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Portfólio

Joan Fontcuberta

Performance e humor: um 'hacker' da fotografia

TEXTO Olívia Mindêlo

06 de Novembro de 2019

Mural 'El mon neix a cada besada' ('O mundo nasce a cada beijo'), 8 m x 3,8 m, Barcelona, 2014

Mural 'El mon neix a cada besada' ('O mundo nasce a cada beijo'), 8 m x 3,8 m, Barcelona, 2014

Foto Ludovic Maisant/AFP

[conteúdo na íntegra | ed. 227 | novembro de 2019]

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Seria curioso ou até estranho – não fosse igualmente imprescindível – escrever sobre a obra artística de Joan Fontcuberta. No Brasil, as menções ao trabalho desse catalão tendem a ficar circunscritas ao campo fotográfico, quando não são uma referência estritamente acadêmica, pois, antes de tudo – poderiam nos dizer –, Fontcuberta é um filósofo da imagem. De fato, não podemos negar esse título ao autor de livros que se tornaram obrigatórios nas estantes dos profissionais de fotografia e comunicação da atualidade – um deles, A câmara de Pandora: a fotografi@ depois da fotografia, traduzido no Brasil em 2012, pela Editora G. Gilli, como uma dessas leituras fundamentais na área. O mais interessante, porém, é que ele não produz reflexões de gabinete. Eis um pensador contemporâneo na forma e no conteúdo, para quem a imagem está longe de ser mero objeto de apreciação e elaboração teórica, ou mesmo a palavra e o livro.

Para esse “mago da ficção fotográfica” – como define a curadora portuguesa Ângela Berlinde –, a imagem é meio-fim, um campo rico para manipulações, experiências e investigações, sendo por ele revirada em suas inúmeras (e impensadas) possibilidades. É nesse solo movediço onde mora a sua criação, cujo rótulo “arte” soa desconfortável para alguém que tem por ofício estremecer paradigmas. Fontcuberta se equilibra na fronteira e se move pelas esferas da vida conforme o risco.

“Sou muito duchampiano. Duchamp dizia que, quando falamos de arte, a arte desaparece. A arte é muito sutil, inframince, como se diz no francês (em referência a esse entrelugar da criação, território de investigação estética de Marcel Duchamp). As grandes obras de arte foram feitas sem nenhuma pretensão artística, eram pretensões religiosas, de poder político, ou resultado de uma paixão amorosa, mas não havia realmente uma vontade de fazer arte. Essa dimensão artística foi uma projeção que nós colocamos depois. Mas quando o artista quer fazer arte, o resultado é algo artificial, precisamente por isso. Quando estamos muito obcecados, é quando realmente fracassamos e a arte decai”, disse à Continente, durante sua participação no Fotofestival Solar, em Fortaleza, no fim de 2018.


Milagro de la feminidad, série Milagros & co, 2002.
Foto: Joan Fontcuberta/Reprodução

Nesse sentido, podemos pensar que um antiartista não deixa de ser um artista, pois, se não fosse isso, o que seria? “Não sou um caminhoneiro, não sou um arquiteto, então vou cortando os campos e o único que me resta, ainda que seja um pouco incômodo, é o de artista, mas tento não me ver obrigado a dizer que sou artista, sempre me causa um certo incômodo responder ‘artista visual’.” A ele, parecem mais apropriadas as vestes de “mercador de ideias”, “traficante de sonhos” ou, o que é melhor, “pequeno terrorista midiático”. Essa discussão faz sentido quando adentramos nas empreitadas deste jovem senhor que, aos 64 anos (sendo 40 dedicados à fotografia), mantém a luz acesa de uma mente inventiva, bem-humorada, sagaz, portanto, facilmente escapável aos padrões da crítica cultural, principalmente fotográfica.

