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Ficção

O tapete dos imperfeitos

Escritor propõe uma conversa entre Philip Roth, Salman Rushdie, Ian McEwan, Paul Auster e Al Pacino

TEXTO JOSÉ LUIZ PASSOS
ILUSTRAÇÕES JANIO SANTOS

01 de Agosto de 2018

Ilustração Janio Santos

[conteúdo na íntegra (degustação) | edição 212 | agosto de 2018]

Al Pacino: Deram uma festa em Nova York e eu por acaso estava lá, na cidade, acho que era uma festa do festival de cinema de Roma, justamente quando me preparava para filmar A humilhação. Não me lembro bem por quê, mas me convidaram para essa festa e eu fui. E, claro, quando entrei, quem estava lá?

Philip Roth: Como é que alguém se torna quem é? Não tinha a menor ideia do que queria ser. Eu era o que era. De certo modo, acreditava em tudo. Só não acreditava em tapetes voadores.

Al Pacino: Philip Roth estava lá. Sentado, olhando para mim. E eu ali, de pé, olhando para ele. (Risos.) Daí eu disse, “Oi”, e ele, “Oi”, muito sério. Falei, “Olha, meu nome é Al Pacino. Eu sou o Al Pacino”, e ele, devagar, grave, “Eu sei”. Tive vontade de dizer, “Na verdade, não. Na verdade, você não me conhece, você só conhece meu trabalho”. Não é? Em todo caso. Seria provocação, uma esperteza minha. E sei que ele teria rebatido essa com uma ainda pior.

Philip Roth: Quando comecei a universidade, queria ser advogado. Era o que eu podia querer ser, o que muitos como eu queriam. Estava interessado na igualdade e na justiça, em parte por ter sido criado como judeu, eu acho. Em parte, também, por me interessar pela noção de uma verdade velada, recôndita, não necessariamente menor e que há em todos nós, mas que teimamos em deixar muda.

Salman Rushdie: A questão agora é, o que é que a verdade significa na ficção? A primeira premissa da ficção é que ela não é verdadeira. O enredo não registra fatos que tenham acontecido, ou tal como aconteceram, e essas pessoas jamais existiram. Este é o ponto de partida do romance. A forma do romance diz a você, claramente, que ela não é fiel ao real. Então, o que queremos dizer com a verdade na literatura?

Al Pacino: Enfim, tinha acabado de comprar o livro dele, A humilhação. Também comprei os direitos do livro, para fazer o filme. Depois o título mudou. E isso foi o quê? Há quatro, cinco anos. Digamos assim, quando eu ainda tinha dinheiro. (Risos.)

Salman Rushdie: Ora, buscamos a verdade que reconhecemos como seres humanos, sobre como nos comportamos em relação a outros seres humanos, sobre como lidamos com pessoas diferentes e sobre quais são nossas forças e fraquezas, rumo a uma noção, ainda que parcial, de um sentido comum para nossas vidas.

Al Pacino: Então, peguei o livro, li. Estava animado. Fiquei entusiasmado com o projeto. Disse a ele, “Ando bem animado para fazer um filme do seu livro”. Ele não falou muita coisa, “Ah é?”, e balançou a cabeça como se dissesse, ora, Al Pacino, mas isto não passa do óbvio. Agora, vá e me conte alguma coisa que não seja óbvia. Era como se ele estivesse falando assim, para mim. Mas, claro, não dizia nada. E foi aquele silêncio.

Salman Rushdie: Não precisamos saber se Ana Karenina realmente existiu, mas precisamos saber quem ela é, o que a motiva e a comove, e o que a história dela nos diz sobre as nossas vidas. Esta é a verdade que, como leitores, buscamos na forma do romance. Acho que até mesmo Philip Roth concordaria comigo.

Ian McEwan: Ele passou uma vez no meu flat, em Londres. Vivia em Londres, com a esposa, e na época nos encontrávamos com frequência. Eu tinha acabado de escrever um romance e Philip pediu para ler. Depois apareceu lá em casa, cheio de energia. Queria conversar a respeito.

Salman Rushdie: Uma vez que aceitamos que certas histórias não são verdadeiras, podemos entender que um tapete voador e madame Bovary são inverdades do mesmo tipo, “falsas” da mesma maneira. São modos de se chegar a certas convicções e valores humanos pelo caminho do amor à invenção.



