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Portfólio

Butcher Billy

O açougueiro e seu pop político

TEXTO LUCIANA VERAS

08 de Abril de 2019

'Butcher Billy Changes Bowie' (2016)

'Butcher Billy Changes Bowie' (2016)

Imagem Butcher Billy/Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 220 | abril de 2019]

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Bily Mariano da Luz
poderia ser o nome estampado em um elegante cartão de visitas, desses que os executivos das agências de propaganda distribuem em prospecção de parcerias ou quando querem se apresentar para o mercado. Estaria no perfil das redes sociais corporativas, com foto em terno bem cortado, sem gravata, e um breve currículo: paranaense nascido em 1978, formado em Programação Visual pela PUC do Paraná e diretor de arte. Bily Mariano da Luz sentaria em reuniões, ouviria os briefings dos clientes, voltaria para a sua sala e para um expediente de 9h às 19h, com extensão de jornada sempre que aterrissasse uma grande campanha, e integraria as estatísticas dos publicitários que festejam o crescimento de 6,4% ao ano do mercado de mídia e entretenimento brasileiro, previsto em pesquisas globais.

Mas talvez justamente aí, nesse momento da narrativa em que tudo parece operar conforme os desígnios absolutos do destino, algo de estranho acontecesse e Bily Mariano da Luz se revelasse apenas uma armadura ou, melhor, a versão humana para o ousado alter ego que atende por uma outra alcunha: Butcher Billy. Em inglês, “butcher” significa “açougueiro” e esse poderia ser um provável indicativo de que suas armas, no mundo invertido à Stranger things ou no universo distópico da antologia Black mirror, fossem faca, foice ou um cutelo. Seria o Butcher a versão Mr. Hyde para o Dr. Jekyll de Bily, para aludir aos personagens lendários criados pelo romancista britânico Robert Louis Stevenson em 1886?


Stephen King’s stranger love songs by Butcher Billy (2017).
Imagens: Butcher Billy/Divulgação

“Durante um tempo, já que eu não conseguia aplicar nenhuma das minhas ideias mais arrojadas no cotidiano da agência, comecei a elaborar esse conteúdo imagético à noite, depois do expediente, quase como uma identidade secreta mesmo, sabe? Era como se fosse não apenas um projeto paralelo, mas uma realidade paralela. De dia, fazia panfletos digitais para empreendimentos imobiliários ou o site de e-commerce de uma empresa de papel higiênico, à noite eu conectava música, histórias em quadrinhos, cinema e games para criar as peças que gostava de fazer”, responde Butcher Billy, artista gráfico, designer e ilustrador cujo traço se encontra difundido nas veredas cibernéticas, em lojas estrangeiras e em qualquer lugar onde o olhar repousar: em seriados da Netflix como Stranger things e Black mirror, nos cartazes do novo longa-metragem da franquia X-men, em revistas como Rolling Stone e Playboy, em jornais internacionais como The Guardian (Reino Unido) e The Los Angeles Times (Estados Unidos) e em centenas de blogs e sites que já não conhecem ou reconhecem fronteiras.

Sim, seu nome de batismo é Bily Mariano da Luz e seu arsenal se resume ao computador, a programas como Photoshop e ao tablet, uma mesa para desenho em que o lápis é substituído por uma caneta específica, a pen tablet. “A única coisa que sei fazer na vida é desenhar”, sentencia. “Desenho desde guri. Quando meus pais me davam uma caixa de giz de cera era como se eu nem estivesse em casa. Era daqueles pirralhos que rabiscava as paredes todas”, acrescenta, em conversa com a Continente por telefone, em uma tarde na qual havia uma única brecha na sua agenda, hoje já não mais controlada pelo ritmo dos jobs, mas pela frequência das ideias e pelo rigor com o qual se dedica ao processo criativo.“Estou sempre 100% trabalhando e pesquisando, agora não apenas fazendo como uma válvula de escape ou para estimular a criatividade, mas vivendo disso.”

Antes, sua trajetória passeou, de fato, pelo ambiente publicitário que se ancora em binômios como faculdade e agência, design gráfico e peças para web, profissão e salário fixo ao fim do mês, mas desde 2012 assumiu novos tons, cromáticos e subjetivos. Esse ano é o que ele crava como “o da guinada”, ao idealizar Dead rockers, modern times, no qual fazia sutis intervenções em fotografias de roqueiros já falecidos, como Kurt Cobain, Freddie Mercury, Elvis Presley e Jimi Hendrix: “Eu pegava as imagens e pensava ‘como seria se o Freddie estivesse jogando Guitar hero ou se Kurt fosse jogar Song pop’?”. Corria o mês de julho, tinha o Dia Internacional do Rock e ele fez os cards para que algum cliente da agência soltasse nas redes. “Só que passou batido, não teve muita repercussão, então eu resolvi colocar em outro site, o Behance, e daí tive o insight de assinar com outro nome. Foi quando surgiu o Butcher Billy. Postei o conteúdo lá e me esqueci”, relembra.