Senão, vejamos. A ele, o valor parece estar muito mais em “pregar peças” do que em ganhar condecorações – incluindo, por exemplo, uma da Fundação Hasselblad, que premia, anualmente, com cerca de 100 mil euros, um nome de notória atuação mundial na fotografia. Em 1989, foi Sebastião Salgado; em 2007, Nan Goldin; em 2010, Sophie Calle; em 2013, o próprio Joan Fontcuberta. Mas ser agraciado com o “Nobel” da fotografia ou ter o próprio trabalho exposto em lugares como o MoMA, em Nova York, ou a Maison Européenne de la Photographie, em Paris, são apenas parte de uma trajetória que trava um tensionamento contínuo com o caráter institucional da imagem e suas instâncias legitimadoras.

“As galerias, os museus, todas essas instituições artísticas, tenho que lidar e trabalhar com elas, mas, para mim, o lugar ideal dos projetos é nos âmbitos da vida cotidiana, no hospital, nos supermercados, na rua etc. Não crio obras para colocar em galeria. Se as exponho nas galerias é para fazer uma pedagogia de um projeto que se passou antes em um museu de ciências, ou na escola, ou na universidade, ou na igreja”, pontua.

A internet tem sido um desses locais favoritos para Fontcuberta infiltrar seus projetos. Infiltrar, porque a palavra define bem o que faz uma pessoa que trabalha no limite da verdade, buscando formas de criar “pegadinhas”, sob o intuito de revelar, através de trampas, ou “armadilhas”, os mecanismos de produção do real, desmascarando a pretensa objetividade assumida historicamente pela fotografia e pelos meios de comunicação.


Série Deconstructing Osama, 2007.
Foto: Joan Fontcuberta/Divulgação

Lançando mão da experiência como publicitário e jornalista que já foi, ele faz do fake e do humor matérias-primas para suas criações, embora afirme nunca mentir, o que também soa – como suas obras – cinicamente engraçado. Alguns o associam a uma fotografia “enganosa” ou “escorregadia”, tanto que, em 2014, um ano após ele ganhar o Prêmio Hasselblad, o jornal português Público editou um texto com o seguinte título: “Até quando vamos acreditar em Joan Fontcuberta?”. Resta-nos dizer que essa figura da fotografia veio mesmo ao mundo para inventar histórias, arrumar conversa e instigar debates – por vezes polêmicos.

A matéria do Público, por exemplo, traz justamente uma discussão sobre a fé e o “lugar da verdade e da crença na arte”, a partir da obra Milagros & co, exposta em Portugal 12 anos após o lançamento do conjunto (no livro Karelia: Milagros & co, 2002). Nesse trabalho, Fontcuberta explora seu ímpeto performático, forjando sua própria imagem em uma série de 27 composições relacionadas a milagres (ressurreição, autocombustão, milagre da carne, levitação). A questão é que, para realizar tal empreendimento, ele foi até a região da Carélia, na fronteira da Finlândia com a Rússia, onde um importante centro religioso de matriz ortodoxa ministra curso para realizar milagres. Foi lá que ele se arvorou a dramatizar esses milagres em fotoperformances, sob o disfarce de jornalista. O resultado é, no mínimo, irônico e, como quase toda ironia, traz a reboque elaborações profundas.

Outro de seus personagens foi mostrado no aqui mencionado evento cearense, em 2018, na exposição coletiva Vento solar, montada na área externa do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Na série de imagens, Manbaaa Mokfhi aparece como um suposto integrante da Al Qaeda, disfarçando-se de Dr. Fasqiyta-Ul Junat, tido como cérebro da organização talibã. E então aparece ele, de longa barba e turbante, ao lado de companheiros de cúpula como Osama Bin Laden. Segundo nos conta a curadora da mostra, Ângela Berlinde, o ensaio é, na “verdade”, parte de uma “fraude” encampada pelo grupo após os atentados do 11 de Setembro. As imagens dos supostos terroristas teriam sido parte de uma grande mentira orquestrada na qual Dr. Fasqiyta-Ul era a identidade falsa de um “ator e cantor que tinha feito parte de novelas de baixa audiência na órbita do mundo árabe”. Seja como Manbaaa Mokfhi ou como Fasqiyta-Ul Junat, Joan Fontcuberta se diverte.