Philip Roth: Quando falamos em amor, por que não repetir o que Charles Chaplin já disse? Ele costumava cantar, “É amor-amor-amor, amor, amor, amor. É amor-amor-amor, amor, amor, amor”. (Risos.) Aí há uma verdade a ser examinada.

Al Pacino: Fez-se um silêncio mortal. Não na festa, mas ali, entre nós dois. No meio da festa do festival de cinema de Roma, em Nova York. Uma coisa esquisita. Pensei, e agora?

Ian McEwan: Na sala do meu flat, Philip espalhou as páginas do livro no chão e apontava, “Isto aqui está ótimo, isto aqui também. Mas na segunda metade, seu livro desmorona. O que você precisa fazer é o seguinte”, e começou a descrever o que deveria acontecer no meu romance.

Al Pacino: Justo quando estava prestes a dizer o que me veio à cabeça, sobre o livro dele, uma onda!… o livro era uma onda, A humilhação, justo aí, pensei, não vai soar nada bem, mesmo assim eu disse, “Achei o livro a maior onda. Seu livro é uma onda, Philip”. Não deu certo. Ele não achou graça. Olhou para mim e falou, claramente, sucintamente, “Onda?”. E morreu a conversa. Então, saí dali.

Salman Rushdie: No momento em que você decide incluir na história um tapete voador, coisa que sempre quis fazer e só agora consegui… (Risos.) Neste momento, imediatamente precisa fazer perguntas específicas a respeito. Como seria voar dessa maneira? Se estivesse de pé, num tapete levitando, seria difícil manter o equilíbrio? O tapete se manteria rijo ou o ar causaria ondulações? Se voasse alto, faria frio? Como se proteger do vento?

Al Pacino: Passou esse tempo todo, e agora acho que ele já deve ter visto o filme, mas até hoje nenhum e-mail de Philip Roth. Acho que ele só gostava do próprio livro, gostava mais dos romances, de qualquer romance, do que de um filme, independentemente de ser o meu filme.

Philip Roth: Minhas primeiras histórias eram péssimas. Só depois comecei a melhorar.

Salman Rushdie: No momento em que você levanta essas questões práticas, digamos, realistas, o tapete voador se torna plausível, torna-se uma coisa que poderia existir, e que, se existisse, operaria dessa ou daquela forma.

Ian McEwan: Meu romance, que Philip revisava no tapete do flat, tinha quatro crianças. Os pais das crianças tinham morrido e elas ficaram sozinhas, numa casa. É uma espécie de O senhor das moscas num cenário urbano. Philip me disse, “O que devia acontecer na segunda parte é o céu ir abaixo e o inferno tomar conta de tudo. Precisa ter sexo, muito sexo”, e precisa disso, daquilo etc. De repente, percebi que ele estava descrevendo um romance de Philip Roth brilhante.

Al Pacino: No mundo dele, a verdade pertence a seus livros. O resto é imperfeito.

Philip Roth: Aos 25 anos, vendi por 800 dólares minha primeira história e logo me demiti como professor. De lá para cá, jamais disse o que era ou deveria ser a verdade de ninguém.

Al Pacino: Pelo menos sei quem sou. Não sou, por exemplo, um personagem de Philip Roth. Não me matei. (Risos.) Meu nome é Al Pacino.

Philip Roth: Nos últimos anos, me encontrei cercado pela morte dos meus amigos.

Ian McEwan: Enquanto emendava minhas páginas, Philip descrevia um romance que eu jamais poderia nem gostaria de escrever. Mesmo assim, me senti honrado. Na época, ele já era uma lenda. Eu só tinha publicado alguns contos. Era formidável vê-lo de quatro, no meu tapete, falando de sexo e me ensinando a montar um típico romance de Philip Roth.

Philip Roth: Sobre mim e quem imagino, falo o que quiser. Os palhaços se enforquem sozinhos.

Salman Rushdie: Afinal, o que se busca num conto de fadas, numa fábula, numa alegoria ou numa fantasia é a mesma coisa que se busca no realismo cru, ou seja, pessoas em quem possamos acreditar, comportando-se de modo que possamos reconhecer e que tais modos nos digam alguma coisa sobre nosso próprio comportamento, sobre nossa forma de ser e sobre as vidas das pessoas ao nosso redor.