Quatro meses depois, recebe uma mensagem de um amigo que indaga: “Você já se viu na capa do UOL?”. Na home do portal, uma chamada divulgava um certo “designer curitibano” que havia proposto uma releitura de ícones da música. “Quando fui, tinha já uns trocentos sites e blogs que tinham compartilhado o link do meu trabalho, páginas do mundo todo e centenas de mensagens de contato”, recorda Butcher. Ali estava o seu passaporte para o panteão da pop art e a via para expressar o desejo de produzir mais do que artes legais para vender cartazes e camisas, e sim experiências sensoriais: “A cultura pop é o imaginário coletivo de todos nós e, sendo assim, é atemporal. O que eu gosto de fazer é pensar nas peças como uma experiência, embaralhando conceitos e imagens para confundir as pessoas e deixá-las com aquela sensação de ‘como nunca tinha pensado nisso antes?’”.

Stephen King’s stranger love songs by Butcher Billy (2017). Imagens: Butcher Billy/Divulgação

Stanley Kubrick e Tim Burton no cinema, Jack Kirby, um desenhista da Marvel, na arte gráfica, e Andy Warhol e Roy Lichtenstein, a quintessência da pop art, são referências que ele acolhe com orgulho – como não poderia deixar de ser, vide o uso de repetição de signos e cores vibrantes e a apropriação de figuras famosas para forjar novas narrativas artísticas. Como Warhol fazia com Elvis e Marilyn Monroe, por exemplo, Butcher Billy faz com Madonna na série Bitch I’m (not) Madonna ou na incrível Thom Yorke: the last action hero – The 80’s VHS tapes, em que vislumbra o vocalista do Radiohead como personagem de supostos filmes de ação (intitulados a partir de canções como Paranoid android e Creep) esquecidos nos confins das prateleiras de locadoras e da memória – essas peças apresentam aquela textura de pôster rasgado e fita já detonada de tanto manuseio, típicos do cotidiano de quem alugava fitas nos anos 1980.

Ele é um produto da convergência entre passado, presente e futuro que marca o nosso tempo: seus frutos artísticos são fincados na cultura pop que consome desde criança – até hoje, evoca a sensação de desenhar os personagens de Os caça-fantasmas –, mas também arquitetada como uma antena a captar os inconfundíveis sinais da contemporaneidade.Afinal, vivemos a era de liquidificar conhecimento, repertório, linguagens. “Sempre pensei nos caras que eu admirava da música, por exemplo, como super-heróis. Qual o problema de ver o Morrissey como o Clark Kent ou como o Incrível Hulk? Ou de pensar Billy Idol como Thor e Ian Curtis como Homem-Aranha?”, provoca, dando a pista para se chegar a duas das suas séries mais impactantes e mais filiadas ao universo das HQs – The post-punk | New-wave super friends e All-new super powered post-punk marvels.

Nelas, percebe-se que, na forma, o “designer açougueiro” não retalha de modo simplista os elementos facilmente identificáveis da cultura pop. Ele os reelabora para conjurar um quebra-cabeça pictórico, operando uma fissura, por exemplo, no modo de (re)ver as dezenas de facetas de David Bowie, camaleão do rock falecido em janeiro de 2016 e retratado na série Changes Bowie. Nesses 30 trabalhos, dos quais compôs a metade por intuição e cacife próprios, a outra a partir de sugestões de internautas, Butcher Billy vai sobrepondo diversas camadas de significados e significantes, que vão da alusão direta aos títulos das canções a correlações de potência para além do maniqueísmo, a exemplo de Bowie como Batman, Coringa, Michael Jackson ou a capa da banana do álbum de estreia do Velvet Underground.

Seja fabricando um elo entre Robert Smith, líder do The Cure, e Jason Voorhees, inesquecível personagem da série Sexta-feira 13, para Butcher Billy’s tales from the Smith comic book series, ou vinculando o designer dos créditos das películas de Alfred Hitchcock a soturnos gotejos de amor em Saul Bass’ comprehensive guide to Joy Division, seja cotejando o terror de Stephen King’s stranger love songs, ou ainda definindo uma tipografia inédita a partir de fontes estudadas em cartazes do século XIX, Butcher Billy é incansável e prolífico como um açougueiro londrino que talvez atendesse tanto a Dr. Jekyll como a Mr. Hyde. Ele compreende que vivemos os efêmeros tempos do descarte, em que peças para as redes são consumidas com fervor religioso ao longo de um ou dois dias e depois perecem no limbo, mas ratifica a pop art como campo para reflexão – prova incontestável é a 2018 Brazil series, em que repensou com criticidade e ironia todos os candidatos da última eleição presidencial.

“Eu queria ser o Banksy do Brasil, mas por muito tempo neguei a minha subjetividade artística com a preocupação de ter uma carreira que pudesse pagar as contas. Agora, sou feliz porque faço o que sempre quis: trabalho com a linguagem que sei manejar e vejo minhas criações em um episódio de Black mirror ou no novo filme dos X-Men. Isso é muito bom, mas também quero propor reflexões”, situa. Para o Carnaval deste ano, inventou um novo personagem no Instagram (@thebutcherbilly): Sérgio Moro/Duas Caras, cotejando o juiz e atual ministro da Justiça a um famoso vilão de Gotham (o promotor Harvey Dent, que se torna nêmesis de Batman).

Durante a folia, Bily Mariano da Luz/Butcher Billy recebeu diversas fotos de pessoas que de sua arte fizeram uma máscara. O pop, afinal, é político.

LUCIANA VERAS, repórter especial da Continente.

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