbróglio, o abaixo-assinado contra o fechamento da biblioteca reúne mais de 10 mil assinaturas – o que representa quase 1,5% do número de eleitores de Estocolmo.

O assunto não só engaja a população como também divide opiniões entre os partidos. Em oposição aos verde-azuis, o Partido da Esquerda (V) e a Iniciativa Feminista (F) são os partidos que apoiam a BI. Após a pressão popular, em agosto, apenas uma semana antes do dia previsto para o fechamento, o Social-Democrata (S) voltou atrás e se posicionou publicamente contra o fechamento, propondo como solução alternativa mudar a biblioteca com todo o pessoal e arquivo para a Kulturhus (Casa da Cultura).

Apesar disso, o veredito do governo, representado por Jonas Naddebo, é mantido. O político centrista defende, desde que tomou posse, uma “nova política de bibliotecas”, que prevê inclusive a possibilidade de privatizar a instituição – o que ele chama de “utilizá-la de uma forma mais criativa”. A questão das bibliotecas, assim como da cultura em geral, e mesmo outras áreas como as de saúde e trabalho, indica uma mudança de ideologia no país mundialmente conhecido por ter se estabelecido, em uma tradição vermelha, como exemplo de estado de bem-estar social. Nas últimas eleições, foi dado um passo rumo a uma conjuntura na qual a expressão corriqueira “o Brasil virar uma Suécia” já não fará tanto sentido.

O caso da biblioteca foi uma oportunidade para os eleitores conhecerem melhor as diferentes posições dos partidos com relação não somente à cultura, mas também ao tema da imigração – questão essencial num país que se consolidou como destino de imigrantes desde a Segunda Guerra Mundial.

Na Suécia, 16% da população são nascidos fora do país e a língua mais falada após o sueco já é o árabe, que fica à frente mesmo de outras línguas europeias e até mesmo nórdicas. Em Estocolmo, quase a metade das crianças em idade escolar não tem o sueco como primeira língua. Na conjuntura atual de crise migratória, que tem despertado ondas de neonazismo na Europa e mundo afora, a Biblioteca Internacional se torna muito mais que uma biblioteca – se torna símbolo das escolhas que definirão o futuro de uma das cidades mais multiculturais do planeta.

No momento em que termino de escrever este texto, o governo mantém a posição de fechar a biblioteca e dispersar seu acervo e pessoal. O grupo Salve a Biblioteca Internacional segue pensando estratégias para reverter o processo, seja articulando-se com políticos, seja buscando espaço na mídia e conscientizando a população. Na minha estante, seguem empilhadas as dezenas de livros em português que trouxe da biblioteca, que vou descobrindo e redescobrindo um a um. Ainda não sabemos como vamos salvar a maior biblioteca internacional do mundo, mas em uma coisa eu acredito: ler também é uma forma de ativismo.

ISI DE PAULA, jornalista e estudante de Teoria Literária pela Universidade de Estocolmo e de Literatura antirracista pela Universidade Popular Feminina de Gotemburgo.

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