Philip Roth: O romance talvez nos traga isto de volta, a vida recôndita e lúcida, a vida do corpo e a do espírito, pois são uma só. Mas isto nunca ocorrerá num romance de boas intenções. Verdade nenhuma é limpa, organizada.

Paul Auster: Philip vem falando isso há décadas. O fato é que ele continua escrevendo e seus leitores continuam lendo. Discordo completamente. O ser humano precisa de histórias. Buscamos histórias em toda espécie de lugar, na televisão, nos quadrinhos, no cinema, em peças de rádio. E em todos esses lugares as pessoas querem ouvir, ler mais. Pense nas crianças. Pense na sua infância, em como as histórias lidas na cama eram importantes. Ali Babá e os quarenta ladrões. Qualquer história que seja. Elas ajudam a moldar nossa realidade.

Philip Roth: Não tenho nenhum problema com o cinema. Não tenho nenhum problema com Bob Dylan. (Risos.)

Al Pacino: Eu me chamo Al Pacino.

Philip Roth: Estava sendo otimista quando falei que ninguém vai mais ler romances daqui a 25 anos. Sinceramente, acho que isto vai se transformar num culto. Sempre vai haver alguém lendo romances, mas será um pequeno grupo. Talvez mais gente do que os que hoje leem poesia em latim. E o problema é a narrativa impressa, o livro, o próprio objeto. Ler um romance exige certa forma de concentração, de foco, de devoção à leitura. Se você levar mais de duas semanas para ler um romance, você na realidade não leu esse romance.

Salman Rushdie: O tapete voador é uma metáfora da leitura. 

Philip Roth: No tapete, no carpete, no capacho, lembro apenas da marca de meus joelhos e dos joelhos das mulheres.

Paul Auster: Acho que os seres humanos não seriam os mesmos sem a narrativa de ficção. O eu, rememorado, já não é um passo na ficção? Admito que, no mercado de hoje, da maneira como as coisas vão, menos pessoas leem ficção do que liam antes. Mesmo assim, quando você entra numa livraria, há milhares de livros, e eles não seriam impressos se ninguém mais lesse. As bibliotecas também estão cheias de romances, e as pessoas vão lá para ler. Não acho que isto vá acabar tão cedo, porque o romance é um uma forma particularmente flexível.

Al Pacino: Não faço mais adaptações de livro, prefiro ir direto às coisas.

Philip Roth: Acho que esse tipo de foco, de concentração, de intento é difícil de encontrar hoje. Não há mais aquele enorme número de pessoas, ou um número grande, ou, pelo menos, uma cifra significativa que tenha essas condições. E não acho que o livro eletrônico faça a diferença com relação ao que estou dizendo.

Paul Auster: A forma do romance não é como o soneto. Não é fixa. Pode-se fazer o que quiser com o romance. É uma história que você conta entre a primeira e a última página. Fora isto, não há tantas regras assim. O romance se reinventa. Não importa se você lê em papel ou na tela. É uma história. Philip fazia muitas exigências.

Ian McEwan: Aos 70, cantava uma musiqueta de Chaplin, sobre o amor, e ria como uma criança. Foi um grande contador de histórias, embora tenha contado apenas uma, sua própria história.

Philip Roth: A questão é que o livro não consegue competir com a tela. Não pode competir com a tela do cinema, com a tela da televisão e, agora, com a tela do computador. E todas essas estão na vida dos leitores. O livro não consegue se impor. Simplesmente, não consegue.

Al Pacino: Ele disse, “Onda?”, e fechou os olhos na minha frente. Não nos falamos mais.

Paul Auster: Assim mesmo, reconheço, foi dos nossos grandes. Reli vários de seus livros, mas não em e-book, pois seria um desrespeito. (Risos.)

Ian McEwan: Você nos fará falta, seu diabo de quatro patas.

Philip Roth: No romance, há a perfeição na imperfeição. Um bobo nos dá uma majestosa fatia de vida. Mas primeiro é preciso descrevê-lo da maneira mais sincera possível.

Al Pacino: Como disse, me convidaram para uma festa em Nova York, me estenderam um tapete vermelho. E foi assim que essa história toda começou. (Risos.)

JOSÉ LUIZ PASSOS, escritor pernambucano, é autor de Nosso grão mais fino (2009), O sonâmbulo amador (2012) e O marechal de costas (2016).

 

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