Joan Fontcuberta produzindo imagens para o Gossan: Misión a Marte, na região do Rio Tinto, Huelva. Foto: Divulgação

O espírito de hacker da fotografia – e dos campos onde se mete a atuar – entra mais uma vez em ação em um novo projeto, intitulado Galaxy Entertainment, Inc, no qual cria uma empresa de parque temático na região de Rio Tinto, no Sul da Espanha. “Nessa zona, já se rodaram filmes de ficção científica, publicidade etc., realmente porque é um tipo de paisagem muito marciana. Interessante é que, há uns anos, uma equipe da Nasa descobriu que essa água vermelha dos mananciais que passam pelas minas (de cobre) permitem a vida de uns micro-organismos cujo metabolismo não se calca no oxigênio, senão em algum elemento ácido da água e (os cientistas) pensam que, se algum dia se encontrar vida em Marte, seguramente o sistema biológico será muito parecido. Tudo isso que expliquei é verdade. Agora, vamos pensar o fake”, narrou Fontcuberta. De forma didática, revelou-nos, então, sua empreitada: envolverá notícias em jornais locais, supostos conflitos com ambientalistas, logomarca da empresa e até uma foto do “presidente” da corporação (que nós, a essa altura, já sabemos quem é).

A inspiração, nos disse Fontcuberta, tem base crítica e revela um “surrealismo” maior do possam parecer quaisquer de suas invenções: “Essa é uma região muito pobre, por conta de a principal atividade econômica ser a mineração e, por desgraça, é cada vez mais custoso extrair mineral, de maneira que a maioria das minas está fechando. Isso obriga a uma mudança de modelo econômico e se está passando de uma exploração mineral a um turismo cultural: onde antes havia uma mina fechada, agora há um museu da mina e vêm os turistas, fazer visita às minas, existem hotéis, restaurantes etc.”.

Não mexe com questões suaves, esse rapaz. Quando “fala sério”, digamos assim, Fontcuberta revela suas preocupações e mostra por que é também um filósofo, sem que isso se separe de sua dimensão artística. Daí a relevância de sua presença surpreendente no mundo. Na palestra A decadência da mentira, que proferiu em Fortaleza, o artista de Barcelona desvelou os sistemas de mascaramento inscritos na fotografia, mecanismo paradoxal, a depender do seu uso. Ao mesmo tempo em que mascara, é também (e talvez precisamente por isso) instrumento que pode nos ensinar a desmascarar ameaças, conforme disse. “A mim, me interessa na fotografia pensar que pode sacudir consciências e combater esses problemas.” Por problemas e ameaças, o contexto de sua fala deixou claro: o avanço da extrema direita em tempos nos quais “imagem e acontecimento se confundem”.

Além dos trabalhos relacionados à questão do fake, Fontcuberta também fuça as entranhas de arquivos fotográficos. Em alguns deles, para criar situações performáticas; em outros, para construir murais como El mon neix a cada besada (O mundo nasce a cada beijo, 2014), em Barcelona; e há ainda situações em que revira as gavetas para fazer estudos como os do fotolivro Trauma (2016), no qual mostra que a eternidade, assim como a objetividade, são os grandes mitos da história da fotografia. E assim nos ensina que nunca sejamos inocentes – ou indiferentes – diante de uma imagem.

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Extra (vídeos):
Joan Fontcuberta - Fórum Latino-Americano de Fotografia de São Paulo
Googlegramas de Joan Fontcuberta
Joan Fontcuberta en Conversaciones en la Fundación
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OLÍVIA MINDÊLO, jornalista, mestre em Sociologia e editora da Continente Online.

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